Apresentado Por:

Goiás também registra mortes de bovinos que haviam sido vacinados contra clostridioses

Laboratório da EVZ/UFG confirmou presença de bactérias causadoras das doenças edema maligno e gangrena gasosa.
Compartilhe:

Continue depois da publicidade

Continue depois da publicidade

Passava das nove horas de uma manhã fria em meados de julho quando o professor Antônio Dionísio Feitosa Noronha Filho, da Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ/UFG) recebeu uma mensagem de WhatsApp pelo celular. Um pequeno produtor estava com um problema na fazenda. No áudio enviado, relatou a morte de um bezerro e uma bezerra, ocorridas nos dias 13 e 14 de julho, respectivamente. Poucos dias antes, os animais apresentaram apatia e inchaço na região das costelas e escápula. Uma vaca, com sinais clínicos semelhantes, morreria dias depois.

Atendendo ao pedido do proprietário, o professor foi até a fazenda, que fica no município de Caldazinha (GO), a menos de 30 km de Goiânia, no dia 25 de julho. Ao chegar de manhã cedo, soube que havia morrido outra vaca, não se sabia ao certo se na noite anterior ou na madrugada daquele mesmo dia, com quadro clínico parecido. Decidiu então investigar a região do animal que apresentava inchaço.

A essa altura, o professor já tinha a informação de que o produtor havia vacinado o rebanho contra clostridioses, com dose de reforço, e que em alguns animais do plantel a vacina havia sido aplicada na região das costelas do animal, onde começou o inchaço, segundo o relato do produtor. Munido de um par de luvas e uma faca específica para necrópsia, fez um corte no sentido da coluna vertebral do animal. Após o corte inicial, expôs os tecidos abaixo da pele, até a musculatura, na região das costelas. “O tecido apresentava coloração escura, cor de carvão. Tinha muitos edemas, áreas hemorrágicas e algumas com acúmulo de gás”, conta.

Exame local revela tecido com coloração escura, compatível com alguns tipos de clostridioses.

O quadro, explica, é bastante compatível com alguns tipos de clostridioses, que apresentam lesões em tecido subcutâneo e/ou muscular. A princípio, desconfiou de carbúnculo sintomático ou edema maligno. Num primeiro momento, o professor suspeitou que o problema tivesse sido causado por erros de manejo.

Antônio Dionísio Feitosa Noronha Filho, professor da EVZ/UFG.

“A vacinação é uma prática rotineira do manejo sanitário e está sujeita a muitas falhas, como a utilização de agulhas sujas e contaminadas, por exemplo. Imaginei que algo havia dado errado durante o manejo”, diz.

Exame comprovou causa das mortes

Para ter certeza do diagnóstico, Noronha retirou uma amostra do tecido afetado e encaminhou para o Laboratório de Doenças Infecciosas e Bacteriologia da EVZ/UFG. Até aquele momento, Noronha não havia tomado conhecimento dos relatos dos casos adversos, principalmente em ovinos e caprinos, na região Nordeste, que levaram o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) suspender preventivamente os lotes das partidas 016/2024 e 018/2024 da vacina Excell 10, do laboratório Dechra Brasil, enquanto investiga a origem do problema. 

Alguns dias depois, o laboratório confirmou, por meio do exame de PCR (veja detalhes no final do texto) que a amostra continha o DNA das bactérias Clostridium chauvoei e Clostridium septicum, alguns dos agentes etiológicos das doenças edema maligno e gangrena gasosa.

Ainda não se sabe por que os animais vacinados contra clostridioses morreram com sinais clínicos das doenças contra as quais a vacina deveria proteger. Pouco tempo após receber o laudo do laboratório, o professor Dionísio Noronha soube, por meio de um grupo no WhatsApp de veterinários, sobre o caso no Nordeste, cuja repercussão já crescia na mídia. “Uma das colegas do grupo perguntou se alguém tinha visto algo parecido. Respondi que sim, e que havia semelhanças”, relata.

