Por Hyberville Neto – consultor e diretor da HN AGRO.
Hoje, 31 de julho, escrevo esta análise de Cuiabá-MT, coincidentemente, também estava aqui no dia 10 de julho, quando foram divulgadas as tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, duas horas antes de uma palestra, o que deixou a tarefa de falar sobre o mercado, já um pouco ingrata, ainda mais complexa.
Nessa análise, vamos passar pelo que foi observado nessas semanas, ponderando o que esperamos para o mercado do boi gordo nesse contexto. Desta vez o foco não serão números e gráficos, como normalmente fazemos, mas uma visão geral.
Oferta
A oferta e gado no início de julho estava um pouco maior que nas semanas anteriores, cenário que foi intensificado com as notícias.
Notícias que trouxeram dúvidas, é fato, mas com um nível de especulação que superou bastante o peso dos EUA nas nossas exportações, algo em torno de 12%, considerando carne in natura no primeiro semestre.
Em outras palavras, na nossa visão, a pressão de baixa e a fumaça foram um tanto exagerados, mas parece que, em relação ao boi gordo, o cenário já está se equilibrando. As programações de abate têm encurtado e os preços já começam a mudar de direção no físico. No futuro, já estamos vendo novamente preços semelhantes aos do início de julho.
Como adicional, o prolongamento das chuvas em diversas regiões pode ter tido sua parcela de culpa na disponibilidade de gado um pouco tardia, pensando em pastagens.
Ou seja, a expectativa é de que a entressafra chegue efetivamente, mas aqui cabe uma ponderação, que estamos falando de um nível de abates ainda elevado em 2025. A oferta de fêmeas nos primeiros meses do ano seguiu com aumento na comparação anual.
Confinamento
Para a segunda metade de 2025, sazonalmente as fêmeas perdem relevância e os abates de machos ganham peso, com uma atenção importante para o confinamento.
Em relação ao confinamento, a relação de troca com o boi magro está nos menores níveis desde o final de 2023, enquanto o poder de compra frente ao milho está nas máximas desde 2017. Ou seja, arroba engordada em níveis atrativos, mas reposição incomodando. No frigir dos ovos, o confinamento está atrativo e acreditamos em aumento no volume confinado, com duas ponderações.
- A turbulência recente no cenário econômico, com efeitos nas cotações do boi gordo, chegou em um momento no qual ainda pode influenciar o envio de gado para o cocho. Mesmo com os preços futuros atuais dando oportunidade de garantir resultados, o susto recente pode ter tirado/tirar alguma parcela do gado que entraria no cocho, com saída mais para o final de outubro em diante, ainda mais quando temos como custo de oportunidade os “juros de agiota” brasileiros. Algum volume de gado de cocho a menos (frente ao esperado) acaba sendo positivo para preços.
- Outra questão é que, se fecharmos o ano com crescimento das exportações em patamar próximo do primeiro semestre (cerca de 13%), teremos mais de um milhão de cabeças de demanda “a mais” apenas para suprir as exportações. As projeções mais otimistas não têm apontado um adicional de um milhão de cabeças confinadas frente a 2024.
Apenas uma ponderação, para essa relação consideramos o peso total das carcaças. No entanto, como não é toda a carcaça que se destina à exportação, para atingir o volume de carne, seriam necessárias ainda mais cabeças abatidas.
Demanda
As exportações terminaram o primeiro semestre com crescimento em torno de 13%, na comparação com o mesmo intervalo de 2024. Com as tarifas, se realmente entrarem em vigor, teremos praticamente a saída dos Estados Unidos da jogada, o que deve redirecionar a demanda do país (que está com oferta de gado nas mínimas e preços em alta) para outros fornecedores, com destaque para a Austrália.
Austrália, por sua, vez, é outra fornecedora da China, nosso maior cliente, que comprou volume recorde do Brasil no primeiro semestre. O país oceânico também manda carne para Japão e Coreia do Sul, além de já exportar para os EUA.
Perceba que a demanda dos EUA vai concorrer com os nossos clientes ou possíveis clientes. Aqui focamos o exemplo nas vendas da Austrália, mas, em maior ou menor grau, a expectativa é de redirecionamentos, principalmente com aumento em clientes já existentes, como a China.
O México tem comprado mais e em junho já tinha passado os EUA em volume, considerando apenas o mês (não no semestre). É outro país que manda carne para a terra do tio Sam a pode vir se abastecer mais conosco.
Na média dos últimos cinco anos, os embarques no segundo semestre foram cerca de 20% maiores que no primeiro, o que reforça a expectativa positiva. O aumento sazonal que ocorre para a China, na preparação para o Ano Novo Lunar, colabora com essa expectativa.
Considerações
Do lado da oferta, confinamento deve aumentar, mas na nossa visão já há destino para esse “adicional”. Em relação às fêmeas, normalmente elas já são menos relevantes na segunda metade do ano, além do fato de que, na nossa visão, estamos na “hora extra” desse ritmo de abates de fêmeas, mesmo considerando a sazonalidade.
Acreditamos que o ritmo de oferta esteja próximo de uma inversão, o que não quer dizer abates historicamente pequenos, uma vez que os níveis atuais são recordes. No entanto, um início de recuo dos abates (e produção de carne) se somando ao bom ritmo das exportações resulta em menor disponibilidade interna de carne bovina para ser destinada ao mercado interno. Essa menor quantidade de carne a ser ofertada permite que os preços se ajustem positivamente, mesmo em um cenário de economia mais lenta e inflação em alta.
Paralelamente à briga tarifária como Brasil, os EUA têm evoluído e fechado acordos ou postergado prazos com os outros parceiros, incluindo México, China e União Europeia. Esse menor tensionamento colabora com um momento de mais força para o dólar, no contexto geral.
Quando somamos o contexto, do dólar ganhando força, à nossa situação fiscal e o atrito com os EUA, essas últimas questões indo contra o real, o resultado tende a ser de um dólar mais firme frente à nossa moeda, o que beneficia os embarques de carne bovina.
Expectativa de mercado é uma coisa, gestão de risco é outra. Dito isso, a nossa expectativa é de que haja espaço para o mercado evoluir até bem ao longo do segundo semestre.
Quanto à gestão de risco, garantir preços mínimos é interessante para o momento, ainda mais quando temos uma distância razoável entre o custo da arroba vendida e as possibilidades de trava à mesa. Na nossa visão, continua sendo um ano de manter a exposição à altas (proteção via seguro de baixa – puts).
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Mercado Pecuário
Quer mais análises sobre o mercado do boi gordo? Acompanhe o programa Mercado Pecuário, toda quarta-feira no DBO Play. Apesentado pela jornalista Juliana Camargo, o programa é uma referência para o pecuarista que quer se manter atualizado sobre os principais assuntos que cercam o setor.
Hora da Reposição
Confira também, toda sexta-feira, uma nova edição do programa Hora da Reposição. A cada semana, o repórter Ivaris Junior explora a situação do mercado e tendências da comercialização de gado geral nas diferentes regiões com entrevistas com leiloeiros e especialistas do setor.





