A política comercial combativa do presidente dos EUA, Donald Trump, acabou tornando o acordo entre União Europeia e Mercosul um pouco mais atraente aos olhos de autoridades de alto escalão na França — país historicamente mais resistente à iniciativa, revela reportagem desta semana da Euractiv, uma agência de informações com foco na União Europeia.
Anteriormente aos ataques tarifários de Trump, continua o texto, o ceticismo por parte de Paris sempre esteve ligado ao receio de que um aumento nas importações agrícolas sul-americanas — provenientes de países do Mercosul, como Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — representasse uma ameaça direta ao setor agropecuário francês.
No entanto, com a União Europeia agora envolvida em um embate comercial com os Estados Unidos — mercado estratégico para as exportações francesas —, a equação política começou a mudar, relata o portal europeu.
“Altas autoridades francesas já consideram a possibilidade de que um acordo com o Mercosul possa, na verdade, abrir portas para ampliar as exportações de alimentos e bebidas da França, além de permitir o acesso a novos mercados consumidores”, observa a reportagem.
A Comissão Europeia tem acelerado a celebração de acordos de livre comércio como forma de diversificar parcerias estratégicas, especialmente diante das tarifas impostas por Trump e da crescente preocupação com a dependência comercial em relação à China, acrescenta.
“Além do Mercosul, a UE fechou recentemente um acordo com o México e busca concluir, ainda este ano, negociações com Índia, Indonésia e Tailândia”, informa o canal de informação europeia.
Em teoria, explica a Euractiv, o apoio francês ao acordo com o Mercosul deveria ser natural: o tratado eliminaria tarifas significativas sobre produtos de alto valor agregado, como queijos e vinhos franceses, possibilitando o acesso direto a um mercado de mais de 270 milhões de consumidores.
Por outro lado, o acordo também permitiria a entrada de volumes maiores de carne bovina, frango e açúcar a preços mais baixos — um dos principais motivos pelos quais todo o espectro político francês tem historicamente adotado uma postura contrária ao Mercosul.
Bruno Bonnell, responsável pelo plano de investimentos “France 2030”, vinculado ao gabinete do primeiro-ministro francês, afirmou que o acordo UE-Mercosul “representa uma oportunidade para determinados segmentos do setor agroalimentar”, ao mesmo tempo em que atua como “um freio” ao desenvolvimento de outros.
Segundo Bonnell — ex-deputado do partido Renascença, de centro, liderado pelo presidente Emmanuel Macron —, os setores potencialmente afetados pelas importações sul-americanas “têm uma única opção: especializar-se”, relata o texto da Euractiv.
O funcionário defende que os pecuaristas franceses, principais produtores de carne bovina da Europa, foquem em “agregar valor por meio da qualidade”, em vez de “continuar produzindo bois em concorrência direta com os brasileiros — cuja única característica é serem iguais”.
Além do gabinete do primeiro-ministro, há sinais de mudança também no Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa, revela a reportagem.
O futuro chanceler alemão, Friedrich Merz, declarou em entrevista recente à TV que Macron pode estar inclinado a apoiar o acordo como parte da estratégia mais ampla da União Europeia para firmar novas parcerias comerciais.
“Uma dinâmica completamente nova está se formando”, afirmou Merz. Segundo ele, Macron “compreende que a correlação de forças no mundo está mudando e que os europeus precisam urgentemente de parceiros com os quais possam estabelecer acordos de livre comércio”.
Bruxelas e Paris ainda em desacordo
Apesar das mudanças no cenário global, a posição oficial da França pouco se alterou até agora, diz a Euractiv. O país defende que o texto atual do acordo — politicamente concluído em dezembro, após 25 anos de negociações — seja reaberto para incorporar garantias adicionais aos produtores agrícolas europeus.
Mas essa reabertura está fora de cogitação em Bruxelas. Questionado na segunda-feira sobre a possibilidade de renegociar o tratado, o porta-voz de comércio da Comissão Europeia, Olof Gill, foi enfático: “não”.
Gill acrescentou que, após a finalização jurídica e a tradução oficial do texto para os 24 idiomas da UE, o documento deve ser submetido ao Conselho e ao Parlamento “antes do fim do verão”, reforça a reportagem.
O gabinete da ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, afirmou que “não houve mudança de posição” por parte do país, mas indicou que a ministra discutiu o tema com seu homólogo da Polônia — outro país contrário ao acordo nos termos atuais — e que planeja conversas em breve com representantes da Itália e da Áustria.




