A fuga do entendimento que o pecuarista é um agricultor de capim tem retardado a bovinocultura de corte alcançar melhores índices produtivos, aqueles que a tornariam competitiva frente a outras culturas.
Para ter uma ideia, a taxa de desfrute no Brasil gira em torno de 20%, contra 39% dos EUA. E esse quadro poderia ser diferente se o setor cuidasse da saúde do solo.
Um solo saudável é condição básica, quase sinônimo, de boa produtividade, tanto na agricultura quanto na pecuária. Mas para que os produtores o conquistem, um conjunto de aspectos interligados deve ser considerado. De saída é preciso um bom diagnóstico e conhecer a terra ou as terras da propriedade onde se trabalha.
Por meio de análises laboratoriais, o produtor pode ter em mãos, detalhadamente, os aspectos químicos – seguramente os mais conhecidos – os físicos e os biológicos do solo. Quem desenha o problema é Augusto Queiroz Pedrazzi, engenheiro agrônomo lotado no Centro-Oeste com muita experiência em pastagens pobres.
Exames profundos dimensionam as ações – Segundo ele, “o problema com degradação do solo não é exclusivo do Brasil”.
Atualmente dezenas países se esforçam para recuperar a saúde de seu solo. Isso se deve a inúmeros erros cometidos até aqui. Mas a questão no Brasil pode ser um pouco mais severa, em função de sua imensa área tropical, muito mais sensível ao manejo incorreto.
Um bom manejo considera as características climáticas e do solo em questão, fatores que são muito variáveis em um país continental. “Temos solos mais frágeis que degradam mais rapidamente; contudo, a partir do conhecimento é possível implantar melhores práticas de manejo e até formatar políticas públicas para impulsioná-las”, vislumbra Pedrazzi.
A perda da capacidade do solo de sustentar seus microrganismos é um dos principais problemas. Vale saber que quando se retira a floresta de um lugar para colocar somente pastagens, de imediato se extrai do solo até 40% dessa capacidade, embora este seja um número bastante variável, dependendo do tipo de solo examinado.
“O restante da perda se dá em função do manejo inadequado, podendo beirar 90%. Basicamente estamos falando em uma drástica redução de carbono no solo, elemento fundamental para a vida, também abaixo dos nossos pés. Sem essa riqueza orgânica, a produtividade agropecuária se esvai”, reforça o agrônomo.
O estado físico da terra e a degradação – A falta de carbono, ou seja, de nutrientes, é só um deles. Nos aspectos físicos da degradação temos a compactação e erosão.
No caso de pecuária, o superpastejo. Essa prática aumenta a ausência de carbono e do nitrogênio orgânico (originário de microrganismos decompostos), duas fontes primordiais de alimento para a microbiologia do solo.
“Persistindo nesse modelo, com o tempo se perde quantidade e qualidade (diversidade) da vida subterrânea. Isso leva a uma atividade sem nenhuma sustentabilidade e totalmente degradante”, explica o especialista, reforçando “as novas exigências do mercado para produtos que respeitam bem-estar animal e meio-ambiente”.
A falta de cobertura no solo descoberto é um sério problema. Em uma terra descoberta o impacto direto da água da chuva promove a compactação, diminuindo a porosidade. Para que isso ocorra com menor intensidade é importante manter o pasto em altura adequada, com boa cobertura vegetal.
Tecnologias a serviço da terapia – Mas a notícia boa fica por conta das tecnologias disponíveis. O plantio direto, Integração Lavoura Pecuária (ILP) com ou sem floresta (ILPF) vem ao encontro de um melhor manejo do solo. Essas práticas contribuem para criar um ambiente mais favorável à vida no solo.
O plantio direto, por exemplo, preserva o carbono existente e estimula a expansão da vida microbiana, além de ajudar na manutenção de características físicas, portanto, protegendo. Nos casos da ILP ou ILPF, os sistemas dependem de uma análise investigativa, integrando resultados químicos e biológicos.
“Com esse conhecimento podemos desenhar a sustentabilidade dos sistemas, uma vez que os benefícios podem ser bastante variáveis. No caso específico da ILPF vale observar que as árvores fazem a contenção do vento, ou seja, trabalham contra a dispersão do CO2 e favorecem sua concentração, melhorando a respiração vegetal, inclusive no solo”, revela Pedrazzi.
