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Prosa Quente: “O Oriente é o farol dos nossos navios”

Marcos Jank afirma, em entrevista a Revista DBO, que o futuro do agronegócio brasileiro, nos próximos 40 anos, está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia

Marcos Jank, pesquisador no Insper.

Por Moacir José

Quando saiu do Brasil, em janeiro de 2015, rumo a Singapura ‒ um dos quatro “tigres” do sudeste asiático, junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan ‒, o engenheiro agrônomo Marcos Sawaya Jank já carregava, em sua bagagem, larga experiência como presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais, área em que é mestre, formado pela francesa Montpelier).

Sua ida para Singapura, como representante da gigante Brasil Foods (BRF), tinha o objetivo de abrir espaço para os produtos brasileiros, principalmente as carnes de aves e suínos. Dois anos depois, passou a representar também a Abiec (exportadores de carne bovina), a ABPA (exportadores de carne suína e de frango) e a própria Unica. Em todo o período, ele calcula que viajou mais de 50 vezes (praticamente uma vez por mês) para a China. Cobriu Japão, Coreia, Índia, Indonésia, Tailândia, não somente para prospectar o segmento de exportação, mas também o de investimentos.

Retornou ao Brasil em maio de 2019 e, em seguida (julho), integrou os quadros do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, onde leciona e coordena o Centro Insper Agro Global, que estuda os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial.

Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

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Por Moacir José

Quando saiu do Brasil, em janeiro de 2015, rumo a Singapura ‒ um dos quatro “tigres” do sudeste asiático, junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan ‒, o engenheiro agrônomo Marcos Sawaya Jank já carregava, em sua bagagem, larga experiência como presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais, área em que é mestre, formado pela francesa Montpelier).

Sua ida para Singapura, como representante da gigante Brasil Foods (BRF), tinha o objetivo de abrir espaço para os produtos brasileiros, principalmente as carnes de aves e suínos. Dois anos depois, passou a representar também a Abiec (exportadores de carne bovina), a ABPA (exportadores de carne suína e de frango) e a própria Unica. Em todo o período, ele calcula que viajou mais de 50 vezes (praticamente uma vez por mês) para a China. Cobriu Japão, Coreia, Índia, Indonésia, Tailândia, não somente para prospectar o segmento de exportação, mas também o de investimentos.

Retornou ao Brasil em maio de 2019 e, em seguida (julho), integrou os quadros do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, onde leciona e coordena o Centro Insper Agro Global, que estuda os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial.

Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

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Marcos Jank afirma, em entrevista a Revista DBO, que o futuro do agronegócio brasileiro, nos próximos 40 anos, está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia

Marcos Jank, pesquisador no Insper.
Por Moacir José

Quando saiu do Brasil, em janeiro de 2015, rumo a Singapura ‒ um dos quatro “tigres” do sudeste asiático, junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan ‒, o engenheiro agrônomo Marcos Sawaya Jank já carregava, em sua bagagem, larga experiência como presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais, área em que é mestre, formado pela francesa Montpelier).

Sua ida para Singapura, como representante da gigante Brasil Foods (BRF), tinha o objetivo de abrir espaço para os produtos brasileiros, principalmente as carnes de aves e suínos. Dois anos depois, passou a representar também a Abiec (exportadores de carne bovina), a ABPA (exportadores de carne suína e de frango) e a própria Unica. Em todo o período, ele calcula que viajou mais de 50 vezes (praticamente uma vez por mês) para a China. Cobriu Japão, Coreia, Índia, Indonésia, Tailândia, não somente para prospectar o segmento de exportação, mas também o de investimentos.

Retornou ao Brasil em maio de 2019 e, em seguida (julho), integrou os quadros do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, onde leciona e coordena o Centro Insper Agro Global, que estuda os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial.

Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

DBO – Por que você usa o termo “holofotes do presente” para qualificar os países emergentes asiáticos?

Jank – Porque eles têm registrado o maior aumento de renda per capita do mundo e um potencial extraordinário de crescimento econômico. Junto com alguns países do Oriente Médio, eles vinham crescendo entre 4% e 5% ao ano antes da pandemia, mas o consumo de carnes nessa região ainda é muito baixo (menos de 20 kg/hab/ano, ante 100 kg, no Brasil). Trata-se de um tremendo mercado para nossas proteínas animais. Outras duas regiões são o futuro: a Índia e a África, não tanto pelo crescimento econômico, mas pelo populacional. Têm 3 bilhões de habitantes e vão para 5 bilhões em 2050. Essas regiões todas, juntas, já representam 66% das exportações do agronegócio brasileiro. Ou seja, há muitas possibilidades além da China, que já consome 80 kg de carnes/hab/ano.

