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Sem citar o Brasil, Trump diz que estuda comprar mais carne bovina da Argentina

Repercussão negativa entre os pecuaristas norte-americanos: Associação dos produtores diz que a sugestão do líder dos EUA representa uma “ameaça aos seus meios de subsistência e ao livre mercado”
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Os comentários de Donald Trump sobre a existência de um plano para reduzir os preços da carne bovina para os consumidores norte-americanos derrubaram os contratos futuros do boi gordo na sexta-feira (17/10), mas o mercado mostrou recuperação ao longo da segunda-feira (20/10) depois que o presidente dos EUA revelou, no domingo (19/10), que o país está considerando aumentar as compras da proteína de exportadores da Argentina para conter a inflação doméstica.

Em entrevista ao portal da revista norte-americana Drovers, o analista Jeff Hoogendoorn, da Professional Ag Marketing, afirmou que o mercado de gado dos EUA está mais temeroso de que os EUA reabram a fronteira para importações de gado bovino mexicano (fechada após a proliferação da bicheira-do-Novo Mundo no país vizinho) ou reduzam as tarifas (atualmente em 76,4%) sobre as importações de carne bovina brasileira.

Portanto, o fato de Trump não ter anunciado nenhuma dessas duas intervenções como parte de seu plano foi um alívio para os mercados, ressalta a reportagem da Drovers, citando declarações de Hoogendoorn.

No entanto, o analista acredita que a intervenção do governo pode ser o ponto de inflexão para o mercado de gado. “Acredito que há investidores de fundos com milhões de dólares em posições compradas em gado que provavelmente vão guardar seus lucros e encontrar outro mercado para negociar, já que não querem lutar contra o governo dos EUA”, disse ele, à Drovers

Plano de Trump irrita pecuaristas dos EUA

Segundo reportagem da Reuters, os pecuaristas norte-americanos criticaram a sugestão de Trump de que o país poderia importar mais carne bovina da Argentina.

Os produtores viram a sugestão como uma ameaça aos seus meios de subsistência e ao livre mercado, em um momento em que os pecuaristas estão lucrando com os preços altíssimos do gado e a forte demanda do consumidor”, relata o texto da Reuters, citando reclamações do CEO da National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), Colin Woodall.

“Este plano só cria caos em um momento crítico do ano para os produtores, sem fazer nada para reduzir os preços nos supermercados”, disse Woodall, em comunicado à imprensa.

A revista Drovers menciona outras frases de impacto da NCBA sobre a polêmica decisão de Trump. A Argentina tem uma relação comercial profundamente desequilibrada com os EUA. Nos últimos cinco anos, a Argentina vendeu mais de US$ 801 milhões em carne bovina para o mercado norte-americano. Em comparação, os EUA venderam pouco mais de US$ 7 milhões em carne bovina norte-americana para a Argentina”, diz o texto, que acrescenta: “A Argentina também tem um histórico de febre aftosa, que, se levada aos Estados Unidos, pode dizimar nossa produção pecuária doméstica”.

Trump sugeriu aumentar as importações de carne bovina da Argentina na noite de domingo, a bordo do Air Force One. “Se comprarmos um pouco de carne bovina — não estou falando de tanta — da Argentina, isso ajudaria a Argentina, que consideramos um país muito bom, um aliado muito bom”, afirmou Trump.

“Apelamos ao presidente Trump e aos membros do Congresso para que deixem o mercado funcionar, em vez de intervir de maneiras que só prejudicam as áreas rurais dos Estados Unidos”, afirmou o comunicado NCBA.

Opiniões dos analistas locais

Segundo a reportagem da Reuters, na segunda-feira (20/10), economistas norte-americanos disseram que o aumento das compras da Argentina, que no ano passado representou cerca de 2% do total das importações de carne bovina dos EUA, dificilmente reduzirá os preços da proteína no mercado doméstico norte-americano.

“Os EUA não conseguem comprar carne bovina suficiente da Argentina para movimentar substancialmente o mercado”, afirmou à Reuters o Steiner Consulting Group.

“Inundar os mercados com carne bovina produzida no exterior pode afetar a capacidade do nosso país de se tornar independente em alimentos a longo prazo”, disse à Reuters o presidente da Federação Americana de Fazendas (ABF), Zippy Duvall.

Carne magra para hambúrguer 

Segundo o jornal Clarín, atualmente, a Argentina tem uma cota anual de exportação de 20.000 toneladas para os Estados Unidos, com tarifa de 10%. Fora dessa cota, o país envia entre 16.000 e 18.000 toneladas adicionais, com tarifa de 36,4%. 

Quase 80% das exportações argentinas para os Estados Unidos são de carne bovina magra (sem gordura), usada em misturas para hambúrguer, informa o Clarín.

Estimativa: Queda de 10% nos embarques da proteína em 2025

No ano passado, a Argentina exportou mais de 900.000 toneladas de carne bovina. Neste ano, segundo dados do analista Ignacio Iriarte destacados pelo jornal argentino, o país registrou quedas nas exportações nos primeiros meses (chegou a cair 35% em relação ao ano anterior), mas apresentou uma recuperação acentuada nos últimos meses — os embarques deste ano devem ficar próximos de 830.000 toneladas, 10% a menos que no ano passado.

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