Nesses modelos, a fotossíntese ocorre em uma escala bem maior. Contudo, quando se fala de aspectos físicos, a densidade/porosidade da terra (o quanto de ar e água, ela é capaz de armazenar) se mostra um importante indicador de quanto a saúde vai bem ou com problemas. “Eles estão relacionados à compactação da terra”, aponta o especialista.
Hidratação e oxigenação – A densidade influencia na capacidade de infiltração e armazenamento de água e de ar. Quanto maior ela se apresentar, menor será a porosidade e sua capacidade de armazenar água e oxigênio. E isso, definitivamente não é bom. Os dois insumos são necessários para o desenvolvimento das plantas e da vida (microrganismos) do solo.
Assim a densidade da terra fora de faixas ideais influencia negativamente, por meio da diminuição do fornecimento de água e oxigênio para a vida do solo e plantas, impedindo o bom desenvolvimento radicular. “Se o solo é uma casa que suporta a vida, em havendo menos espaço nela menos vida haverá”, retoma o técnico.
E com menos espaço microrganismos e plantas são prejudicados. A densidade do solo pode ser medida com coletas de amostras em campo com certa facilidade pelo produtor e pode ser medida em laboratório, que fornecerá dados para a densidade ideal, orientando o produtor no monitoramento de sua fazenda.
Ciladas do tratamento – No entanto, melhorar a densidade de um solo é algo possível, mas não tão fácil. Ela é dependente dos teores de areia, silte, argila e matéria orgânica. Areia, silte e argila não se pode mudar, pois são características próprias de cada solo.
Aumentar os teores de matéria orgânica seria a maneira mais eficiente, mas inúmeros trabalhos científicos demonstraram que, nos trópicos, isso é muito difícil ou uma armadilha.
“O uso de plantas de cobertura ou a diversificação de plantas nas pastagens é opção, mas estaríamos limitados a poucas delas que poderiam integrar as pastagens para diversificar ou restritos a períodos específicos que poderíamos usar essa estratégia”, alerta.
O aumento radicular da própria pastagem também é outra opção para a melhoria, assim como a utilização do pastejo rotacionado, pois permitiria melhor aproveitamento das fezes dos animais. Sua decomposição pelos insetos e microrganismos contribuem para o afrouxamento do solo.

Medicamentos e fisioterapia – O uso de corretivos ricos em cálcio é outro caminho, pois é capaz de abrir os poros do solo. “Mas atenção: muito magnésio tem ação inversa e aperta o solo. Isso significa que há uma proporção correta para cada propriedade e até mesmo para cada piquete da fazenda”, justifica.
O uso de escarificador subsolador e até mesmo grades também podem ser considerados para aerar o solo. Existem implementos que realizam a escarificação e o plantio de plantas de cobertura nas pastagens em uma mesma operação. Mas em resumo, independente das medidas adotadas os solos tendem, com o tempo, a apertar novamente.
Isso também evita a erosão, outro problema que devemos evitar, pois ela leva a perdas de nutrientes e matéria orgânica na medida que o solo é lavado. Sem o devido terraceamento (disposição de curvas) essa situação é muito piorada.
Por fim, para a vida do solo, quanto maior a densidade menor serão os espaços para ela prosperar e menor a sua respiração. Isso impacta na produção de capim pela menor quantidade de CO2 (respirado pela vida do solo) que estará disponível para as plantas, assim como para os microrganismos.
“Para termos ambientes produtivos e duradouros a regra é incrementar essa vida com uma maior drenagem água e respiração da terra. Fisioterapia com ações de maquinário e manejo adequado apoia a administração de medicamentos, no caso correções de solo e adubação. Quando recuperada a saúde do solo, cada vez mais o paciente exige gastos. A lucratividade aumenta”, conclui Pedrazzi.
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Acompanhe neste mês de novembro no Portal DBO a série de reportagens sobre a saúde do solo
“O restante da perda se dá em função do manejo inadequado, podendo beirar 90%. Basicamente estamos falando em uma drástica redução de carbono no solo, elemento fundamental para a vida, também abaixo dos nossos pés. Sem essa riqueza orgânica, a produtividade agropecuária se esvai”, reforça o agrônomo.