DBO – Em 2020, quase 60% das exportações brasileiras de carne bovina foram para a China e Hong Kong. É possível diversificar?

Jank – Sim. Em 2010, esses dois países respondiam por apenas 11% das exportações. Veja que salto impressionante! Mas os países da Asean continuam com participação tímida nas compras: passaram de 2% para 4%. Japão e Coreia são mercados maduros, mas fechados para o Brasil. Infelizmente, ainda estamos muito centrados na China. Há um potencial enorme no sudeste asiático. E temos de abrir os mercados de Japão e Coreia, que só compram dos Estados Unidos e da Austrália.

DBO – Essa concentração na China traz riscos para o Brasil?

Jank – Como já vinha acontecendo com soja, algodão, açúcar e celulose, as proteínas animais encontraram na China seu principal mercado. Mas a demanda chinesa é conjuntural: o que mais puxou o crescimento das três carnes foi a peste suína africana (PSA), que reduziu a produção do país de 54 milhões de toneladas (metade do consumo mundial) em 2018 para 38 milhões, em 2020. Os chineses ainda não acabaram com a PSA, mas lá para 2023 devem conseguir. Fico preocupado quando vejo críticas à China. Se tem um país que ajudou muito o agronegócio brasileiro a crescer na última década foi ela.

DBO – Essa retomada representará menos importação do Brasil?

Jank – Até 2023, os chineses vão voltar ao consumo normal de carne suína, que era de 40 kg/hab/ano e caiu para 30 kg. Eles têm autossuficiência em peixes, vão recuperar sua produção de porcos, mas nunca serão autossuficientes em carne bovina, cuja importação é de 30%. Além disso, os chineses comem pouco essa proteína vermelha (menos de 10 kg/hab/ano). Então, existe potencial de crescimento das exportações brasileiras, mas, se houver uma recuperação na produção local de suínos, eles provavelmente vão reduzir as compras de carne bovina.

DBO – Como é o comportamento dos consumidores nos demais países asiáticos, em relação a carnes?

Jank – O que minha experiência permite dizer é que a carne mais procurada é a bovina, por ser considerada “nobre”. A Austrália, que está nesse mercado há muitas décadas, vem perdendo competitividade, por causa de seus problemas climáticos, e a Índia tem problemas com qualidade de sua carne, majoritariamente de búfalo. Sobram os Estados Unidos. Há espaço para o Brasil entrar nesse vácuo, numa franja muito competitiva em preço, porque é uma carne tipo indústria, enquanto a dos EUA e da Austrália é tipo gourmet, mais cara. É preciso consolidar esse mercado; ganhar mais confiança da China, para que o Brasil continue sendo seu principal fornecedor; abrir Japão e Coreia e trabalhar os mercados do sudeste da Ásia.

DBO – Acha que o Brasil tem possibilidades concretas de abrir os mercados do Japão e da Coreia?

Jank – Acho que sim. Estamos avançando na questão da erradicação da aftosa, que é a barreira que eles impõem. É verdade que os EUA e a Austrália fazem um lobby muito forte junto a esses países, que têm um mercado maduro, onde o consumo não vai aumentar. Mas, toda vez que eu ia no Japão, era uma conversa diferente sobre o motivo de não comprarem carne do Brasil… As colocações deles sobre a aftosa não fazem sentido.

DBO – RS, PR, RO e AC devem ser reconhecidos como livres de aftosa sem vacinação neste mês. Isso já deve ajudar um pouco.

Jank – É, mas acho que falta mais empenho do setor privado e uma ação diplomática mais incisiva junto aos países mais ricos da Ásia. O setor privado precisa conversar com seus clientes nesses países; eles têm de querer a carne brasileira. Ouvi várias vezes de tradings japonesas esse discurso: “Olha, a gente tá acostumado com a carne dos Estados Unidos e da Austrália; é um padrão que a gente gosta, não sabemos direito como é a carne brasileira”. Ou seja, o Brasil tem de se fazer mais presente.

DBO – Que padrão é esse?

