Por Hyberville Neto – consultor e diretor da HN AGRO.
Algumas vezes, neste espaço, trocamos os gráficos e tabelas, normalmente presentes em nossas análises, por uma visão geral do que acreditamos que deva vir no mercado do boi gordo. Este é um desses casos.
Menor oferta de gado pode sustentar os preços do boi gordo
Do lado da oferta de gado, considerando dados do SIF, tivemos redução de 2,2% no acumulado até maio, na comparação com o mesmo período do ano passado. Como abatemos menos fêmeas, o peso médio de carcaça ficou maior e a produção de carne ainda está em patamar próximo ao de 2025, um nível muito elevado.
Mas justamente a redução de 7,5% nos abates de fêmeas, na mesma comparação, com aumento de 2,0% no abate de machos, resulta em um indicador muito importante do que devemos observar adiante.
É a famosa retenção de fêmeas, associada a um momento de maior investimento na atividade, em resposta aos preços do bezerro, que ganharam firmeza e têm evoluído desde 2024. Com isso, esperamos que a oferta de gado desacelere, principalmente de fêmeas, e isso ajude a manter os preços em alta.
Mais informações sobre o abate de fêmeas e o ciclo pecuário
A redução dos abates de vacas e novilhas tem sido observada em diferentes regiões do País e reforça os sinais de mudança no ciclo pecuário. Para entender melhor esse movimento, confira também:
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Se estamos produzindo carne em um patamar próximo ao de 2025, mas exportando 16,3% mais carne bovina, o resultado é uma redução da disponibilidade interna de carne, que abordaremos com mais detalhes em outra ocasião. Mas o ponto é que, com menos carne a ser escoada, conseguimos preços maiores.
Exportações de carne bovina e cota chinesa concentram as atenções
Em relação às exportações, temos diversos pontos que merecem atenção. No entanto, os holofotes já estão nesses pontos.
A questão da cota para a China, segundo algumas projeções, começou o ano praticamente encerrada. De acordo com os próprios compradores, atingiu 50% em 9 de maio. Cabe destacar que 50% da cota equivale a 550 mil toneladas e, também segundo dados da China, até abril tínhamos enviado 612 mil toneladas.
Ou seja, se em 9 de maio consideraram 550 mil toneladas, só aqui já temos 62 mil toneladas aparentemente “desconsideradas”, sem contar um terço do número de maio, até o dia 9, com mais umas 30 mil toneladas, em uma estimativa redonda. Ou seja, parece que a China tirou da conta algo em torno de 90 mil toneladas.
Outro ponto relevante é que o ritmo de saída de carne do Brasil no final de 2025 foi recorde, carne que chegou no início deste ano ao país e ajudou a compor esses números fortes do início do ano, considerando a chegada lá. De acordo com os dados da Secex, o ritmo de saída de carne para a China neste começo de ano foi recorde para o período, mas bem aquém dos maiores volumes históricos da reta final de 2025.
Ou seja, o ritmo de chegada de carne à China diminuiu ao longo dos meses, até abril pelo menos. Com isso, a nossa projeção para fechamento da cota está entre agosto e setembro, considerando a carne chegando lá, que é a referência oficial.
O impacto disso tende a ser observado antes nas negociações, um pouco pela incerteza, que realmente existe, e um pouco porque é um motivo para segurar o mercado, que tem um consumo doméstico que tem feito sua parte, com ajuda da Copa e de todas as questões relacionadas às eleições, sejam gastos com campanha ou benefícios eleitoreiros, que são ruins para o cenário fiscal, mas, no curto prazo, ajudam a demanda.
Quanto aos Estados Unidos, até o momento as informações são de que a carne bovina está entre as exceções a uma possível tarifa de 25% que os Estados Unidos estudam aplicar contra o Brasil. O país está com o rebanho nos menores patamares em décadas e preços em alta.
Temos também o cenário de inflação devido aos preços do petróleo em alta, com a guerra no Irã. Essa situação tem evoluído, mas os efeitos sobre os preços em geral não passarão do dia para a noite. Nesse contexto, para nenhum país é interessante taxar produtos que precisam ser importados, como a carne bovina.
Não descartamos que haja notícias, ajustes ou flexibilizações da cota chinesa, algo que pode ser sinalizado com o fechamento da cota australiana, que já passou de 90% e nos dará uma ideia interessante do que o comprador fará.
O caso da União Europeia é outro ponto que merece atenção e tem que ser acompanhado, principalmente por ser um destino que paga muito bem, apesar de volumes não mais tão relevantes como já foram. Há um contraponto, já que, se nada mudar até a data de suspensão, podemos ter um efeito de antecipação de compras, para aproveitar a janela, reforçando as exportações e ajudando os números do meio do ano.
O que esperar do confinamento na segunda metade do ano?
Para o segundo semestre, as atenções se voltam ao confinamento, que deve trabalhar entre estabilidade e crescimento sutil, com bons números para custo da arroba engordada, com preços do milho atrativos, mas reposição encarecendo a arroba entregue. A incerteza quanto às cotas e seus efeitos também deixou muito produtor com receio de programar operação para venda agora nos próximos meses, o que pode atenuar um pouco a oferta.
Do lado dos embarques, mesmo se a China realmente não fizer nenhum ajuste e as tarifas incidirem, acreditamos que um nível de compras será mantido, como aconteceu com os EUA, que mesmo com 76,4% de taxas compraram nossa carne no segundo semestre de 2025.
Paralelamente, quando a China reduz as compras, há aumento importante para outros destinos. Isso foi observado em 2021, quando o país deixou de comprar, e o grupo dos outros destinos teve o maior volume até então. Também temos vendido mais ao Uruguai e à Argentina, que provavelmente estão se abastecendo com a nossa carne para aproveitar suas cotas à China.
Um cenário possivelmente mais calmo no Oriente Médio pode colaborar com uma demanda reprimida pela guerra nos últimos meses em países da região.
E, de outubro em diante, já teremos negociações de gado que será abatido e chegará à cota chinesa em 2027, além da demanda melhor do final de ano.
Há espaço para alta da arroba no fim de 2026?
Com todas essas variáveis, a nossa leitura é de que o mercado realmente está mais complexo no curto prazo, embora nossa expectativa seja de um período relativamente mais ameno do que a maior parte das expectativas apresentadas.
Já para a reta final do ano, acreditamos em espaço para que o mercado ande bem, com demanda doméstica associada a exportações provavelmente quebrando recordes. O ponto de cautela é uma concentração maior de gado de confinamento ao final do ano, justamente pela incerteza do terceiro trimestre.
Ainda assim, acreditamos que o cenário de reposição limitada segure o confinamento frente a aumentos maiores, e a demanda forte faça sua parte.
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