Por Renato Andreotti – Médico-veterinário, doutor em biologia molecular e pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Campo Grande, MS.
O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo e os rebanhos zebuínos contribuem para a maior parte dessa produção. Nesse sentido, há um grande esforço voltado para o melhoramento genético dos rebanhos através da entrada de novas raças bovinas e seus cruzamentos, gerando animais com maior produtividade e valor agregado.
O carrapato do boi, espécie de carrapato que possui os bovinos como principal hospedeiro, ocorre praticamente em todo o território brasileiro e sua presença na cadeia produtiva da pecuária causa um prejuízo estimado em torno de US$ 3,24 bilhões/ano.
Quanto maior for o grau de sangue de gado europeu (Bos taurus) maior será o nível de infestação de carrapatos exigindo atenção redobrada ao controle desses parasitos. Com uma população de carrapatos controlada, o investimento em melhorias genéticas aumenta a produtividade da cadeia produtiva de bovinos, fortalecendo a tendência de contar com a genética do gado europeu nos rebanhos nacionalmente.
O controle estratégico os carrapatos em bovinos é complexo e depende de muitos fatores relacionados ao gerenciamento do manejo, treinamento de mão de obra e monitoramento da resistência aos acaricidas, gerando pouca aderência e sucesso na cadeia produtiva de bovinos
A Embrapa Gado de Corte oferece o Sistema Lone Tick que controla o carrapato dos bovinos sensíveis, naturalmente infestados, sem o uso de acaricidas, com base no tempo de sobrevivência das larvas nas pastagens, promovendo um distanciamento entre o hospedeiro e o parasito.
Nesse sistema, os animais ficam em um pasto (piquete) por 28 dias e retornam após 84 dias pela passagem no mesmo tempo em sequência por mais três pastos gerando um distanciamento entre os carrapatos e os bovinos, período de vazio sanitário para os carrapatos, tempo suficiente para que as larvas morram no ambiente longe do hospedeiro, não oferecendo oportunidade de novas infestações.
Assim, com 28 dias o sistema separa o carrapato do bovino, com 84 dias, a larva do carrapato fica solitária (sem hospedeiro) e não consegue se alimentar para completar o ciclo de vida e morre.

Esse sistema Lone Tick foi testado no Bioma Cerrado com animais de recria da raça Senepol e seus resultados estão mostrados no Comunicado Técnico 167 da Embrapa Gado de Corte. Senepol, raça (B. taurus) selecionada para produção de carne utilizada como opção de cruzamento no bioma Cerrado, é descrita como uma raça que apresenta alta sensibilidade aos carrapatos em climas tropicais (média de 276 carrapatos).
Nesse experimento os animais apresentaram ganho médio diário de 0,425 kg/dia, dentro do esperado para a categoria animal e raça durante o período experimental. O sistema apresentou uma média de 6 carrapatos por animal/dia durante o período bem abaixo do limiar econômico de 40 carrapatos em média.
Além disso, o sistema apresentou uma estabilidade para Tristeza Parasitária Bovina (TPB) com presença de anticorpos nos animais, circulação do agente, sem apresentaram sintomas da doença. Os animais também não apresentaram miíases (bicheiras) ao longo do período.
A Embrapa Gado de Corte, Embrapa Clima Temperado, UFPel, Emater-RS e Fazenda Martimar estão terminando um experimento no Bioma Pampa com dois anos no município de Canguçu (RS). Utilizando animais cruzados com raças produtivas locais (Hereford e Bradford), em que o carrapato é um grande gargalo devido ao clima, a composição de raças e, em consequência, o alto risco da TPB, os resultados são animadores e serão divulgados em um próximo documento técnico com orientações para utilização do Sistema Lone Tick para a região Sul do país.
Atualmente há necessidade de desenvolver abordagens sustentáveis para o controle de carrapatos. Critérios ambientais estão sendo gradativamente adicionados às exigências de mercado e avanços na criação de raças mais produtivas e técnicas ecologicamente corretas de controle de carrapatos podem agregar valor à pecuária de corte por meio da sustentabilidade.
O Sistema Lone Tick oferece uma alternativa ao controle estratégico com resultados promissores de experimentos a campo em biomas e com composição de raças diferentes.
Por Renato Andreotti – Médico-veterinário, doutor em biologia molecular e pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Campo Grande, MS.




