As tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, ainda não tiveram um grande impacto nos preços internos da carne bovina, mas podem ser outro fator altista (além da redução drástica na oferta interna) caso o líder norte-americano coloque em prática a ameaça de imposição de uma nova tarifa de importação (de +50%) sobre a proteína brasileira, a partir de 1º de agosto/25, prevê reportagem publicada pela Associated Press (AP), assinada pelo jornalista Josh Funk, baseado em Omaha, Nebraska.
Segundo a seu texto, grande parte do que é importado pelos norte-americanos são cortes de carne magra que os frigoríficos misturam com carne bovina “mais gorda” (característica do gado local, mantido em confinamento) – o objetivo principal desse blend é produzir carne moída para hambúrgueres.
Grande parte dessa carne bovina magra vem da Austrália e da Nova Zelândia, que atualmente sofreram uma tarifa de apenas 10%, mas parte dela vem justamente do Brasil, alvo da eventual taxa de +50%.
“Mesmo que os pecuaristas decidissem criar mais gado para ajudar a substituir essas importações, levaria pelo menos dois anos para reproduzi-los e criá-los”, afirma o texto de Funk, que entrevistou o economista agrícola Bernt Nelson, do Farm Bureau. “Ainda temos muitas barreiras para aumentar esse rebanho”, diz Nelson.
Segundo o economista, caso um jovem pecuarista norte-americano quisesse adicionar 25 novilhas prenhes ao seu rebanho, ele precisaria desembolsar hoje US$ 100.000 em um leilão, em um momento em que os custos de empréstimo continuam altos.
Nos últimos anos, os preços do gado norte-americano dispararam, tanto que agora os animais são vendido por mais de US$ 230 por 100 libras, informa Nelson.
Segundo o analista David Anderson, economista da Texas A&M, também fonte da reportagem, com a disparada nos preços da pecuária norte-americana, os fazendeiros locais têm preferido vender vacas agora e obter lucros em vez de mantê-las para reprodução, já que as cotações podem cair nos próximos anos.
Para eles (pecuaristas norte-americanos), ressalta Anderson, o que mais importa é “vender o animal agora e receber um cheque recorde, em vez de mantê-lo na fazenda para obter seus retornos ao longo de sua vida produtiva”.
Em junho/25, o preço médio de meio quilo de carne moída subiu para US$ 6,12, um aumento de quase 12% em relação ao ano anterior, de acordo com dados do governo dos EUA. O preço médio de todos os bifes crus subiu 8%, para US$ 11,49 por quilo.
A reportagem lembra que o movimento de alta nas cotações domésticas da carne não é um fenômeno recente. Os preços da proteína têm subido constantemente nos últimos 20 anos, um reflexo do forte aumento na demanda interna.
De fato, o rebanho bovino dos EUA vem diminuindo constantemente há décadas, relata a reportagem. Em 1º de janeiro, os EUA tinham 86,7 milhões de bovinos e bezerros, uma queda de 8% em relação ao pico mais recente, registrado em 2019. Esse é o menor número de bovinos desde 1951, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Muitos fatores, incluindo a seca e os preços do gado, contribuíram para essa queda. “E agora, o surgimento de um parasita incômodo no México e a perspectiva de tarifas generalizadas podem reduzir ainda mais a oferta e aumentar os preços”, observa a reportagem, referindo-se ao surto de bicheira-do-Novo Mundo (NWS) no país vizinho, além, claro, à decisão de Trump em adicionar mais taxas à carne importada.
A partir de 2020, uma longa estiagem secou as pastagens nos EUA e elevou o custo da ração para o gado. Desde então, os preços dos insumos pecuários dispararam no país, aumentando a pressão sobre os pecuaristas locais, que já operavam com margens de lucro reduzidas.
Em resposta, muitos produtores abateram mais fêmeas do que o habitual, o que ajudou na oferta de carne bovina no curto prazo, mas reduziu o tamanho dos rebanhos futuros. A menor oferta de gado elevou os preços, contextualiza a reportagem.
O recente aparecimento da praga carnívora em rebanhos bovinos no México aumentou a pressão sobre a oferta, já que as autoridades interromperam todas as importações de gado do sul da fronteira no ano passado. Cerca de 4% do gado que os EUA alimentam para abate vem do México, informa a reportagem.
A praga é a mosca-bicheira do Novo Mundo, e as fêmeas depositam ovos em feridas de animais de sangue quente. As larvas que eclodem são incomuns entre as moscas, pois se alimentam de carne viva e fluidos em vez de material morto.
Autoridades norte-americanas temem que, se a mosca chegar ao Texas, suas larvas carnívoras possam causar grandes perdas econômicas, como já ocorreu décadas antes de os EUA erradicarem a praga, alerta a reportagem.
Para os analistas, se as tarifas norte-americanas permaneceram em vigor por muito tempo, os processadores terão que pagar preços mais altos pela carne bovina magra importada.
“Não seria fácil para os produtores norte-americanos substituí-la, pois o sistema do país é voltado para a produção de carne bovina mais gorda, conhecida pelos bifes marmorizados”, observam os especialistas.
Atualmente, os EUA vive o auge da temporada de grelhados e a demanda por carne bovina nos EUA continua forte, o que, segundo o economista agrícola da Universidade Estadual do Kansas, Glynn Tonsor, ajudará a manter os preços da proteína mais altos.
“Se os preços continuarem altos, os consumidores provavelmente começarão a comprar mais carne de hambúrguer e menos bifes, mas isso ainda não parece estar acontecendo de forma generalizada — e as pessoas também não parecem estar comprando frango ou carne de porco em vez de carne bovina”, diz a reportagem.
O analista Bernt Nelson afirma que recentemente a seca diminuiu — permitindo a melhoria das condições das pastagens — e que os preços dos grãos caíram. Esses fatores, combinados com os altos preços do gado, podem persuadir mais pecuaristas a manter suas vacas e criá-las para aumentar o tamanho de seus rebanhos, segundo ele.