Jank – É o da carne de raças europeias. Quando você abre o cardápio de um bom restaurante na Ásia, você vê a identificação do filé mignon, se o animal foi alimentado com grãos ou não, na Austrália, nos EUA etc. Não me lembro de ter visto, nenhuma vez, indicação da carne como sendo do Brasil… Mais recentemente, vi da Argentina. Que é o segundo maior fornecedor da China (20%), na frente de Austrália (18%), Nova Zelândia (10%) e Estados Unidos (8%). Todos eles fazem o trabalho da carne gourmet e o Brasil (36% das importações chinesas) fica com a “carne indústria”. Por isso, o maior exportador em faturamento é a Austrália.

DBO – Esse tipo de ação deve ser feito pelas empresas?

Jank – Também. Não vejo um movimento privado, em nenhuma das carnes, para que o Brasil tenha diferenciação de marca no mercado internacional. Talvez com a exceção do frango no Oriente Médio. Acho que poderíamos produzir mais carne gourmet, porém, entendo que antes, precisamos abrir mercados, como fizemos com a Indonésia (país com 250 milhões de habitantes), que era “território da Austrália”, tanto em carne quanto em gado em pé. Conseguimos habilitar 10 plantas em agosto/2019 e podemos fazer a mesma coisa com o Vietnã, a Tailândia, as Filipinas, que compram “carne indústria”. Nos países muçulmanos da Ásia, como a Indonésia e a Malásia, eles dependem muito de carne de aves, pois não comem carne suína, e há espaço para a carne bovina.

DBO – Essa abertura de novos mercados demanda mais adidos agrícolas em países importantes para o Brasil?

Jank – Ajuda. Mas começa pelo governo brasileiro não ficar comprando brigas desnecessárias, como aconteceu na questão das vacinas contra a Covid 19, por exemplo, quando demonstrou uma certa “sinofobia”. Isso acabou avançando até para alguns setores do agronegócio, o que me parece uma loucura. Da mesma forma que a China habilitou 100 plantas brasileiras para as três carnes depois da PSA (antes tínhamos somente 60), poderá descredenciar parte delas quando a crise passar. Os asiáticos valorizam muito a relação pessoal. É o que os chineses chamam de guanxi – confiança de longo prazo. Por isso, a diplomacia precisa trabalhar para que haja previsibilidade na relação.

Quanto aos adidos, dobramos a quantidade na Ásia, nos últimos cinco anos, indo de 11 para 24 (dois na China, um no Japão, um na Tailândia, um na Indonésia). O próprio Itamaraty deve ter umas 150 pessoas trabalhando com temas de Agro nas embaixadas. Agora, quem é o grande ausente? É o setor privado! O Brasil está sendo massacrado na questão ambiental. Por que o setor privado não está lá, explicando, dialogando?

DBO – Na reportagem de capa da DBO de abril, Jorge Camardelli, presidente da Abiec, diz que um dos grandes desafios, no caso da China, é baixar a tarifa de importação, de 12%, que Brasil, Argentina e Uruguai pagam, enquanto a Austrália paga só 3,6% e o Chile não paga nada. Por que essa disparidade?

Jank – Porque não fizemos nenhum acordo. Só temos um acordo pendente (UE-Mercosul), que talvez nem saia, por causa da questão da Amazônia. Jogamos fora a Alca [Área de Livre Comércio das Américas]. Não abrimos negociação com nenhum país da Ásia. As exportações do Agro saíram de US$ 20 bilhões, em 2010, para US$ 100 bilhões em 2020. Isso é fruto da qualidade do que foi feito no campo. Mas em termos de diplomacia, de acordos, não tem nada acontecendo. Ficamos 20 anos olhando os outros países fazerem acordos. Por isso, pagamos tarifas mais altas.

Enquanto isso, Austrália, Nova Zelândia e Chile estão 100% cobertos por acordos na exportação por acordos bilaterais, regionais, etc. E os novos acordos que estão sendo firmados incluem a convergência regulatória [mesmas regras sanitárias e técnicas para os países parceiros]. Ou seja, nossos concorrentes terão vantagens tanto tarifárias quanto na habilitação de plantas. Qualquer frigorífico australiano, por exemplo, poderá exportar para a Ásia. É lista geral. Não depende de visitas, missões etc. A ministra Tereza Cristina está superpreocupada com isso. Mas o resto do governo não anda!

DBO – A eleição de Joe Biden nos EUA mudará alguma coisa na migração dos acordos multilaterais para os bilaterais na OMC?

