Em artigo publicado no site da Beef Central (www.beefcentral.com), o respeitado e experiente jornalista norte-americano Clint Peck, especializado na cobertura do setor pecuário, reproduz um pensamento que, segundo ele, atormenta milhares de pecuaristas de gado de corte dos EUA: “Pegar o dinheiro e fugir?”
No texto, Peck ressalta a complicada conjuntura atual do mercado pecuário norte-americano, que obriga os criadores locais a enfrentar uma decisão estratégica, bastante difícil de resolver: vender tudo ou se manter na atividade sem saber ao certo como conseguirá repor o seu rebanho daqui para frente.
Como se sabe, os preços das matrizes e categorias de reposição dispararam nos EUA, um reflexo da drástica redução no rebanho de vacas – o menor desde a década de 60 – ocasionado por um longo período de seca e, consequentemente, a disparada nos custos dos principais insumos da nutrição bovina.
No artigo, o jornalista menciona como exemplo o dilema enfrentado pelo casal de pecuaristas, Erika e Bryson, que criam gado de corte perto de Cave Spring, Geórgia, no noroeste do estado – eles mantêm um rebanho de 130 cabeças, o que está em linha com a média das fazendas norte-americanas.
Peck busca saber do casal qual estratégia seguir diante do grande desafio de preços historicamente altos. “Com os preços atuais do gado vivo em alta histórica, como eles podem expandir o rebanho? Ou, mais urgentemente: como continuar viáveis no negócio?”, indaga o jornalista, recebendo a resposta de Erika.
“Eu estaria mentindo se dissesse que nunca pensei em vender tudo o que temos, porque os preços do gado estão nas alturas”, diz ela, que continua: “Mas será que faríamos isso de verdade? Não. No entanto, entendo por que tanta gente está saindo da pecuária. Muitos produtores antigos veem este como o momento ideal para encerrar as atividades.”
Erika e Bryson, escreve Peck, têm paixão pela agricultura e pela criação de gado. “Eles sabem que, se saírem do setor agora, será quase impossível recuperar o que venderam”, observa o jornalista.
“Entrar na pecuária sempre foi um desafio. Expandir um rebanho, então, nunca foi fácil – principalmente devido ao custo de oportunidade de manter fêmeas de reposição. Mas, hoje, esse custo de oportunidade está no nível mais alto que os economistas da pecuária já imaginaram”, contextualiza Peck.
O casal Lamboy, com pouco mais de 20 e poucos anos, é tão apaixonado por gado quanto qualquer um, continua o artigo.
“São também defensores da indústria da carne bovina e do modo de vida rural. Embora ambos trabalhem fora da fazenda, eles passam as noites, fins de semana e folgas se dedicando a melhorar a propriedade e expandir sua operação pecuária integrada”, destaca.
Os Lamboy, diz o artigo, optaram por comercializar a maior parte de seus bezerros na forma de carne “criada no pasto”, pronta para congelamento. Os bezerros destinados ao mercado são terminados com uma ração de milho suplementada diariamente enquanto ainda estão no pasto, resultando em carcaças marmoreio adequado.
Peck conta que Erika firmou uma parceria com um frigorífico local, inspecionado pelo governo federal, para abater, processar, embalar e congelar a carne dos novilhos e novilhas criados na fazenda.
“Vender carne dos próprios animais criados na propriedade é um desafio para os Lamboy – e não é diferente do que enfrentam milhares de outros pecuaristas nos EUA hoje”, informa o jornalista.
Erika diz que, embora ela e Bryson tenham acesso razoável a mais pasto, não gostam da ideia de se endividar para comprar novilhas prenhes que custam mais de US$ 4.000. “Eles são firmes ao dizer que, se for para crescer, será de forma ‘orgânica’ – não no sentido de carne orgânica, mas no de tirar do próprio bolso”.
“Ambos temos diplomas em agricultura, mas ninguém nos ensinou a lidar com uma situação como essa”, afirma Erika, ao experiente jornalista. Ela acrescenta: “A demanda por carne só aumenta, e a gente quer crescer. Acho que é um bom problema, mas não podemos interromper nossa cadeia produtiva vendendo nosso rebanho agora. Elas são a nossa fábrica.”
No caso dos Lamboy, explica Peck, a demanda por sua carne vem sendo impulsionada por um movimento nacional de valorização do “compre do produtor local”. Eles vendem sua carne diretamente, por indicações e redes sociais, e com isso conquistaram uma clientela fiel. Erika vê esse modelo como o “novo normal”.
“Nossos compradores confiam 100% que vamos oferecer carne saudável e a preços justos”, afirma. “Tem gente de toda a região procurando produtores de carne com quem possam comprar direto. E não só carne – produtos agrícolas em geral.”
Erika acrescenta “que é a última pessoa a criticar a carne produzida pelos grandes frigoríficos e vendida em supermercados ou atacados. Ela também não demoniza os confinamentos tradicionais, que usam economia de escala para oferecer carne acessível aos consumidores dos EUA e do exterior”.
“Vendemos para quem nos procura”, explica. “Mas nunca falamos mal da carne vendida nos mercados, porque sabemos que temos um excelente sistema no país para produzir e vender carne segura e de qualidade, em todos os níveis.”
Erika e Bryson, ressalta o artigo, têm pasto disponível por perto para aumentar o rebanho — e têm a energia e o entusiasmo da juventude para seguir sua paixão. A pergunta é como e quando expandir?
“Quem sabe para onde isso vai?”, questiona Erika. “Acho que a gente se apoia na fé de que, com trabalho duro e inteligência, vamos encontrar um caminho e continuar evoluindo na pecuária. É por isso que estamos aqui.”




