Em artigo, o zootecnista Adilson de Paula Almeida Aguiar apresenta as bases para a montagem e continuidade de projetos nessa área

Por Adilson de Paula Almeida Aguiar – Zootecnista, professor em cursos de pós-graduação do Rehagro e das Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu); consultor associado da Consupec (Consultoria e Planejamento Pecuário), de MG, e investidor nas atividades de pecuária de corte e leite.
No primeiro artigo desta série sobre produção de carne bovina em pastagens irrigadas, publicado em abril, listei os objetivos da adoção desta tecnologia, quais informações/dados devem ser levantados para a realização de um diagnóstico de viabilidade técnico-econômica, quais sistemas de irrigação de pastagens são mais adotados no País, as espécies forrageiras que têm sido mais empregadas e o passo a passo para estabelecimento de pastagens nesses sistemas. Agora, vou apresentar as bases para a montagem e continuidade de projetos nessa área, a partir de dúvidas manifestadas, nos últimos 26 anos, por produtores que têm interesse na tecnologia.
1) Existe alguma diferença de infraestrutura entre pastagem de sequeiro e irrigada? Não. Estando a pastagem estabelecida, antes da preocupação com o manejo do pastoreio, deve-se planejar e conduzir a implementação da infraestrutura, dimensionando as medidas dos piquetes, áreas de descanso, cochos para suplementação, fontes de água, sombreamento e corredores de acesso ao curral e aos piquetes. Este planejamento é ainda mais crítico em uma pastagem irrigada, por causa das altas densidades de lotação, principalmente nas estações de primavera e verão. O número de animais por lote em pastagens irrigadas tem variado entre 150 e 2.100, dependendo da área de pastagens que está sendo irrigada.
2) Existem diferenças no manejo do pastoreio entre pastagem de sequeiro e irrigada? Não. O parâmetro que deve orientar o manejo do pastoreio é o mesmo da pastagem de sequeiro: as alturas-alvo do capim para entrada e saída dos animais do piquete, específicas para cada espécie/cultivar forrageira. A diferença é que, numa pastagem irrigada, pela condição de prover à planta água o ano inteiro e pelas maiores doses de adubação, a taxa de expansão do pasto (crescimento em cm/dia) é significativamente maior, portanto, a frequência de pastoreio e a intensidade de pastejo devem ser maiores para evitar perdas na qualidade e na quantidade de forragem.
Uma vez estabelecidas a pastagem e sua infraestrutura, e adotados os procedimentos de manejo do pastoreio, é preciso gerir o crescimento e a produção de forragem, como também sua utilização e sua conversão em carne.
3) Por que gerir a forragem produzida na pastagem e elaborar um planejamento alimentar, mesmo em projetos irrigados? As limitações para o crescimento de plantas forrageiras no mundo se distribuem assim: em 36% do globo terrestre, o crescimento é limitado pela temperatura; em 31%, pelo déficit hídrico; em 24%, por ambos os elementos climáticos e, em apenas 9% da terra, não há limitações de temperatura e de déficit hídrico. Assim, mesmo em uma pastagem irrigada, devido à redução no fotoperíodo e na temperatura ambiente, principalmente nas estações de outono-inverno, a pastagem apresentará uma estacionalidade de produção forrageira, condição que leva à necessidade de se elaborar um planejamento alimentar.
Os dados apresentados na tabela acima foram coletados por meio da técnica de medição direta (técnica do quadrado), desde meados da década de 90, principalmente nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, onde foram estabelecidos os potenciais para as pastagens extensivas de Braquiarão (Brachiaria brizantha cultivar Marandu) e Brachiaria decumbens.
O mesmo trabalho foi feito em Minas Gerais e São Paulo, para pastagens intensivas sem irrigação dos capins Braquiarão, das cultivares de Panicum maximum Mombaça e Tanzânia, além do Tifton 85 (Cynodon sp). Nos Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Bahia, estabeleceram-se as bases para implementação de pastagens intensivas irrigadas de Braquiarão, Decumbens, Mombaça, Ruziziensis, Tanzânia, Tifton 85, Vaqueiro (cultivar de Cynodon dactylon) e Xaraés, também chamado de MG-5. As medições foram conduzidas tanto em instituições de pesquisa quanto em fazendas comerciais.
Observa-se, na tabela abaixo, que as tecnologias de intensificação da produção de pastagem por meio de correção, adubação e irrigação do solo aumentaram as taxas de acúmulo de forma expressiva, principalmente no inverno (86,3 kg de MS/ha/dia), em comparação com a pastagem intensiva de sequeiro, que acumulou 26,8 kg de MS/ha/dia. Entretanto, não foi possível eliminar a estacionalidade forrageira, ou seja, não se conseguiu manter a taxa de acúmulo constante em todas as estações do ano, daí a necessidade de, mesmo neste sistema, se fazer planejamento alimentar para o rebanho.
Uma das práticas essenciais para realização desse planejamento em sistemas pastoris é o cálculo da oferta de forragem fornecida pela pastagem (em kg de MS/ha) e a demanda alimentar do rebanho que ela está sustentando (UA/ha x kg de MS/UA), usando-se metodologias de mensuração. Tal prática ainda tem baixíssima adoção nas fazendas brasileiras, entretanto, os produtores que têm investido em irrigação de pastagens têm sido mais abertos à sua adoção, devido ao alto nível de investimentos feito no projeto, ao maior custo de produção da forragem e aos custos com altas taxas de lotação (compra de animais, suplementos, vacinas etc.). Assim, eles estão conscientes de que, neste sistema, é muito caro errar.
4) Quais têm sido as alternativas para tamponar os déficits forrageiros em função da estacionalidade de produção da pastagem? Enquanto, em sistemas extensivos, a alternativa mais tradicionalmente adotada pelos produtores é o diferimento da pastagem, em sistemas intensivos sem uso de irrigação (sequeiro, por exemplo) a saída tem sido confinar os animais no período da seca. Para isso, a maioria das propriedades produz volumosos suplementares (silagens, pré-secados, fenos etc.) ou então adota um modelo de produção estacional com a retirada da fazenda ou venda do excedente de animais no período de transição chuva/seca.
Por outro lado, em pastagens irrigadas, tem sido possível tamponar a deficiência de forragem apenas com o semiconfinamento dos animais, fornecendo as animais concentrados em níveis que provocam efeito substitutivo, tal como em um sistema de terminação intensiva a pasto (TIP).
5) Como deve ser a correção e adubação de solos de uma pastagem irrigada? As etapas de um programa de manejo da fertilidade do solo de uma pastagem irrigada são as mesmas adotadas na de sequeiro. As diferenças estão na possibilidade de se adubar o ano inteiro; nas doses maiores de adubos, para aproveitar todo o potencial produtivo do capim propiciado pela irrigação; e na maior eficiência de uso dos nutrientes também em função da irrigação, que possibilita o controle da umidade do solo, condição que potencializa a resposta às adubações, particularmente com nitrogênio (N) e principalmente quando a fonte de N é a ureia convencional.
A irrigação do solo em áreas de pastagem possibilita incrementar as respostas desse tipo de adubo em índices que podem variar de 20% (dose de 200 kg/ha) a 52%, no caso de aplicação em quantidades bem maiores (600 kg/ha).
Por Adilson de Paula Almeida Aguiar – Zootecnista, professor em cursos de pós-graduação do Rehagro e das Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu); consultor associado da Consupec (Consultoria e Planejamento Pecuário), de MG, e investidor nas atividades de pecuária de corte e leite.





