Por Enrico Ortolani – Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP (ortolani@usp.br)
Ao longo do mês de abril, essa coluna constará de duas partes: A) manejo sanitário para o mês; B) registro recente de doenças transmissíveis ou não, sugerindo medidas para suas prevenções.
Tais registros são obtidos com o apoio das Agências Estaduais de Defesa Sanitária Animal, de Professores Universitários, do MAP, da EMBRAPA, e da rede de contato de veterinários de campo, assim como minhas observações
TRATAMENTO ESTRATÉGICO CONTRA FASCIOLA HEPATICA EM BOVINOS DO SUL/SUDESTE
Em abril, o único tratamento estratégico sugerido é contra Fasciola hepatica, empregando para tal vermífugos a base de tricabendazole, nitroxinil, clorsulon ou closantel. Recomenda-se essa vermifugação nas seguintes áreas:
RS – todo o estado com exceção da região noroeste;
SC – regiões do planalto e do litoral;
PR – litoral e municípios centrais;
SP – Vales do Ribeira e do Paraíba, além do município de Buri.
A fasciolose causa perda de peso, anemia e em casos extremos até a morte.

“VACA LOUCA” ATÍPICA NO PARÁ: RAIO X DA PROPRIEDADE E DO ANIMAL
A partir de fonte confiável e técnica, obtive informações inéditas e detalhadas da propriedade e do bovino, diagnosticado com encefalopatia espongiforme atípica (EEA) (“vaca louca”), que chacoalhou mais uma vez a exportação de carne e o preço da arroba de norte ao sul do país.
Propriedade – Situada no município de Marabá, a fazendola tem cerca de 150 hectares e é considerada um agrupamento familiar, com suas terras anteriormente regularizadas e cedidas pelo INCRA, e tocada pela mãe e seus filhos. A propriedade tem 160 cabeças, com uma parte de vacas para produção de leite e outra de corte.
Segundo apurado, o rebanho é constituído de 70 vacas, 38 bezerros, um touro, e os demais machos (vendidos para o abate, com média de 3,5 anos) e novilhas. Todo o rebanho foi vacinado recentemente contra febre aftosa e as bezerras contra brucelose.
Embora Marabá não esteja na lista dos 50 municípios paraenses onde a vacinação contra raiva é obrigatória, todo o gado é anualmente vacinado contra esta doença. O rebanho recebe continuamente sal mineral “batizado” com sal comum e nunca foi suplementado com ureia e “cama-de-frango”.
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Animal – O animal diagnosticado com EEA foi o touro, da raça Nelore, empregado na reprodução. O bovino foi comprado há cinco anos de outra propriedade da região, e na época foi vendido como se tivesse a idade de quatro anos.
A fonte consultada suspeita que na compra ele fosse mais velho, ultrapassando a idade registrada oficialmente de nove anos, confirmada apenas pelo histórico e não pelo desgaste dos dentes incisivos (da frente).
O quadro nervoso surgiu de repente, e até então o animal estava normal e com condição corporal considerada boa. Na tarde do dia anterior ao sacrifício, notou-se que o animal, que sempre liderava o rebanho, ficou por último, quando da lida, caminhando mais lentamente e com alguma dificuldade. Já pela manhã apresentou-se deitado lateralmente, com a cabeça flexionada, na posição de “mirar estrelas” (opistótono), mas ainda mantinha o olhar vivo, reagindo parcialmente aos estímulos sonoros e de dor.
Sua musculatura não estava tensa e não apresentava tremores, mas sim um certo grau de paralisia. O animal não mugia e não tinha espasmos indicativos de dor. O quadro clínico evoluiu muito rapidamente, no decorrer do dia, com o animal perdendo sua consciência e entrando num estado de coma, quando se optou pelo sacrifício, seguido de necrópsia e coleta de amostras para exames.
A carcaça foi incinerada, não podendo assim posteriormente se confirmar a idade de forma mais precisa. O exame inicial foi negativo para raiva e posteriormente foi confirmada a ocorrência de EEA, tanto em laboratório no Brasil, como no Canadá.
Estudos dos casos de EEA que ocorreram pelo mundo afora indicam que a idade média de bovinos com a doença é de 12 anos, enquanto que nos casos típicos (que ingeriram o agente causador por meio de farinha de carne bovina) é de cinco.
Cerca de 80% dos casos de EEA confirmados aconteceram em bovinos de corte e em fêmeas. Por sinal, este é o primeiro caso de EEA em machos, no Brasil. Enquanto que na forma típica o animal ingere a proteína infecciosa pela ração, na atípica uma proteína semelhante, que existe no cérebro (príon), pode sofrer mutação, durante o envelhecimento, se multiplicando para valer no cérebro e causando a doença.
Uma encefalopatia espongiforme (Doença de Creutzfeldt-Jacob- DCJ) acomete seres humanos com mais de 65 anos, gerando quadro de demência, e se desenvolve da mesma forma que a EEA, ou seja, por mutação do príon cerebral.
Estudos epidemiológicos em humanos indicaram uma pessoa em cada um milhão que atinge os 70 anos desenvolve a DCJ, porém falta o mesmo levantamento em relação à EEA, descrita até hoje em não mais de 70 bovinos mundo afora.

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