Nunca é tarde para a aquisição de saúde, aliás um processo de conscientização já em andamento. O paciente alvo de terapia urgente é a terra ocupada pela bovinocultura de corte do país.
Acadêmicos e especialistas são taxativos quanto à necessidade de os pecuaristas se tornarem agricultores de capim para tirar a produtividade da bovinocultura de corte como um todo da mediocridade. Por mais que doe diante do protagonismo da carne vermelha brasileira no comércio mundial, essa é a verdade.
Para ter uma ideia, a taxa de desfrute no Brasil gira em torno de 20%, contra 39% dos EUA. E o baixo percentual pode ser explicado pela dieta pobre, principalmente quando considerados o modelo extensivo de criação e o estágio de degradação das pastagens; isso é, do solo. Em muitas propriedades comerciais, a lotação média não chega a 0,5 UA/ha.
A análise das imagens de satélite entre 1985 e 2020 permitiu ao Map Biomas levantar e avaliar a qualidade das pastagens brasileiras e até constatar uma queda nas áreas com sinais de degradação de 70% em 2000, para 53% em 2020.
No caso das pastagens severamente degradadas houve uma redução ainda mais expressiva; representavam 29% das pastagens em 2000 (46,3 milhões de hectares) e agora representam 14% (22,1 milhões de hectares).
Essa melhora foi identificada em todos os biomas, sendo que os que apresentaram maior retração nas áreas severamente degradadas foram Amazônia (60%), Cerrado (56,4%), Mata Atlântica (52%) e Pantanal (25,6%). E é resultado de iniciativas privadas e públicas. Porém, ela se dá em ritmo lento, aquém das ambições da cadeia produtiva como um todo.
Saindo para soluções – Na base do problema está a saúde do solo brasileiro, com toda sua diversidade de composição e ambientes, já que o país é continental. Pastagem degrada é solo em coma. Seu desgaste está nos seus aspectos físicos, químicos e biológicos, consequentemente. Sem nutrientes, a terra tende à esterilidade e morte da vida.
“Difícil é quebrar o ‘círculo da pobreza’. Todo mundo quer melhorar, mas será possível?” Alexandre de Campos Gonçalves é engenheiro agrônomo formado pela Esalq-USP (Piracicaba, SP) e diretor da Alecrim Consultoria.
Foto: Arquivo pessoal
Ele explica a que se deve tal imagem. “Se o pecuarista produz um boi de 20 arrobas em um ciclo de 4 anos (R$ 5,2 mil) por hectare, como ele vai separar de R$ 2 mil a R$ 4 mil para reformar o pasto dessa mesma área?”
Ocorre que essa faixa de custo para reformar uma pastagem é variável dependendo da região e grau de degradação. Contudo, vale a pena montar uma estratégia e resolver o problema.
“As áreas reformadas, já no primeiro ano, podem elevar a lotação para no mínimo 4 UA/ha e aumentar em quatro vezes a produção”, afirma.
Uma poupança a céu aberto – Outro vislumbre importante na propriedade de um solo saudável, em toda a fazenda, é a poupança que se deposita na terra.
Em plenas condições de produção de vida, o solo retém nutrientes e pode socorrer o produtor em horas difíceis, como acontece nesse momento entre os agricultores de soja, por exemplo. No último plantio, com os fertilizantes pela hora da morte, reduziram a carga em até 20% e economizaram sem perder a perspectiva de alta produtividade.
E isso só foi possível pela boa saúde da terra. Aliás, rezando a cartilha de reposição dos nutrientes, ao longo do tempo as cargas de fertilizantes caem e, consequentemente, os custos de produção.
Não há degradação se tudo que foi retirado do solo for devolvido, lembrando que estratégias como plantio direto e integrações lavoura e pecuária, por elas mesmas já minimizam tais perdas.
Um plano difícil, mas calculável – Gonçalves explica que tudo depende de se manter um monitoramento permanente do solo por meio das devidas análises.
“Elas definem todas as ações necessárias. Não é uma conduta fácil, mas há bons serviços no mercado para garantir bons resultados”, atesta.
Esse acompanhamento mantém a produtividade homogênea na fazenda, apesar das diferenças de composição do solo que possam existir. Aliás, tudo que se busca é o equilíbrio produtivo. É ter a dimensão correta do que se gasta e o perfil de consumo.
Para agricultores, essa já é uma rotina. Quanto mais o sistema retira da terra, mais se deve repor. Há muita tecnologia disponível. Para os pecuaristas, no entanto, é uma demanda em fase de conscientização ou mesmo de seleção de mercado.
“A presença de um solo saudável na propriedade pecuária é garantia de retorno e competitividade. Melhor ainda é trabalhar com sustentabilidade, a demanda cada vez mais premente dos consumidores”, conclui o agrônomo.
Acompanhe neste mês de novembro no Portal DBO a série de reportagens sobre a saúde do solo
Daniel Gaia, zootecnista e proprietário da DG Assessoria Pecuária, comenta os preços da reposição, a oferta de boi magro e as tendências do mercado pecuário no Tocantins.
A zootecnista Janaina Martuscello analisa os benefícios e os desafios das leguminosas em pastagens, destacando os principais cuidados para o sucesso do sistema.
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