Pouco mais tarde, o Mapa soltaria o primeiro comunicado de alerta. A Nota Informativa, a qual DBO teve acesso, confirmava o recebimento de “relatos de eventos adversos graves ocorridos em bovinos, caprinos e ovinos, com evolução para óbito”, e solicitava aos Órgãos Executores de Sanidade Agropecuária (OESA) “alertar aos médicos veterinários, produtores rurais e revendedores de produtos veterinários sobre a necessidade de suspender imediatamente o uso das partidas 016/2024 e 018/2024 da vacina Excell 10 até que se conclua a investigação sobre a causa da morte dos animais”. O documento é assinado pelo Diretor de Saúde Animal do Mapa, Marcelo de Andrade Mota.

O professor, que já sabia, desde o dia do atendimento na fazenda, que os animais haviam sido vacinados com a vacina Excell 10, ligou para o produtor para saber se ele ainda tinha os frascos guardados. Diante da resposta positiva, pediu para que fizesse várias fotos, de modo que pudesse conferir as informações escritas em toda a sua circunferência dos frascos. Ao conferir as imagens, constatou que um dos dois lotes utilizados na vacinação dos animais era o de número 16/2024, que está sob investigação do Mapa. Entretanto, segundo a pesquisadora Ana Carolina Borsanelli, do Laboratório da UFG, é prematuro afirmar que haja relação entre o uso da vacina e a morte dos animais da fazenda goiana.

Ana Carolina Borsanelli, pesquisadora do Laboratório da UFG.

“O exame detectou a presença de espécies de Clostridium, mas como isso pode ter acontecido ainda deve ser esclarecido”, diz. 

Intervalo longo

Embora os animais vacinados tenham morrido entre três e quatro dias após o aparecimento dos sinais clínicos, as primeiras mortes só aconteceram em torno de 40 dias após a aplicação da dose de reforço, o que sugere um período de incubação, intervalo entre a exposição ao agente infeccioso e o aparecimento dos primeiros sinais clínicos da doença, relativamente longo, o que não é comum no caso das clostridioses mencionadas.

Segundo Iveraldo Santos Dutra, ex-professor titular da Unesp de Araçatuba (SP) e um dos maiores especialistas sobre clostridioses no País, em casos naturais o período de incubação tende a ser, de fato, de poucos dias após a infecção, mas o mesmo pode não acontecer em caso de uma inoculação de um agente infeccioso. “Depende (o período de incubação) da quantidade do inóculo e da sua patogenicidade”, diz. No caso do carbúnculo sintomático, por exemplo, uma das clostridioses mais importantes na pecuária, conhecida popularmente como “manqueira”, os esporos da bactéria podem ficar “adormecidos” por longos períodos na musculatura, esperando uma oportunidade para se manifestar.

A despeito de toda a apreensão que o caso provocou, Dutra ressalta que a vacina é a principal ferramenta para o produtor proteger seu rebanho das clostridioses. A vacinação deve começar a partir dos quatro meses de idade, com dose de reforço, sempre por via subcutânea, na tábua do pescoço. “É uma forma de garantir uma resposta imune melhor”, afirma. Além do manejo sanitário, o produtor deve se atentar às boas práticas de produção para ter uma proteção mais efetiva. Higienizar as agulhas, dar a destinação adequada para as carcaças de animais que morrem na propriedade, manter bebedouros limpos e evitar potenciais meios de transmissão, como cacimbas, são importantes medidas profiláticas.

Investigações seguem

Ao todo, dez bovinos adoeceram na fazenda de leite em Goiás. Sete morreram. A ocorrência foi notificada ao Mapa diretamente pelo professor Dionísio Noronha, da EVZ/UFG, que também comunicou a Agrodefesa (Agência Goiana de Defesa Agropecuária), em Goiânia (GO). O Mapa ainda não contabilizou as mortes ocorridas na propriedade no primeiro levantamento que divulgou. Em nota emitida no dia 21/08 sobre o caso, a pasta informa que foram notificados os óbitos de 194 ovinos, quatro caprinos e um bovino. O Laboratório de Doenças Infecciosas e Bacteriologia da EVZ/UFG não está entre os laboratórios oficiais que estão realizando as análises envolvendo as mortes suspeitas.

