Pesquisas comprovam que os animais diminuem o consumo de água quando não encontram fontes limpas. Além disso, excesso de sulfatos, por exemplo, podem causar problemas como queda de desempenho, infertilidade e baixa imunidade.
Pesquisas comprovam que os animais diminuem o consumo de água quando não encontram fontes limpas. Além disso, excesso de sulfatos, por exemplo, substâncias presentes em esgotos, podem causar problemas como queda de desempenho, infertilidade e baixa imunidade.
Água fornecida aos animais vem do mesmo reservatório que abastece a sede da fazenda.
Por Renato Villela
A Fazenda Vale do Boi, de Epaminondas de Andrade, selecionador de Nelore do Tocantins, conta com 98 bebedouros, um número alto, considerando-se que a fazenda faz pastejo rotacionado, mas Seu Epaminondas preferiu não trabalhar com praças de alimentação centrais. Os bebedouros ficam dentro dos piquetes ou em suas divisas. “A fazenda já estava organizada assim e decidimos não mudar”, justifica o selecionador, que dessa forma, diminuiu disputas por água e situações de estresse dentro dos lotes, garantindo o bem-estar animal.
Outra preocupação constante é com a qualidade hídrica. Tanto a sede da propriedade quanto os pastos são abastecidos pelos mesmos reservatórios. “A água que o gado bebe é a mesma que a gente toma”, diz o produtor. Para evitar desperdício, Seu Epaminondas usa bebedouros menores, com capacidade entre 1.200 e 600 litros, uma tendência hoje defendida por consultores. “Com isso, temos de jogar menos líquido fora quando esvaziamos esses recipientes para lavagem”, justifica.
Os bebedouros passam por manutenção periódica e os reservatórios são cobertos para evitar contaminação, como as caixas d’água nos centros urbanos, uma providência que raramente se vê nas propriedades rurais. “Se os reservatórios fossem abertos pegariam sol e poeira, acumulando lodo, que chega até a entupir o encanamento”, diz Seu Epaminondas.
Mas não é só. O fato de os reservatórios serem cobertos evita o acesso de aves que podem, por exemplo, defecar em seu interior, contaminando a água, e a incidência da radiação solar favoreceria o desenvolvimento de algas, que poderiam ser levadas pelos canos. “Nossas observações de campo mostram que os animais não bebem água quando alguns tipos de algas estão presentes. Eles têm repulsa”, afirma Mateus Paranhos, do Etco.
Boi quer água pura
Essa percepção tem sido comprovada por pesquisas. João Luís Santos, da Especializo Gestão de Recursos Hídricos, de Campinas, SP, cita um estudo realizado no Canadá sobre concentração de estrume na água e restrição de consumo. Constatou-se que 0,05 mg de estrume por litro já é percebido pelos animais, fazendo-os procurar outras fontes, caso tenham essa opção.
“É uma concentração muito pequena, principalmente se considerarmos que um animal pode gerar até 20 kg de estrume por dia, quantidade suficiente para contaminar 40 milhões de litros de água”, diz. A pesquisa mostrou que, caso o animal não disponha de fonte alternativa, reduzirá o consumo de água se a concentração de estrume subir para 2,5 mg/l. A partir de 5 mg/l, já cai o consumo de forragem. “É muito fácil encontrar concentrações desse nível na água que os animais bebem”, afirma.
A contaminação microbiológica não é o único parâmetro avaliado. Há outros critérios de qualidade como odor e sabor, propriedades químicas e físicas, presença de elementos tóxicos e concentração de compostos minerais. O excesso de sulfatos, por exemplo, substâncias presentes em esgotos que contaminam a água, pode causar problemas como queda de desempenho, infertilidade e baixa imunidade, podendo até mesmo levar animais à morte.
Um estudo mostrou redução no consumo hídrico, consequentemente, no desempenho produtivo, em função de altas concentrações de sulfatos na água (veja tabela). O lote que ingeriu 400 mg de compostos por litro (dentro do limite de 1.000 mg, no caso de animais adultos, ou 500 mg/l, no caso de bezerros), bebeu 57 litros e ganhou 3,79 @. Já o quarto grupo, que ingeriu 1.700 mg de sulfatos/l, ganhou apenas 2,4@. Considerando-se o peso final dos lotes (375 e 322 kg, respectivamente), e a arroba a R$ 135, a diferença foi de R$ 187,38 a mais para o primeiro grupo.
“É um dinheiro que o produtor está deixando de ganhar por não ter água de boa qualidade”, diz. Com mais de 20 anos de experiência em gestão de recursos hídricos, Santos explica que, no meio rural, o problema está na destinação inadequada dos dejetos ou na deposição de fezes dos animais nos pontos de dessedentação, como as cacimbas. De acordo com ele, é preciso processar adequadamente o lixo, cuidar das fontes de água e preservar as nascentes.
