A Tyson Foods, uma das quatro principais indústrias de carne bovina dos Estados Unidos, anunciou, na sexta-feira (17/11), o fechamento de uma de suas maiores unidades frigoríficas (em Lexington, Nebraska) e a redução do abate em outra planta norte-americana (em Amarillo, Texas), numa tentativa de racionalizar a enorme escassez de oferta de gado terminado no país.
Tal iniciativa “chocou” a cadeia norte-americana de carne bovina, conforme relatos de especialistas ouvidos pelos principais meios de comunicação que acompanham diariamente o setor pecuário dos EUA.
Uma das maiores (entre as 11 unidades de processamento de carne bovina da Tyson), a fábrica de Lexington emprega quase 3.200 pessoas e tem capacidade para abater 4.500 cabeças de gado por dia, mas vinha operando com 3.600 a 3.700, informou reportagem da revista Drovers.
O corte de um dos dois turnos na unidade de Amarillo deve reduzir o número de cabeças abatidas diariamente de 5.500 para 2.700 a 2.800, impactando 1.700 trabalhadores, acrescentou o texto.
Juntas, essas duas medidas reduzirão a capacidade de processamento de carne bovina nos EUA em 7 a 9%, projetaram os analistas locais. A Tyson afirma que as mudanças entrarão em vigor em 20 de janeiro de 2026.
A gigante do setor de carnes diz que oferecerá aos trabalhadores de Lexington a oportunidade de se mudarem para ocupar vagas em uma de suas outras fábricas, caso estejam dispostos a mudar suas famílias de cidade para trabalhar a centenas de quilômetros de distância.
“A decisão da Tyson Foods de fechar uma unidade de processamento de carne bovina que emprega quase um terço dos moradores de Lexington, Nebraska, pode devastar a pequena cidade e prejudicar os lucros dos pecuaristas em todo o país”, segundo texto da agência Associated Press (AP), que acrescentou: “O fechamento de um único matadouro pode não parecer significativo, mas a unidade de Lexington emprega 3.200 pessoas em uma cidade de 11.000 habitantes”.
Em conversa com a revista Drovers, o diretor de marketing da Associação de Pecuaristas do Nebraska, Jeff Stolle, disse que o fechamento da planta de Lexington reduzirá a capacidade de abate de gado do Estado norte-americano em 15%.
Ele completou: “A unidade da Tyson em Lexington tem sido uma peça muito valiosa e constante da nossa infraestrutura de processamento de carne no estado por quase 35 anos, e perder essa capacidade de colheita diária certamente será um desafio”.
Escutado pela reportagem da AP, Clay Patton, vice-presidente da Câmara de Comércio da região de Lexington, afirmou que o anúncio da Tyson na sexta-feira foi como um “golpe baixo” para a comunidade do Vale do Rio Platte, que serve como um elo fundamental na cadeia de produção agrícola.
“Quando foi inaugurada em 1990, a fábrica de Lexington, que a Tyson adquiriu posteriormente, revitalizou e transformou a cidade, que antes estava em declínio, atraindo milhares de imigrantes para trabalhar lá e quase dobrando a população”, relembrou Patton.
Quando a fábrica fechar em janeiro, os efeitos serão sentidos em toda a comunidade, prejudicando muitos empresários de primeira geração e o investimento em novas moradias, acrescentou ele.
Segundo recorda texto publicado pelo portal australiano Beef Central, há algum tempo se especula que grandes frigoríficos dos EUA comecem a fechar algumas fábricas, à medida que o impacto extremo do preço do gado começa a afetar as margens de processamento.
“A medida tomada pela Tyson em sua unidade de Lexington é o primeiro sinal disso”, destacou a reportagem.
O analista norte-americano Nevil Speer, em coluna divulgada pela revista Beef, disse que a decisão da Tyson não lhe causou surpresa. “Nada disso é surpreendente. A escassez de rebanho tem sido um tema recorrente há vários anos”, escreveu ele.
Segundo Speer, nos últimos tempos, um dos principais tópicos de discussão entre os analistas do setor era: “Quem daria o primeiro passo?”. Ou seja, qual empresa seria a primeira a racionalizar parte de sua capacidade produtiva? “Agora temos a nossa resposta”.
Oportunidades para os grandes exportadores, como o Brasil
Segundo informações publicadas pelo site da Beef Central, a Tyson reportou prejuízos neste ano (encerrado em 31 de setembro) de US$ 426 milhões, além dos US$ 291 milhões do ano anterior, e a previsão é de um prejuízo entre US$ 400 e US$ 600 milhões no atual ano fiscal, que termina em setembro do ano que vem – daí a decisão de fechar suas instalações em Lexington e reduzir as operações em Amarillo.
Prevê-se que a grave escassez de carne bovina nos EUA se estenderá até 2026, com possibilidade de início de recuperação em 2027, observa o portal australiano.
“Isso sustentará a demanda por toda a carne bovina importada – australiana, brasileira, neozelandesa e de outras origens – por pelo menos os próximos dois anos”, antecipa a Beef Central, com base em declarações de analistas do setor.




