Por Hyberville Neto – consultor e diretor da HN AGRO.
Mais um conflito no Oriente Médio começou. E quando digo mais um, estou me referindo à quantidade de questões que eclodiram na região, em muitas décadas, e não reduzindo a importância geopolítica deste.
Nesta situação atual, temos o estreito de Ormuz fechado, segundo autoridades iranianas, situação refutada pelos Estados Unidos. De toda forma, o fato é que o fluxo está fortemente afetado em uma região fundamental para fornecimento de petróleo e gás natural e, consequentemente, combustíveis e nitrogenados.
O Canal de Suez, que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, tem sido evitado por empresas de transporte marítimo, que estão optando pela volta, mais longa e cara, via Cabo da Boa Esperança. Para a logística, além da “volta” maior, o petróleo está mais caro, o que reforça o peso no frete.
No início da semana, nos primeiros dias úteis depois da eclosão do conflito, a segunda e a terça-feira fluíram tensas, como era de se esperar, com dólar e ouro em alta, petróleo subindo ainda mais e bolsas caindo.
No mercado do boi gordo, as atenções se voltaram a alguns pontos.
O Irã é um grande importador de milho, tendo sido o destino de 23,1% das exportações brasileiras em 2025, segundo a Secex. Um possível impacto negativo nos embarques poderia gerar alguma redução de custos, em uma situação de troca já atrativa com a arroba. No entanto, a situação é mais complexa e os efeitos sobre o câmbio, os preços dos combustíveis (afetando etanol) e fertilizantes (ureia, semeadura EUA) também devem ser acompanhados. Em um primeiro momento, houve valorização na B3.
Como a resposta do Irã ocorreu de maneira generalizada pela região, além do foco de conflito de Israel com o Hezbollah no Líbano, por enquanto analisamos a região como um todo. Nesse contexto, temos cerca de 35% de participação do Oriente Médio nos embarques brasileiros de carne de aves em 2025, considerando faturamento e incluindo o Egito.
A continuidade do conflito na região pode impactar as vendas de carne de frango a esses países, com consequente aumento da oferta doméstica e pressão sobre as cotações, que já estão historicamente competitivas frente à carne bovina.
Ainda considerando o Egito, o peso da região na venda de carne bovina in natura foi de 8,8% em 2025, no faturamento. Sem o Egito seria de 6,8%. Após altas fortes do mercado futuro do boi nas últimas semanas, a chegada destas variáveis e muito barulho pressionaram as cotações do boi gordo na bolsa na segunda e terça-feira.
Já o mercado físico seguiu firme, com disponibilidade enxuta de carne pelos abates mais lentos e início de mês. Não podemos descartar que a pressão dos futuros gere alguma opção pela venda de produtores que têm gado pronto. Essa não é a lógica, uma vez que o mercado futuro deriva (derivativo) do físico e não o oposto, mas às vezes ocorre.
Nesta quarta-feira, o mercado em geral trabalhou em um tom mais ameno, embora a situação esteja em desenvolvimento na região. O dólar, ouro e petróleo cedendo ilustram essa certa “acomodação” dos ânimos, pelo menos por enquanto.
Já os preços futuros do boi gordo trabalharam no positivo, recuperando parte das quedas dos últimos dias, o que parece mais coerente com um ano que deve ser de redução de oferta.
Não podemos descartar mais solavancos nos diferentes mercados, dada a importância da região e tensão da situação, mas o tom desta quarta-feira foi mais calmo. Outro ponto relevante é que o Irã não é diretamente relevante nas exportações de carnes, com isso, se a guerra ficar mais restrita ao país, com o desenrolar da situação, há espaço para reduzir os impactos, mesmo com o peso sobre fretes e logística.
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