A ponte para se alcançar a condição de “sustentável” é longa e o percurso acidentado, mas é muito gratificante principalmente na hora de apurar lucro.
Tudo isso foi demonstrado no “1º Dia de Campo do Projeto Araguaia Sustentável”, realizado em 4 de fevereiro em Nova Xavantina (MT), pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e a Liga do Araguaia, uma associação de produtores que “só quer aprender”.
O evento é uma das atividades previstas pelo projeto “Araguaia Sustentável”, idealizado para somar experiência e conhecimentos técnicos aplicados à atividade agropecuária.
O objetivo do encontro foi dar aos participantes a oportunidade de ouvir especialistas em temas fundamentais para o desenvolvimento do setor.

Sustentabilidade no palco pecuário – Braz Peres Neto, proprietário da Agropecuária Sucuri e presidente da Liga do Araguaia, recuperou parte da história da entidade, fez retrato do atual momento e das conquistas do grupo. Tratou de um processo contínuo e necessário, cuja implantação é objetiva, capaz de provocar uma “verdadeira” revolução silenciosa na fazenda.
A entidade adota o projeto “Araguaia Sustentável”, lançado em 2022 que privilegia a propagação do conhecimento. A parceria busca viabilizar a articulação e disseminação de práticas de pecuária sustentável e de baixa emissão de gases efeito estufa (GEE) para pequenos e médios produtores do Vale do Araguaia. Com seus próprios recursos, ele representou a Liga na COP27, realizada recentemente no Egito.
“A Liga é um grupo de amigos, pessoas próximas, pecuaristas que têm valores e ideias parecidas e procuram mais ou menos as mesmas coisas. É um movimento que fomenta práticas para o desenvolvimento sustentável da pecuária, não por ideologia, mas por crença de que este é o caminho. E não só sustentabilidade ambiental, mas social e econômica”, explica Peres.
Já Lygia Pimentel, médica veterinária, economista e fundadora da Agrifatto, desenhou o atual cenário da atividade e falou sobre seu mercado, pincelando história.
“Lá na década de 70, o boi era um bem de uma pecuária levada como uma operação imobiliária. Tinha baixa produtividade, porém já com margens em queda, desde então”, retoma.
O Plano Real trouxe mudanças de paradigmas e necessidade de se produzir mais e melhor, colocando os custos em alta constante.
“Ocorre que o boi é um bem renovável, mas boa parte dos insumos para produzi-lo não, como os fertilizantes para as pastagens e ingredientes de suplementação”.
E a bovinocultura de corte vem respondendo. Realizou um incremento de produtividade de 1,5 @/ha para 4,2@/ha, em 30 anos. Rodrigo Albuquerque, produtor, Veterinário e editor do Blog e podcast “Notícias do Front”. Ele dividiu a linha do tempo da atividade em três períodos:
“Revolução do Pioneirismo (abertura das fazendas), de 1950 a 1985; Revolução Zootécnica (chegou com o plano Real quando deixou de ser reserva de valor), 1994; e Revolução Financeira, de 2017 a 2022”. Nesse período de grande luta pelo caixa, ele aconselha estudar a previsibilidade dos ciclos de preços de mercado.
A venda é determinante no resultado – Para Albuquerque, qualquer negócio, inclusive a pecuária, está apoiada em três pilares: gestão, tendência e ação de venda. Todo o suporte é para se construir margem. “O objetivo nunca é preço e sim a margem de lucro”. Não é verdade que o lado fora da porteira estabelece prejuízos.
Para o palestrante, o produtor deve desenvolver relacionamento com seu comprador. Falar com ele semanalmente. “A venda de maio começa hoje! Vai conhecendo o cidadão do outro lado da linha! Fique em dia com a escala das unidades industriais possíveis de fechar negócio. Compreenda o enredo do filme que você está vivendo e seja protagonista”.
E importante. “Depois de negociar, formalize a negociação por correspondência: e-mail, whatsapp, skype etc. Coloque tudo, data de negociação, dia de entrega e foto do gado negociado”, reforça o editor. Ele ainda tratou das possibilidades de travar preços no mercado futuro para parte da produção, como estratégia viando garantir a almejada margem de lucro.
Liga do Araguaia em expansão – O dia marcou também a realização do “13º Dia de Campo da Liga do Araguaia”. A atuação da Liga do Araguaia tem foco em 11 municípios mato-grossenses: Cocalinho, Araguaiana, Nova Nazaré, Ribeirão Cascalheira, Água Boa, Querência, Nova Xavantina, Canarana, Pontal do Araguaia, Torixoréu e Barra do Garças.
Juntas, as cidades somam cerca de 3,84 milhões de hectares de pastagens que comportam um rebanho bovino de 2,9 milhões de cabeças, com uma população total estimada de 164 mil pessoas.
Com esse porte, outras ações já a edificam nos moldes cooperativistas. A nova jornada prevê um pool de compras e concepção do selo “Liga do Araguaia”, para distinguir a comercialização dos seus produtos.
Para os novos passos, o evento convidou Paulo Emílio Prohmann, veterinário, mestre e doutor em produção animal, vice-presidente da Cooperativa Maria Macia, organização paranaense concebida para defender os interesses de bovinocultores de corte. No case de sucesso, reforçou as posições de Albuquerque, provando que preço da arroba não é o mais importante.
“O 1º Dia de Campo é importante porque contribui com a difusão do que é a pecuária sustentável e de boas práticas a todos que atuam na cadeia produtiva. Essa é também uma das atribuições do projeto Araguaia Sustentável. É uma oportunidade de os participantes trocarem ideias, aprimorarem técnicas e ampliarem a rede de contatos com outros profissionais do setor”, afirma o consultor de projetos do Imaflora, Marcelo Carpintero.
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma ONG de 27 anos de história. Nasceu para mostrar que usar os recursos naturais de forma sustentável é o caminho da preservação ambiental. Pretende conservar florestas, promover o uso sustentável dos recursos naturais, gerar benefícios sociais no campo e na floresta, e reduzir emissões nos setores florestal e agropecuária.
A missão é garantir que todos os recursos naturais sejam bem aproveitados e revertidos em riquezas para todos os agentes das cadeias produtivas, florestais, agrícolas e pecuárias. Conta com equipe de mais de 100 colaboradores, além de sedes em Piracicaba (SP), Santarém e São Félix do Xingu (PA).
Uma iniciativa próspera – Nesse setor, o principal projeto é o “Boi na Linha”, estabelecido junto ao Ministério Público Federal com o propósito de fortalecer os compromissos sociais e ambientais na cadeia produtiva da carne bovina na Amazônia. Tudo no sentido de regularização, por meio de processos de extensão e monitoramento, além de pesquisa, para uma pecuária responsável.
A ONG atua em todo o Brasil, presente em todos os Biomas, e também possui atividades na Argentina. Com a Liga do Araguaia, possui parceria já de alguns anos.
As bases de trabalhão estão previstas no protocolo “Garantia Araguaia”, de modo que todos possam evoluir independentemente de porte, estágio e recursos disponíveis. A parceria já gerou uma ação maior, o Programa REM levado pelo Governo do Mato Grosso, com o programa Araguaia Sustentável.