De acordo com a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí (Adapi), onde ocorreu a maior parte das mortes suspeitas até o momento, as amostras para análise foram encaminhadas para os laboratórios da Universidade Estadual do Ceará (UECE), em Fortaleza (CE) e Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina (PI), além do Instituto Biológico de São Paulo (SP). A Adapi informou ainda que a Superintendência de Agricultura e Pecuária do Estado do Piauí (SFA-PI) enviou frascos dos lotes 16/2024 e 18/2024 da vacina Excell 10 para o Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de Minas Gerais (LFDA/MG), em Pedro Leopoldo (MG).

Em nota divulgada à imprensa, a Dechra informou que está investigando o caso em colaboração com o Mapa e anunciou a suspensão das vendas e o recolhimento dos lotes 16/2024 e 18/2024 como medida de precaução. O laboratório informou à reportagem que foram produzidos 5,8 mil frascos (50 doses cada), mas o montante recolhido ainda não foi consolidado. Já o Mapa diz que as ações de fiscalização e investigação seguem em andamento, com a realização de testes em amostras dos lotes da vacina e dos animais que morreram. Segundo a pasta, a estimativa de conclusão do processo de investigação é de 60 dias.

Vale ressaltar que compete ao Ministério da Agricultura a liberação para comercialização de vacinas produzidas pelos laboratórios veterinários. A portaria 49, de 12 de maio de 1997, estabelece o regulamento técnico para “produção, controle e emprego de vacinas contra carbúnculo sintomático, gangrena gasosa, enterotoxemia e tétano”. O documento diz que somente poderão ser comercializadas partidas de vacinas “previamente submetidas ao processo de controle de qualidade efetuado pelo fabricante ou laboratórios credenciados, e após liberação pelo órgão controlador através da aceitação dos resultados apresentados ou da realização dos testes oficiais correspondentes”.   

Como exame comprovou causa das mortes

O Laboratório de Doenças Infecciosas e Bacteriologia da EVZ/UFG, que recebeu os tecidos para análise, é o único na região Centro-Oeste a realizar o diagnóstico de clostridioses, e recebe amostras de todo o Brasil. Coordenado pela pesquisadora Ana Carolina Borsanelli, professora de doenças infecciosas da EVZ/UFG, o laboratório trabalha em duas frentes de análise, dependendo do tipo de clostridiose em questão. O diagnóstico de botulismo, por exemplo, é feito por meio de bioensaio em camundongos, onde a amostra biológica é inoculada no animal, permitindo detectar a toxina botulínica, responsável pela doença.

Outras clostridioses, como o carbúnculo sintomático, a gangrena gasosa e o edema maligno já são diagnosticados por meio de técnicas de biologia molecular. Uma delas é a de “reação em cadeia de polimerase”, conhecida pela sigla PCR. O exame de PCR, que ficou bastante conhecido na época dos testes para Covid-19, é muito utilizado para o diagnóstico de doenças bacterianas, virais e até mesmo inflamatórias. Ao receber as amostras, Ana Carolina e sua equipe tiveram a precaução de colocar fragmentos do tecido num meio de cultura para que o patógeno pudesse se multiplicar.

“Se faço a PCR diretamente do tecido lesionado, existe o risco de não detectar o DNA da bactéria, caso esteja em quantidade muito pequena”, explica. Após esse cuidado, o exame de PCR foi realizado e identificou a presença de DNA das bactérias Clostridium chauvoei e Clostridium septicum, alguns dos agentes etiológicos das doenças edema maligno e gangrena gasosa.

 

 

Gostou? Compartilhe:

Mais Lidas

1.

Encontre aqui a consultoria ideal para sua fazenda

Vídeos em destaque

Mais Lidas

Colunistas