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O sonho da verticalização na pecuária

Conheça a história do produtor que montou um plantel e criou sua própria marca de carne de qualidade, com valor agregado e respeito ao bem-estar animal.
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Criar uma marca de carne é um sonho acalentado por muitos produtores. A chamada “verticalização da pecuária”, que permite o controle de todos os processos da cadeia, desde a criação do bezerro até a chegada do produto ao consumidor, requer cuidados que ultrapassam o sistema produtivo em si. A assinatura de um selo exige não apenas a entrega de uma mercadoria de qualidade com oferta garantida o ano todo, mas a garantia de atributos que vão muito além das percepções sensoriais dos consumidores, cada vez mais preocupados com os preceitos de sustentabilidade e bem-estar animal.

José Pavan Neto, da JP Agronegócios, transformou o sonho de ter sua própria marca de carne em realidade. Fotos: Divulgação/JP Agronegócios

O produtor e empreendedor José Pavan Neto, da JP Agronegócios, era um estudante de Zootecnia matriculado na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA/USP) quando conheceu os professores José Bento Ferraz e Joanir Eler, dois dos geneticistas mais respeitados do País. Ambos estavam à frente do Programa Montana e eram os responsáveis pelas avaliações genéticas da raça composta (atualmente o programa está sob responsabilidade da Embrapa/Geneplus), e lhe apresentaram a raça.

SAIBA MAIS!
Quer transformar seu sonho de ter uma marca própria de carne premium em realidade?

Se você pensa em criar sua própria marca, assista nossa entrevista com José Pavan Neto, da JP Agronegócios. Ele conta como transformou o sonho da verticalização em realidade, com foco em genética, bem-estar animal e tecnologia sustentável, em parceria com a Ceva Saúde Animal.

Enquanto ainda cursava a universidade, o pai de Pavan, o também produtor José Pavan Júnior, tocava as duas propriedades, a Fazenda Santa Rita, dedicada à cria e a Fazenda Floresta, voltada à terminação, ambas situadas no município de Três Lagoas (MS). Entusiasta do cruzamento industrial, o patriarca recorria ao uso de reprodutores taurinos para cobrir seu plantel de matrizes Nelore. Era meados dos anos 2000, e a IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) ainda engatinha no Brasil.

A empreitada, como bem sabem os pioneiros do cruzamento industrial no Brasil Central, não era fácil. “Os touros sofriam muito com o calor, por isso nossas taxas de concepção eram baixas. Não estávamos satisfeitos”, relembra o filho. Acompanhando ainda de longe o trabalho do pai, Pavan encontrou dentro da universidade uma saída para viabilizar o cruzamento. “Vi o resultado das avaliações genéticas do Montana e o desempenho da raça no campo. Pensei que poderia ser a solução mais adequada para a nossa fazenda”, afirma.

Por uma dessas coincidências que acontecem na vida, um dia um amigo, também zootecnista, lhe telefonou dizendo sobre uma fazenda que estava liquidando parte de seu plantel Montana. A propriedade em questão era a Fazenda Madeiral, do criador e selecionador Carlos Klinkert Maluhy, referência na seleção das raças Montana e Bonsmara, que havia falecido há pouco tempo. “Fui conhecer o gado e gostei. Vacas com bom escore corporal, bezerros pesados ao pé. A fazenda tinha condições muito parecidas com as nossas. Saímos de lá, eu e meu pai, com 629 fêmeas, entre matrizes e novilhas. Montamos o nosso plantel”, relembra

Três gerações da família: José Pavan Júnior, José Pavan Neto e o pequeno Antônio Pavan.

Carne com história

A seleção do Montana na Fazenda Santa Rita teve início em 2011, dando continuidade à seleção da raça na Fazenda Madeiral. Além da boa adaptação às temperaturas mais altas na região, Pavan foi descobrindo, aos poucos, outras qualidades do composto, como o peso elevado à desmama. “Comparando com os animais que comprava e recriava na fazenda, reduzi em um ano a entrada dos bois no confinamento”, diz. A precocidade reprodutiva também chamou a atenção. “Com 14 meses as fêmeas já estão aptas a entrar na estação reprodutiva”, afirma. Dois anos depois, pai e filho aportariam novamente na Fazenda Madeiral, desta vez para arrematar toda a desmama (400 animais, entre machos e fêmeas).

Certo dia, em conversa com Eduardo Pedroso, Diretor de Originação da JBS, Pavan ouviu do executivo se conhecia o Programa 1953, que premia carne de qualidade e é aberto a todas as raças. A JP Agronegócios tem um confinamento na Fazenda Floresta, onde abate os animais descartados do processo de seleção e as vacas que não emprenharam na estação de monta, principalmente novilhas. “Fizemos um abate experimental e entramos para o programa. Lembro que o Eduardo me perguntou: você tem ideia da qualidade da carne que está produzindo na fazenda?”, recorda.