Jank – Desde a Rodada Uruguai do antigo Gatt, lá em 1996, tínhamos muita esperança de que os acordos multilaterais fossem reduzir os subsídios dados à agricultura e ampliar o acesso a mercados. O Brasil colocou todas as fichas nisso e abandonou os acordos bilaterais. O governo do PT tirou o Brasil da Alca e o acordo UE-Mercosul está há 20 anos sem ser aprovado. Acho que o mundo vai continuar avançando no bilateral. Multilateral ou mesmo o megarregional não me parece algo que os países veem com entusiasmo. Principalmente agora, com a pandemia, que tem levado muitos países a dizer que não podem depender de importações, um certo discurso nacionalista.

DBO – Isso não é meio contrário ao conceito de globalização?

Jank – A globalização atingiu seu auge entre as décadas de 1990 e 2000. De lá para cá, o que vimos foi o surgimento de novas forças protecionistas, o “precaucionismo”, ou seja, não se importa um produto se ele não for 100% seguro. A União Europeia está nessa linha. A China mesmo: não tentou barrar a carne brasileira, por causa de suspeita de uma possível contaminação do coronavírus numa embalagem? Outra coisa que surge agora, com a pandemia, é a junção de saúde pública com saúde animal, uma vez que o coronavírus é uma zoonose, começou com animais silvestres e passou para o homem. E o subsídio também vai aumentar. A China já subsidia seus agricultores duas vezes mais do que os europeus! Por tudo isso, precisamos, urgentemente, reativar nossa política comercial agrícola.

DBO – Você acha que, realmente, a questão ambiental tem um peso decisivo para a conclusão do acordo UE-Mercosul?

Jank – Acho. Porque tem a ver com percepção, não com realidade. A percepção dos europeus é de que o Brasil está crescendo sua agricultura em cima de floresta. Não têm ideia de que o crescimento, hoje, se dá em cima de integração lavoura-pecuária. E que a agricultura está crescendo sobre o pasto, não sobre a floresta. Mas o mundo vê o Brasil como queimada e desmatamento.

DBO – O governo Bolsonaro se comprometeu a reduzir a taxa de desmatamento dos 11.000 km2, registrados em 2020, para a média de 9.000 km2 do período 2016-2020. O que acha?

Jank – Acho plenamente possível. O Brasil tem 66% de sua área preservada. São 540 milhões de ha. Temos 170 milhões de ha de pasto, 75 milhões de ha de agricultura. O desmatamento corresponde a 1 milhão de hectares por ano. Até 2004, esse desmatamento era de 2 a 3 milhões de ha/ano, duas a três vezes mais do que hoje. De 2004 a 2012, Marina Silva e Izabella Teixeira [ex-ministras do Meio Ambiente dos governos Lula e Dilma] conseguiram reduzir substancialmente o desmatamento. O nível mais baixo foi 500.00 ha/ano. E o governo atual está dizendo que vai reduzir para 900.000. Isso depende de três ações.

A primeira é o governo funcionar. Tem que ir pra cima dos ilegais, da criminalidade. Porque ‒ é importante ressaltar ‒ 98% do desmatado é ilegal e 65% acontecem em terras públicas e assentamentos. São 50 milhões de hectares de terra devoluta, sem dono. É onde tem mais invasão.

A segunda ação é implantar o Código Florestal, que já vai fazer 10 anos, sete dos quais parados no STF. O nível de implementação é muito baixo. Somente 5% das propriedades com CAR foram avaliados e auditados. Aí, já é uma questão que depende dos Estados.

E a terceira ação é a regularização fundiária nas regiões Norte e Nordeste. Tem gente que foi para essas regiões há 30 ou 40 anos e não tem título. Como é que você vai fiscalizar se a terra não tem proprietário com CPF ou CNPJ? É um caos.

DBO – Combater a ilegalidade implicará mudar algumas orientações do governo. Você acha que isso vai acontecer?

Jank – Acho que o governo e mesmo o agronegócio estão sob uma pressão como nunca houve, até certo ponto injusta, uma vez que o desmatamento [no mundo] responde por 5% das emissões, muito menor do que os de energia e transporte, que respondem por 73%. Só que o Brasil hoje é líder de desmatamento, basicamente ilegal [e responsável por cerca de 20% das emissões, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia]. Então, a pressão vai ser crescente. O que o Biden traz de novo não é o multilateralismo comercial; é essa pressão sobre a questão do desmatamento. E a ele vão se somar a UE e a China. A pressão recairá não só sobre o governo, mas sobre a cadeia produtiva. Os grandes frigoríficos brasileiros já estão querendo montar cadeias fornecedoras livres de desmatamento… Isso vai colocando o produtor contra a parede. Por isso, temos de criar uma “lista positiva”: não dá pra resolver isso só punindo. Tem de incentivar a legalidade.

