OUÇA 🎧 | Venda de genética provada terá novo fôlego em 2023
Leilões da pecuária seletiva e vendas de centrais de inseminação patinaram em 2022, mas em 2023 a perspectiva é de liquidez e retomada dos investimentos
Pelos analistas envolvidos, o cenário macro e microeconômico são coadjuvantes, de certa forma, na explicação de “um ano não tão bom” no segmento de vendas de genética comprovadamente melhoradora.
As eleições presidenciais e a insatisfação com o resultado das urnas parecem explicar melhor o momento. Com mais ou menos otimismo ou, ainda, até muito pessimismo, o setor acredita em retomada.
Talvez ela nem aconteça no 1º semestre, mas, inevitavelmente ela virá nos últimos seis meses de 2023. Afinal, quem tem vacas, precisa emprenhá-las. Quem não as tem precisa repor. E quem melhora o rebanho não pode deixá-lo caminhar para trás.
Remates com números mais modestos – “No que diz respeito específico ao mercado de leilões, apesar da conjuntura adversa, a Central Leilões conseguiu manter suas promoções e o volume de animais comercializados. Já a média por quilo de peso vivo que, em 2021, ficou em quase R$ 16, nesse 2022 não chega a R$ 13. Então é uma queda geral de 20% nos preços”.
O balanço é de Lourenço Miguel Campo, leiloeiro rural e diretor da Central Leilões, empresa líder na venda de animais provados.
“O mercado que mais sofreu em 2022 foi o de fêmeas, tanto para o abate quanto para reposição. Elas perderam muito liquidez, já que há sobre oferta delas, inclusive para o gancho. Os leilões que ofereceram novilhas padeceram muito, principalmente os do 2º semestre. Arrisco dizer que perderam demanda totalmente”, diz o titular da Central Leilões.
Mas, contraditoriamente, o mercado de carne gourmet tem se mostrado importante alento para elas. “Talvez até se expanda nesse momento de grande oferta. Ele começou com a novilha F1 do cruzamento industrial e agora descobriu a grande qualidade da novilha Nelore, quando bem-acabada. Em muitos nichos estão pagando preço de boi”.
Para Marcelo Silva, da Trajano Silva Leilões, muito atuante no Sul do Brasil, a temporada foi bem difícil, muito em função de aspectos particulares da região.
Foto: Felipe Paes/Divulgação
“Nos leilões de primavera, aqui no Sul, as cotações na ‘tourama’ baixaram em torno de 10%, em relação a 2021. Já as demais categorias sentiram muito. O bezerro que chegou a sair por R$ 15,50 o quilo vivo, no ano passado, em 2022 despencou para R$ 9,50 – média praticada em produtos de muita qualidade. E eu não me refiro aos animais de fundo”.
Para Silva, essa baixa também reflete a queda brusca nas vendas de bovinos em pé, muito comum no Rio Grande do Sul, para o Líbano e outros países do Oriente Médio e Nordeste da África.
De modo, que ele não vê com “bons olhos” o ano de 2023. Aliás, nem em longo prazo ele se anima a comentar sobre a possibilidade de dias melhores.
OUÇA abaixo o comentário de Marcelo Silva
Serenidade diante das dificuldades – Para Sebastião Pereira, diretor da Leilonorte, empresa de boa agenda no Nordeste do país, “2022 registrou cotações menores, mas não perdeu liquidez. Tudo foi vendido e todos sabemos que qualquer setor econômico tem seus altos e baixos. Então, eu acredito que tudo comece a melhorar no próximo ano. Temos de trabalhar, independente da satisfação ou não com os cenários”.
O posicionamento é semelhante ao de Sérgio de Brito Prieto Saud, diretor de Marketing da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), também seu ex-presidente.
A entidade ainda não tem o balanço de 2022 fechado, mas ele analisa que, “como prevíamos, o ciclo de baixa afetou os negócios envolvendo inseminação artificial, agravado ainda pelo ambiente macroeconômico e político, pelo menos nos três primeiros trimestres do ano”. Ele entende que o quadro gerou “muita dificuldade para que o setor tenha perspectivas positivas em curto e médio prazos, o que o torna mais cauteloso e reticente quanto a investimentos. Lógico que aqueles que investem mais em genética efetivamente melhoradora não interromperam seus respectivos trabalhos”.
O cenário impediu a chegada de novos investidores e a manutenção daqueles que estavam começando. O setor de embriões, por exemplo, “sentiu bastante. Aliás o ticket médio de recursos dispendidos reduziu de modo geral”. Para 2023, as expectativas da Asbia são mais positivas, uma vez que não há mais surpresas no horizonte.
OUÇA abaixo os comentários de Sérgio Saud
De onde vêm os bons olhos – “Não há mais incertezas sobre o que virá. Então, mesmo que não seja o cenário desejado pelo setor agropecuário do Brasil, não haverá surpresas. Entendo que não será um ano de muitos investimentos, pelo menos nos seis primeiros meses, em função da espera de o que o segmento se transformará, mas de certa forma já se sabemos o que teremos pela frente”, diz Saud.
O dirigente entende que o setor deverá se reacomodar, entender como se deverá trabalhar e retomar investimentos.
“Nessa toada, o mercado se recupera. Olhando especificamente para o mercado de IATF, por exemplo, em 2022 constatamos estabilidade. Os números são muito similares aos de 2021. Isso significa que os criadores não abandonaram a prática, ainda que a entrada de novos adeptos tenha reduzido sensivelmente”.
Como indicativo mais direto de melhores negócios para o próximo ano, ele cita uma contradição: “Como o mercado de genética encolheu e o de IATF se manteve? A resposta está no fato de que muitos pecuaristas acabaram por utilizar a ferramenta como manutenção de algum investimento em seleção, valendo-se, por exemplo, de estoque de sêmen da própria fazenda”.
Esse é um expediente comum nas propriedades. Aliás, Saud acredita que a necessidade de recuperação desses estoques é um dos sinalizadores para uma temporada melhor, em 2023.
O mundo e o Brasil caminham – Esses e outros indicativos demonstram a força da atividade. Mas há outros possíveis como um cenário melhor para a economia mundial, com queda da inflação global e os já perceptíveis sinais de recuperação de agentes importantes como EUA e Europa, sem falar da China, nosso principal parceiro comercial, que também arrefece a sensação de esmorecimento.
Paralelamente, não se pode ignorar ainda que o “Bolsa Família”, em novo formato, assim como o aumento real no salário mínimo, podem injetar mais dinheiro na economia brasileira e estimular em médio prazo um aumento no consumo interno de carne bovina. Essas perspectivas associadas a dias melhores no mundo, podem mudar completamente os ânimos para 2023.
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