Isso significa dizer que a cada 100 fêmeas inseminadas, na desmama, pode-se faturar de R$ 126 mil a R$ 204,75 mil (bezerros de 210 kg de peso a R$ 15/kg). A pergunta é: a diferença de 62,25% faz a diferença no caixa?
A eficiência da IA varia mais do que muitos pecuaristas imaginam. Mesmo com protocolos adequados e manejos bem-conduzidos, os resultados podem ser muito distintos entre rebanhos e, até mesmo, entre lotes de fêmeas.
Uma das principais determinantes, por trás dessa diferença, é a fertilidade do sêmen utilizado, característica que vem ganhando espaço nas decisões de compra e se mostrando decisiva para o sucesso dos protocolos de reprodução.
De modo geral, a fertilidade pode ser entendida como a capacidade de o material genético inseminado efetivamente emprenhar as vacas e gerar bezerros com genética superior. Na prática, ela se reflete em dois indicadores centrais: a taxa de prenhez e as perdas gestacionais.
Contudo, Ériklis Nogueira, doutor em Ciências Veterinárias e pesquisador em Reprodução Animal da Embrapa Gado de Corte (CNPGC – Campo Grande, MS), explica que “nada acontece se nutrição e saúde dos bovinos não atenderem as exigências básicas”.

A taxa de prenhez indica a porcentagem de inseminações que resulta em gestação. Na média dos rebanhos brasileiros submetidos à inseminação artificial em tempo fixo (IATF), esse índice gira em torno de 50%. Em situações de menor fertilidade, pode cair para cerca de 40%.
Já a escolha de touros mais férteis associado ao bom manejo (nutricional, sanitário, etc..) permite alcançar índices entre 60% e 65%, com impacto direto na eficiência e na rentabilidade do sistema. As perdas gestacionais correspondem às vacas que emprenharam, mas perderam o bezerro ao longo da gestação.
A importância da fertilidade fica ainda mais evidente quando se observa a variação dos resultados a campo, mesmo em sistemas bem manejados. Nogueira salienta que “a inclusão desse critério na escolha do sêmen tem se mostrado um caminho consistente para elevar os índices de prenhez e reduzir perdas ao longo do processo”.
Na Embrapa Gado de Corte, o tema vem sendo estudado a partir de bases de dados robustas, coletadas diretamente no campo. Atualmente, são analisadas informações de aproximadamente 3,3 mil touros da raça Nelore, coletadas a partir de inseminações realizadas em diferentes sistemas produtivos.
Esses dados possibilitam identificar diferenças consistentes de fertilidade entre os machos e auxiliam programas de classificação utilizados pelas centrais de genética, além de estudos voltados à identificação de fatores genéticos e de qualidade seminal associados ao sucesso da prenhez e às perdas gestacionais.
Os ganhos ocorrem no curto e no longo prazo. De forma imediata, a fertilidade superior resulta em mais prenhez por protocolo. Ao longo do tempo, essa característica passa a ser incorporada ao rebanho.
Embora a herdabilidade da fertilidade seja relativamente baixa – em torno de 3% -, ela contribui para a evolução genética quando considerada de forma contínua, associada a outras características avaliadas, como as DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie).
Na indústria e prestação de serviços da IA
Nas últimas décadas, a inseminação artificial se consolidou como uma das formas mais eficientes de aumentar a produtividade da pecuária brasileira, impulsionada pelo avanço das pesquisas, tecnologia e investimentos dos pecuaristas, com apoio de entidades como a Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial).
A experiência no campo mostra que dificilmente uma fazenda que adota a inseminação artificial volta atrás. É nessa direção que se tem de caminhar para contribuir para o contínuo avanço produtivo da atividade.
E há mais destaques trazidos por . Segundo ele, a boa notícia vem de um “grande esforço coletivo para estreitar essa faixa de 40 a 65% de eficiência, na prática da IA”.

Fertilidade não é tudo
Para o pecuarista, a fertilidade não deve ser o único critério de escolha do sêmen, mas precisa integrar o conjunto de fatores analisados, juntamente com outras características importantes, como o desempenho dos animais (ganho de peso a desmama, ao sobreano, AOL, etc…), segundo aponta o pesquisador da Embrapa.
Segundo Nogueira, a busca por boa taxa de prenhez pode ser combinada com duas estratégias complementares: “a utilização de touros com fertilidade já verificada pelas centrais, que oferecem maior previsibilidade nos resultados e a diversificação com touros jovens, que costumam apresentar genética melhorada e sêmen mais acessível”.
Nesse caso, a recomendação é trabalhar com um maior número de touros jovens diferentes, reduzindo riscos e ampliando a base genética do rebanho. Na prática, reforça o pesquisador, “essas decisões devem estar associadas a bom manejo nutricional, sanitário e reprodutivo”.