A carne chegou até os restaurantes e Pavan se animou em participar do primeiro festival Toro Negro Steak House, em 2019. O evento, sediado em Bragança Paulista (SP), se tornou uma referência no consolidado ponto gastronômico no interior do Estado. “Apresentamos a nossa carne com uma carta contando a história da raça e de como os animais eram produzidos na propriedade. Me encantei com o projeto porque era onde queria me encaixar: contar a história da fazenda por meio da carne”, diz.

Plantel de matrizes Montana na Fazenda Santa Rita, em Três Lagoas (MS).

Marca própria

O fornecimento para o programa 1953 caminhava bem, mas em razão do tamanho da operação da JBS, nem sempre era possível rastrear para onde era destinado o produto, o que impossibilitava Pavan de acompanhar mais de perto a cadeia após o processamento. É aí que entra em cena o Frigodil, frigorífico de pequeno porte localizado também em Três Lagoas. A indústria estava lançando uma linha de carne premium, o rótulo “T7”, e o produtor topou o convite para fazer um abate experimental.

A experiência deu certo e a fazenda passou a abastecer, em 2021, a linha T7 do Frigodil. A parceria com a indústria frigorífica abriu o caminho não somente para conhecer o destino do produto, mas identificá-lo por meio de uma assinatura própria, com o lançamento da marca “JP Beef”. “Nossa carne chega ao consumidor com o selo da linha premium, o da Associação dos Criadores de Montana e da JP Agronegócios, o que nos permite atestar a qualidade e origem da carne, além de fortalecer nossas ações de marketing”, afirma.

No ano seguinte, em 2022, Pavan decidiu ele próprio se aproximar mais do seu consumidor. Começou levando alguns cortes para amigos e familiares experimentarem, em datas comemorativas e confraternizações. “As pessoas gostaram e começaram a me procurar para comprar. Tive que montar um pequeno estoque no meu escritório”, diz. Os pedidos cresceram tanto, principalmente pelo whatsApp, que Pavan decidiu montar uma loja física na cidade de Paulínia (SP), onde reside, ano passado. “É um sonho poder contar a nossa história. Levar um para o mercado o que é produzido na fazenda da nossa família”.

Marca está alinhada aos preceitos de bem-estar animal

A marca JP Beef é abastecida por novilhas recriadas a pasto e terminadas em confinamento, por um período que varia de 90 a 100 dias. As fêmeas são abatidas, em média, com idade entre 24-30 meses. Vacas de primeira cria (primíparas) que não emprenharam na segunda estação de monta também fornecem a carcaça nos padrões desejados para o selo. O peso de abate oscila entre 16-19 @.

Na medida em que o produtor José Pavan direcionou seu negócio para o mercado de carne de qualidade, intensificou a seleção de seu plantel utilizando a ultrassonografia de carcaça. A técnica permite identificar atributos como marmoreio, gordura subcutânea e de acabamento e Área de Olho de Lombo (AOL), parâmetros indicativos de qualidade da carcaça e do padrão desejável para os cortes. “Identificamos muita variação no rebanho, o que por um lado é bom, pois há bastante espaço para melhorar”, afirma.

O produtor explica que características de carcaça têm herdabilidade alta, muito maior do que as de desempenho ou fertilidade, por exemplo. “Passamos a identificar e selecionar os melhores animais do plantel nos quesitos de qualidade da carne, mas sem deixar de lado as características produtivas”, diz.

Montana é bem adaptado ao calor, tem bom desempenho a campo e precocidade sexual.

A exemplo do trabalho de seleção, que visa a assegurar qualidade do produto que chega ao mercado, o produtor também passou a se preocupar com valores cada vez mais caros aos consumidores, como a sustentabilidade e o bem-estar animal. Ao tomar conhecimento de como o eCG (gonadotrofina coriônica equina), um dos hormônios mais importantes utilizados na IATF, é produzido a partir do sangue de éguas prenhes, Pavan se espantou.

“Passei a buscar alternativas, porque se tivesse opção seria um produto que não gostaria de usar no manejo reprodutivo da fazenda”, conta. Ao pesquisar, descobriu que havia um substituto para o hormônio natural, com resultados similares: o r-eCG ou simplesmente eCG recombinante. Trata-se de uma glicoproteína produzida in vitro pela Ceva Saúde Animal. “Faz mais sentido utilizar essa tecnologia para a carne que estou produzindo”, diz.

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