Por Ivaris Jr. e Leandro Souza
Neste “outubro rosa” as mulheres foram agraciadas com o Prêmio Nobel de Economia concedido a novaiorquina Claudia Goldin, 77 anos, professora da Universidade Harvard, por seus trabalhos sobre mulheres no mercado de trabalho.
A mestra é a terceira mulher a vencer o prêmio desde sua primeira edição, em 1969. A PhD pela Universidade de Chicago é codiretora do Grupo de Estudos sobre Gêneros na Economia do National Bureau of Economic Research (NBER).
A pesquisa da vencedora considerou um período de 200 anos de informações colhidas nos EUA e demonstrou que, no século XVII, em uma sociedade agrária, a mão de obra feminina tinha grande relevância nas propriedades rurais. Cerca de 60% delas trabalhavam ao mesmo tempo que cuidavam de suas famílias.
Mulher rural no Brasil – No Brasil, dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP) levantados em 2021 revelam que, em 2015, 28% da força de trabalho no campo era feminina. No mesmo período, esse percentual considerando todas as atividades econômicas é de 40%.
O número de mulheres dirigindo propriedades rurais no Brasil alcançou quase 1 milhão. A partir do Censo Agropecuário de 2017, o IBGE identificou 947 mil mulheres responsáveis pela gestão de propriedades rurais, de um universo de 5,07 milhões.
A maioria está na região Nordeste (57%), seguida pelo Sudeste (14%), Norte (12%), Sul (11%) e Centro-Oeste, que concentra apenas 6% do universo de mulheres dirigentes. Os dados foram obtidos a partir de um trabalho conjunto entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Embrapa e o IBGE.
De acordo com a pesquisa, juntas, elas administram cerca de 30 milhões de hectares, o que corresponde apenas a 8,5% da área total ocupada pelos estabelecimentos rurais no país. Do total geral de estabelecimentos identificados pelo (5,07 milhões), as mulheres são proprietárias de apenas 19%, enquanto os homens detêm 81%.
Com relação às atividades econômicas desempenhadas nas propriedades, há uma diferença entre mulheres proprietárias e não proprietárias. Entre as proprietárias, 50% das atividades econômicas estão relacionadas à pecuária e criação de outros animais; 32% à produção de lavouras temporárias e 11% à produção de lavouras permanentes.
A vencedora do Nobel reforça – E Goldin demonstrou que esse retorno da mulher começa no período “pós-guerras mundiais” e se intensifica com o advento da pílula anticoncepcional, na década de 60, recurso que deu condições de planejamento da carreira e da própria família.
Segundo a Nobel de Economia, ainda hoje, ocorre uma grande disparidade salarial e de oportunidades entre homens e mulheres, em função da fase de vida em que mulheres precisam tomar decisões importantes para suas carreiras, ainda muito jovens, quando devem fazer escolhas sobre assuntos como a maternidade, por exemplo.

Contudo, com o método contraceptivo oferecendo a oportunidade de planejamento familiar, a maternidade ainda tem o poder de reforçar o gender gap, expressão inglesa para “disparidade”. Isso porque as dinâmicas ainda presentes no mercado de trabalho tendem a dificultar a ascensão profissional das mães, com sua rotina de cuidados e jornada dupla.
As mudanças no mercado de trabalho no século XX, quando o setor de serviços ganhou força e chamou, mais uma vez, as mulheres à labuta, coincide também com o aumento no seu nível educacional, ultrapassando, inclusive, a escolaridade dos homens em países desenvolvidos.
A mulher e a tecnologia – Um relatório lançado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e pelo IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura) afirma que as mulheres têm menor probabilidade de possuir smartphones e acesso à internet.
No entanto, as brasileiras são uma exceção à regra, já que em cinco dos 23 países analisados – incluindo o Brasil – o resultado encontrado foi diferente. No país há uma tendência maior de a mulher ser mais tecnológica do que o homem e, no agronegócio, esse cenário se repete.

É o que aponta uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) de 2021 sobre o perfil da mulher do agronegócio: mais da metade (55%) acessa a internet todos os dias, 60% delas têm curso superior completo e 88% se consideram independentes financeiramente.
Diretamente da lida – A mulher rural brasileira vem mostrando muita vocação para o agronegócio, assumindo posições de destaque da porteira adentro à produção de conhecimento científico e militância política com cargos nas diversas instâncias do Poder Executivo.
Elizabeth Obino Cirne Lima, 60 anos, é Bióloga por formação, mestre em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) e doutora em Bioquímica. Além disso é professora e pesquisadora em genética, com carreira reconhecida no meio acadêmico, e pecuarista.
Elizabeth cria Devon na Fazenda São Bento, em Bom Jardim da Serra (SC), e desde o ano passado preside a associação brasileira da raça. No mesmo ano, assumiu o posto de Subsecretária na Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR) do RS, como Subsecretária do Parque Estadual de Exposições Assis Brasil (PEEAB), em Esteio (RS).
Para ela, no Sul do Brasil, mulheres da sua geração, tiveram de “matar mais leões que os homens, no dia a dia”, para se sobressaírem na atividade rural e funções adjuntas. Ela destaca a determinação, capacidade de foco, resiliência e desprendimento como características essenciais para “vencer”.

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os depoimentos de Elizabeth Cirne Lima
E Carina Ubirajara Faria, médica veterinária e professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (FAMV/UFU), trabalha na formação de novos profissionais para o setor e produção de conhecimento, independente do gênero ou opção sexual. Ela se entende como uma mulher que já encontrou um caminho mais aberto.

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os depoimentos de Carina Ubirajara Faria
De geração intermediária à de Carina e Elizabeth, embora poucos anos, Maria Cristina Tupinambá Bertelli, 53 anos, diretora executiva do Canal Terraviva do Grupo Bandeirantes de Comunicação, ressalta que ao longo dos anos viu “todo um cenário mudar e se sente reconfortada”, ao estar lado a lado com outras mulheres em palcos importantes.

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o depoimento de Cris Bertelli
E a executiva acrescenta que “por natureza, as mulheres são resilientes e com habilidades multitarefas, além de mais sensíveis e empáticas, colocando-se no lugar dos outros com bem mais facilidade, o que acaba as aproximando de colegas, companheiros de trabalho e outros agentes da atividade que se engajam”.
A dupla jornada e a família – No que toca ao grande entrave levantado por Goldin, prêmio Nobel, sobre a responsabilidade mais pesada, a família – muito utilizada para justificar remuneração menor – conciliando com o “ganha Pão”, Elizabeth olha para sua trajetória, com filhos entre 30 e 40 anos de idade.

Um futuro para o bem – Mais da metade da população mundial são de seres humanos mulheres. Elas têm o dom de gerar a próxima vida, exatamente aquela que trará dias melhores.
Apesar das notícias estampadas, numerosas, todos os dias, a crença de homens não tão barulhentos aponta para deflagrar esse papel grandioso.
Se elas geram no próprio ventre, o que dirá fora dele! Assim está prescrito o futuro de equilíbrio, onde o útero é um bônus ao bem de qualquer objetivo, sem propriedade além de quem o carrega e destina. Essa capacidade estará no conhecimento.
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