DBO – A Abag lançou, em 2019, a campanha “Amazônia Legal” para mostrar que o Agro é contra o desmatamento ilegal. Tem alguma forma de atuar mais nessa frente?

Jank – Temos duas agendas aí: uma é o combate à ilegalidade, que deveria mobilizar todas as associações de classe de produtores, em parceria com o governo; a outra é a implementação do Código Florestal. Gosto muito de uma analogia do Fernando Sampaio [presidente do Instituto PCI, do MT], que é a criação de uma “Alphaville dentro de uma favela”. Isso pode acontecer na pecuária de corte. Os grandes frigoríficos farão monitoramento, rastreabilidade, certificação de cada animal, uma cadeia de suprimentos 100% controlada, em meio a um entorno caótico.

DBO – Mas os grandes [JBS, Marfrig, Minerva] respondem por mais de 60% das exportações brasileiras de carne…

Jank – Sim, mas as exportações representam apenas 26% da produção brasileira. O problema é quem está no entorno ser visto como “produtor de segunda classe”. É termos uma pecuária correndo em dois trilhos. Esse risco existe! Temos de lutar para que a lei seja implementada. Vejo que há frigoríficos desesperados para resolver esse problema. E estão tomando iniciativas, porque o governo não faz a parte dele. E cada uma faz de um jeito.

DBO – Trata-se de uma questão de sobrevivência para essas empresas ou há algo mais por trás disso?

Jank – Há basicamente dois setores sendo pressionados: boi e soja, pois são os de maior presença na Amazônia. A pressão começou com os importadores e, mais recentemente, os bancos brasileiros entraram nesse jogo também, sinalizando que não haverá crédito para quem desmatar. E agora quem está entrando? Os supermercados que estão no Brasil. Os dois mais evidentes são o Casino e o Pão de Açúcar, ambos controlados por capital francês.

DBO – Uma questão que voltou à tona é a da venda de terras para estrangeiros. Você se diz favorável ao projeto do senador Irajá Silvestre Filho (PSD-TO), hoje em tramitação na Câmara…

Jank – Sim, o que falta para o agronegócio brasileiro é capital de longo prazo. O projeto apenas flexibiliza algumas regras para que empresas brasileiras controladas por estrangeiros comprem ou arrendem terras. Não vamos vender 25% de nossas áreas agrícolas aos chineses. Não é isso! Muitas dessas empresas estão aqui há décadas. O problema é que um parecer da Advocacia Geral da União de 2010 colocou-as no limbo; estão com suas operações questionadas… Algumas do ramo de açúcar e álcool e celulose precisam de mais terras para operar.

DBO – Só o arrendamento não resolveria?

Jank – Qual é o problema da compra, se a empresa tem CNPJ aqui e vai seguir as mesmas leis de uma empresa brasileira? Temos centenas de setores que estão internacionalizados aqui no Brasil (telefonia, indústria automobilística), por que não pode ter terra para produzir? Aliás, foram os estrangeiros – italianos, alemães, holandeses, japoneses – que fizeram o agronegócio brasileiro, chegaram pobres aqui e depois expandiram e compraram terras no Centro-Oeste.

DBO – Há risco dessas empresas irem embora?

Jank – Sim. Algumas já foram, quando saiu o parecer de 2010. A Rússia está ficando autossuficiente em alimentos porque ela está permitindo que o capital estrangeiro invista em terra lá. Isso acontece no Leste Europeu, aconteceu muito na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos. Se o capital estrangeiro não puder comprar aqui, vai comprar nesses outros países.

DBO – Qual é o limite desses países?

Jank – O limite não é de extensão de terra. Na Austrália, tem uma comissão que analisa o pedido de compra, por exemplo. Tem gente que fala: “Ah, mas não pode deixar ONG comprar, fundos soberanos comprarem, não pode em faixa de fronteira, não pode na Amazônia”. Tudo bem. Vamos colocar as restrições e discuti-las no Congresso Nacional. O que não pode é ficar como está. [O projeto de lei foi aprovado pelo Senado e enviado à Câmara dos Deputados em 22/12/2020, onde se encontra parado. No site do Senado, uma consulta pública apontou 131 manifestações favoráveis e 6.585 contrárias à proposta]. A primeira lei sobre o tema é de 1971… Está que nem o Código Florestal. Precisamos pacificar essa questão. Infelizmente, hoje, no Brasil, tudo está polarizado.

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Marcos Jank, pesquisador no Insper.

