OUÇA | Sairá na frente quem logo aceitar as mudanças climáticas

As novas tecnologias que chegam para incrementar a produtividade já estão em consonância com as alterações do clima e a sustentabilidade

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Diante de tantas intempéries vividas pelo Rio Grande do Sul, como as sucessivas estiagens e nove ciclones extratropicais nos últimos três meses, a reportagem do Portal DBO foi ouvir Júlio Barcellos, médico veterinário, PhD, professor titular do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do estado (UFRGS) e Coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), sobre como a corrida da produção científica pode apoiar os produtores rurais da região.

O médico veterinário Júlio Barcellos, coordenador do NESPro/UFGRS (Fotos: Arquivo pessoal)

Segundo o acadêmico e pesquisador, “ela vai bem, mas poderia ir melhor e precisa de políticas públicas”.


Portal DBO – Como o professor avalia a aceitação dessa realidade trazida pelas mudanças climáticas que tanto afetam os gaúchos, por parte dos agropecuaristas, em especial os criadores?

 

Portal DBO – E como o aquecimento global afeta diretamente a bovinocultura de corte?

Barcellos – Na pecuária, os desafios são maiores, especialmente para os bovinos, onde formam a maior cadeia produtiva. A espécie não responde de forma imediata, como na agricultura, e sim em médio e longo prazos. No caso dos suínos e aves, eles já tem no Sul do país um ambiente absolutamente artificializado para compensar quaisquer variações climáticas.

Contudo, esse modelo de muita interferência no ambiente vem representando custos mais altos de produção, uma vez que, com mais dias de temperaturas altas, precisa de mais dias de refrigeração, o que requer maior consumo e disponibilidade de energia. Tudo isso afeta a produtividade que, para ser mantida, cada vez mais ajustes no controle do ambiente serão necessários.

“Para as espécies que trabalham em pastagens, percebo que aquela convenção de raças europeias para o Sul, as sintéticas para as áreas de transição e as zebuínas para as tropicais não mais assina uma verdade absoluta. Veja que as mudanças climáticas, nesse mês de julho, trouxe temperaturas máximas semelhantes às do mês de janeiro, típicas de clima subtropical e não mais de temperado”.

Tal realidade impactou muito o desempenho dos animais, pois nesse calor eles comeram menos. Isso significa que os genótipos ora trabalhados devem passar por seleção, o que de certa forma já acontece, ainda que muito lentamente. Certo é que se não acertarmos com esses animais, a cadeia produtiva da carne bovina perderá competitividade. É preciso um motor adequado para um clima diferente.

Portal DBO – Quais problemas podemos perceber mais incisivamente no dia a dia?

Barcellos – É muito importante compreender que olhar médias de temperaturas em um único mês pode não traduzir a dura realidade. O que atrapalha a produção animal são exatamente os picos de temperatura. Um dia que registrou 40ºC e no seguinte 20ºC, a média é 30ºC.

Ocorre que duas horas em 40ºC já é o suficiente para mortes embrionárias e perdas de qualidade espermática nos touros. E tudo isso é um prejuízo invisível, somente sentido na queda da produtividade, que muitas vezes podemos ignorar, atribuindo os resultados a problemas nutricionais ou falhas de manejo.

“A IATF, por exemplo, que cresce em progresso geométrico no Brasil, não está conseguindo vencer algumas barreiras. Só que evidências científicas mostram que se, no dia da inseminação artificial, a temperatura estiver acima daquela confortável ao animal, ocorrem perdas significativas. E não adianta procurar responsabilidades no hormônio, no protocolo, no manejo ou no inseminador. Todo o problema está no ambiente”.

Alguns se perguntam se há 10 ou 15 anos isso não acontecia? A resposta é sim, mas em uma incidência muito menor. Logo, as mudanças climáticas remetem a novas necessidades de pesquisa. No NESPro trabalhamos com avaliação de touros em diversas regiões brasileiras, como Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e estados do Sul, monitorando a eficiência reprodutiva.

A qualidade espermática está abalada, como no Rio Grande do Sul, até para as raças sintéticas. A notícia boa é que em cada região dessa encontramos ainda indivíduos extremamente adaptados.

Exemplificando, identificamos que algumas linhagens de Hereford, uma raça de clima frio, no calor de Minas Gerais, apresentam bom comportamento. Logo, só precisamos identificar, genotipar e multiplicar esses indivíduos e multiplicá-los.

Portal DBO – Mas as mudanças climáticas também trazem outros problemas tais como doenças?

 

Portal DBO – Nesse momento econômico do país não faltam recursos?

Barcellos – Claro que toda pesquisa precisa de investimento e, nesse ponto, entram as políticas em torno das novas necessidades. Faltam recursos, obviamente, embora eu prefira me posicionar que é necessário maior eficiência no uso dos recursos disponíveis do que simplesmente clamar por mais. É preciso somar esforços, integrar equipes, de modo que as pesquisas acelerem, pois um pesquisador só não vai resolver nada. Também na ciência temos de fazer mais com menos.

Portal DBO – Políticas públicas bem dirigidas são o outro alicerce para acompanhar de forma produtiva as mudanças?

Barcellos – Dentro da porteira, preocupa-me bastante a falta de uma política pública para melhorar a ambiência da criação de gado. Por exemplo, quando falamos da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) nós temos um ambiente muito mais favorável, oferecendo barreiras contra ventanias geladas e sombra para proteger da insolação das temperaturas escaldantes etc.

As matrizes de corte, fêmeas que precisam produzir um bezerro por ano, seriam muito beneficiadas. Logo, uma política pública para incentivar a aplicação dessa estratégia é uma grande estratégia para melhorar a ambiência. Essas políticas forneceriam os recursos necessários para se investir nesse quesito.

Fornecimento de água de qualidade é outro item que passa à margem. Para se ter uma ideia, um bovino com peso de 500 kg toma 50 litros de água por dia, em uma temperatura normal. Em um dia de 40ºC, ele toma 100 litros. Da mesma forma, os confinamentos terão de ser redimensionados na disponibilidade de bebedouros e sombreamento para se adequarem à nova realidade.

 

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