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Analistas norte-americanos da carne bovina defendem presença de JBS e Marfrig nos EUA

“Não há evidências de que a presença de estrangeiros (no caso, as duas gigantes empresas de origem brasileira) altere o comportamento do mercado norte-americano de carne bovina”, diz especialista
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Em outubro/25, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu ao Departamento de Justiça para investigar os quatro grandes frigoríficos que atuam no mercado norte-americano — entre eles, a JBS e a National Beef, comprada pela brasileira Marfrig —, acusando-os de “manipularem os preços” da carne vermelha no país.

Na esteira das declarações de Trump, a Casa Branca divulgou um texto citando os quatro frigoríficos (incluindo a Cargill e Tyson Foods), que, segundo o governo, “dominam 85% do mercado de processamento de carne bovina nos EUA”.

Na avaliação do professor norte-americano Derrell Peel, especialista em marketing de gado da Universidade Estadual de Oklahoma, “não há evidências de que a presença de estrangeiros (no caso, as duas gigantes empresas de origem brasileira) altere o comportamento do mercado norte-americano de carne bovina”.

Em artigo publicado pelo portal da revista norte-americana Drovers, Peel enfatiza que as “empresas estrangeiras fizeram grandes investimentos em instalações nos EUA e continuam a operá-las seguindo a mesma lógica de mercado de uma propriedade nacional”.

De acordo com o especialista, o conceito de consolidação da indústria e propriedade estrangeira de frigoríficos tem sido alvo de escrutínio há muito tempo, com frequentes investigações governamentais. 

Peel afirma que “indústrias altamente concentradas, como a de processamento de carne bovina, são alvos de ceticismo e atenção regulatória há mais de um século, a ponto de a suspeita em relação aos frigoríficos ser quase ‘algo cultural’”

Ele caracteriza as declarações recentes de Trump como “mais uma tentativa de apontar bodes expiatórios convenientes em vez de abordar as realidades sistêmicas mais profundas da oferta e da demanda”

Operações no vermelho

Segundo o analista, “os frigoríficos são o segmento mais afetado negativamente no mercado atual, incorrendo em enormes prejuízos devido às margens reduzidas e à oferta limitada de gado”.

Em texto publicado pela Drovers, Peel relata que os frigoríficos que atuam no mercado norte-americano “vêm acumulando enormes prejuízos nos últimos 18 a 24 meses”. Ele cita dados do Meat Institute, que mostram que as margens de lucro dos frigoríficos entraram em território negativo em setembro de 2024.

“Na semana que terminou em 4 de outubro de 2025, as margens de lucro dos frigoríficos foram negativas em US$ 126,50 por cabeça, um ligeiro aumento em relação aos US$ 125,65 negativos por cabeça registrados um ano antes. A previsão para o ano é de uma margem de lucro negativa de US$ 165,96 por cabeça para os frigoríficos”.

Em comunicado, a CEO do Meat Institute, Julie Anna Potts, disse que, apesar dos altos preços da carne bovina para o consumidor norte-americano, “os frigoríficos têm sofrido prejuízos porque os preços do gado estão em níveis recordes”

“Há mais de um ano, os frigoríficos operam com prejuízo devido à oferta restrita de gado e à forte demanda”, reforçou ela.

Julie acrescentou:  “A indústria da carne bovina é fortemente regulamentada e as transações de mercado são transparentes. Os próprios dados do governo, provenientes do USDA, confirmam que o setor de processamento de carne bovina está sofrendo perdas catastróficas e os especialistas preveem que essa situação persistirá até 2026.”

“Efeito elástico”

Ao analisar mais profundamente o mercado, Peels explica que as mudanças de preço em diferentes partes da cadeia de suprimentos da carne bovina — cria, engorda, frigoríficos e varejistas — não ocorrem em sincronia. 

Ele usa uma analogia com um “elástico” para ilustrar as interações complexas, dinâmicas e defasadas que ligam os preços do gado na fazenda aos preços da carne bovina no varejo.

“Todos os preços do gado e da carne bovina estão, em última análise, interligados, mas não por uma corrente”, resume Peel, completando: “Eles estão interligados por um elástico. Há uma enorme quantidade de dinâmica envolvida nisso.”

Dados distorcidos, segundo o especialista

Também em reportagem publicada recentemente pela Drovers, o norte-americano Hyrum Egbert, autor do boletim quinzena “The Big Bad Beef Packer”, que analisa tendências e questões complexas do setor de processamento de carne bovina, diz que “os proprietários estrangeiros não dominam o mercado de carne bovina nos EUA”.

Segundo ele, usando a produção total de carne bovina (consumida em confinamento e não consumida em confinamento), em vez de estatísticas apenas para carne de gado confinado, a participação combinada das empresas estrangeiras JBS e National Beef (Marfrig) é significativamente menor do que a divulgada.

No total de carne bovina produzida nos EUA, diz Egbert, “a participação combinada da JBS e da National Beef  geralmente fica entre 30% e 35%, variando de acordo com a capacidade e a produção a cada ano”.

“O valor exato depende do ano escolhido e se a medição é feita em termos de capacidade ou produção real. Mas, em ambos os casos, está bem abaixo do que seria necessário para ‘controlar toda a indústria”, garante Egbert.

“Embora as quatro maiores empresas do setor detenham entre 80% e 85% da capacidade de produção de gado confinado, elas possuem apenas cerca de 50% da produção de carne bovina não confinada”,  ressalta Egbert, acrescentando: “Embora seja importante que o país fique de olho nos interesses estrangeiros, especialmente em nossa cadeia de suprimentos alimentares, devemos ter cuidado para não interpretar erroneamente sua influência real no mercado”.

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