Por Moacir José

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Uma visão da pecuária norte-americana, é o tema da conversa da editora Maristela Franco com o zootecnista brasileiro Octávio Guimarães, que presta assistência a confinamentos nos EUA que trabalham com 700 mil cabeças/ano.

Marcos Jank, pesquisador no Insper.

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Quando saiu do Brasil, em janeiro de 2015, rumo a Singapura ‒ um dos quatro “tigres” do sudeste asiático, junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan ‒, o engenheiro agrônomo Marcos Sawaya Jank já carregava, em sua bagagem, larga experiência como presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais, área em que é mestre, formado pela francesa Montpelier).

Sua ida para Singapura, como representante da gigante Brasil Foods (BRF), tinha o objetivo de abrir espaço para os produtos brasileiros, principalmente as carnes de aves e suínos. Dois anos depois, passou a representar também a Abiec (exportadores de carne bovina), a ABPA (exportadores de carne suína e de frango) e a própria Unica. Em todo o período, ele calcula que viajou mais de 50 vezes (praticamente uma vez por mês) para a China. Cobriu Japão, Coreia, Índia, Indonésia, Tailândia, não somente para prospectar o segmento de exportação, mas também o de investimentos.

Retornou ao Brasil em maio de 2019 e, em seguida (julho), integrou os quadros do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, onde leciona e coordena o Centro Insper Agro Global, que estuda os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial.

Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

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Marcos Jank, pesquisador no Insper.

Por Moacir José

Quando saiu do Brasil, em janeiro de 2015, rumo a Singapura ‒ um dos quatro “tigres” do sudeste asiático, junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan ‒, o engenheiro agrônomo Marcos Sawaya Jank já carregava, em sua bagagem, larga experiência como presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais, área em que é mestre, formado pela francesa Montpelier).

Sua ida para Singapura, como representante da gigante Brasil Foods (BRF), tinha o objetivo de abrir espaço para os produtos brasileiros, principalmente as carnes de aves e suínos. Dois anos depois, passou a representar também a Abiec (exportadores de carne bovina), a ABPA (exportadores de carne suína e de frango) e a própria Unica. Em todo o período, ele calcula que viajou mais de 50 vezes (praticamente uma vez por mês) para a China. Cobriu Japão, Coreia, Índia, Indonésia, Tailândia, não somente para prospectar o segmento de exportação, mas também o de investimentos.

Retornou ao Brasil em maio de 2019 e, em seguida (julho), integrou os quadros do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, onde leciona e coordena o Centro Insper Agro Global, que estuda os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial.

Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

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Quando saiu do Brasil, em janeiro de 2015, rumo a Singapura ‒ um dos quatro “tigres” do sudeste asiático, junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan ‒, o engenheiro agrônomo Marcos Sawaya Jank já carregava, em sua bagagem, larga experiência como presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e do Icone (Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais, área em que é mestre, formado pela francesa Montpelier).

Sua ida para Singapura, como representante da gigante Brasil Foods (BRF), tinha o objetivo de abrir espaço para os produtos brasileiros, principalmente as carnes de aves e suínos. Dois anos depois, passou a representar também a Abiec (exportadores de carne bovina), a ABPA (exportadores de carne suína e de frango) e a própria Unica. Em todo o período, ele calcula que viajou mais de 50 vezes (praticamente uma vez por mês) para a China. Cobriu Japão, Coreia, Índia, Indonésia, Tailândia, não somente para prospectar o segmento de exportação, mas também o de investimentos.

Retornou ao Brasil em maio de 2019 e, em seguida (julho), integrou os quadros do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo, onde leciona e coordena o Centro Insper Agro Global, que estuda os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial.

Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

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Um dos focos das pesquisas desse centro é Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), que reúne 10 países da região, cinco deles (Indonésia, Mianmar, Tailândia, Filipinas e Vietnã) com mais de 50 milhões de habitantes. Para Jank, esse grupo, mais China, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão, forma o que ele chama de “holofotes do presente”, ou seja, a região do mundo que pode absorver quantidades crescentes de produtos agropecuários, justamente por causa de seu vigor econômico e do aumento na renda per capita.

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Média das fêmeas foi 116% superior à registrada em igual período do ano passado

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“Tenho absoluta certeza de que o futuro do agronegócio brasileiro nos próximos 40 anos está diretamente ligado às economias emergentes da Ásia. O Oriente é o farol dos nossos navios”, diz ele nesta entrevista concedida, de forma remota, ao jornalista Moacir José, colaborador de DBO.

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