“A prevenção é a melhor forma de ter água de qualidade na propriedade”. O especialista faz um apelo: “Precisamos valorizar nossos recursos hídricos. Não temos uma cultura de valorização, não consideramos a água um insumo produtivo, como a genética, a nutrição ou o pasto, e não temos noção do prejuízo que traz uma água de má qualidade à pecuária, devido a nosso próprio desconhecimento”.
Dimensionamento correto
Tão importante quanto a qualidade da água para o bem-estar dos animais é garantir-lhes boa oferta do precioso líquido e facilidade de acesso para dessedentação. Para isso, é necessário reduzir a distância a ser percorrida até a fonte de água e dimensionar corretamente os bebedouros.
“Restrição hídrica causa forte estresse, gerando não somente problemas de ganho de peso. Se o bovino se sentir ameaçado pela falta de água, vai mudar seu comportamento, movimentar-se mais, tornar-se mais agressivo. Isso também acontece se o bebedouro for insuficiente para o número de animais. Nós também ficaríamos agressivos se estivéssemos com sede, tivéssemos apenas um copo d`água e cinco pessoas querendo tomá-lo. Os animais não são diferentes de nós”, afirma Santos.
Conforme dados de pesquisa, para cada quilo de matéria seca consumida, o animal precisa ingerir entre 3,5 e 5,5 l de água e secretar 5 l de saliva. Um bovino adulto consome, em média, 50 l de água por dia. Segundo Adilson Aguiar, professor da Faculdades Associadas Uberaba e diretor da Consupec (Consultoria e Planejamento Pecuário), para dimensionar o bebedouro, considera-se que, em média, apenas 10% do lote chegando para beber a cada vez, desde que os animais não estejam passando por restrição de água.
“Diante disso, recomenda-se 8 cm lineares para cada unidade animal”, afirma. A demanda por água depende do peso corporal dos animais. “Com base nele, calcula-se o consumo diário de matéria seca (MS) e a ingestão de água, que varia de 3,5 l a 5,5 l /kg de MS ingerida, dependendo de fatores como raça, idade do animal, estado fisiológico, temperatura, umidade relativa do ar etc”.
O professor recomenda que o cálculo da demanda considere a época do ano em que a capacidade de suporte das pastagens alcançará máximo nível. “Entretanto, se a bóia do bebedouro for de vazão total e os bebedouros estiverem bem posicionados de forma que os animais não precisem caminhar muito, não é preciso se preocupar com o espaço por animal e, sim, com a vazão”.
Detalhes fazem diferença
A utilização de bebedouros menores, como os da Fazenda Vale do Boi, requer alguns cuidados. O dimensionamento da rede hidráulica, por exemplo, deve obedecer a critérios técnicos. “Utilizamos canos de grosso calibre (50 a 75 mm), dependendo da distância a ser percorrida. Muitas vezes, para economizar, o produtor utiliza canos de apenas 25 mm. Se usá-los para levar água a distâncias acima de 5 km, vai chegar somente uma gota de água no local”, diz Ricardo.
Ricardo Andrade mostra tampa que protege a bóia.
As bóias utilizadas são de vazão total, que permitem enchimento rápido do bebedouro. Como nas demais instalações da fazenda, a diferença está nos detalhes. O ralo do bebedouro, que era de 1 polegada e, por isso, demorava demais para esvaziar, foi substituído por outro de 1,5 polegada. Em vez de um plug de rosca no cano, que exige chave para abrir ou fechar, Ricardo usa um “tape” para conexão em cano soldável, que é colocado ou retirado com facilidade.
A abertura para um cano de ¾ na entrada de água cedeu lugar a outro, de 1 polegada. “Enche mais rápido”, diz. Como a tampa de concreto do bebedouro pressionava a bóia para baixo, mantendo o volume mais baixo, fez-se uma depressão em sua parte interna. Assim, o bebedouro fica sempre cheio.
Além disso, o produtor deve dimensionar o reservatório de modo a garantir uma reserva de água para pelo menos dois a três dias, medida de segurança, caso ocorra algum problema no sistema hidráulico. Aguiar explica que os animais preferem água de bebedouros à de aguadas naturais, mesmo tendo acesso livre a ambas. Além de ter aspecto mais límpido, essa água apresenta temperatura mais alta do que a dos mananciais, um atrativo para os bovinos.
A temperatura hídrica influi no ganho de peso. “Um experimento com novilhas zebuínas indicou que as fêmeas que ingerem água aquecida pelo sol ganham 17% mais peso do que as que ingerem o líquido em temperatura ambiente”, afirma Aguiar. Resultados de outros trabalhos caminharam na mesma direção.
“Vacas paridas que ingeriram água em bebedouro ganharam 270 g a mais por dia do que as que beberam em um córrego, enquanto seus bezerros tiveram ganho de 140 g a mais por dia”, enumera o professor. A distância percorrida para beber água também impacta no desempenho. “Após 500 m de distância, a cada 1 km que os animais caminham potencialmente deixam de ganhar 40 g/km, se for plano, 53 g/km, se for levemente ondulado, e 60 g/km, se for ondulado”, frisa o professor.
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