
Por Renato Villela
Após o reconhecimento internacional de “livre de aftosa sem vacinação”, pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), em maio de 2025, o Brasil se prepara para um novo desafio: a manutenção do status conquistado.
Significa dizer que não se buscará, como medida única, impedir a reintrodução do vírus, mas em se assegurar a rápida recuperação do status, caso a doença reapareça.
Para tal, o País discute um modelo de vigilância ativa unificado e o estímulo à vigilância passiva, e conta com a segurança de um banco de vacinas e antígenos.
“A gente não pergunta se, mas quando vai ter aftosa”, afirma Guilherme Marques, membro do Centro Panamericano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária (Panaftosa/SPV). A frase pode parecer alarmista, mas apenas expõe uma realidade que não é incomum entre os países que já erradicaram a doença, e reforça a importância de se estar bem preparado.
O Japão, por exemplo, registrou um foco em março de 2000, após 93 anos sem aftosa. No ano passado, a doença reapareceu na Europa, mas em poucos meses os países debelaram o foco e recuperaram o status sanitário, como se mostrará mais adiante.
Para Manoel Augusto Tamassia, vice-chefe do departamento de status da OMSA, é fundamental que o Brasil invista na vigilância ativa, mantendo uma rotina de diagnósticos para doenças com sintomatologia vesicular, como a aftosa.
“Precisa realizar testes e contabilizá-los. Senão, fica difícil passar credibilidade para os compradores (da carne) de que o serviço de vigilância está fazendo o seu trabalho corretamente”, afirma. Ele lembra que os agentes públicos devem estar capacitados e o produtor, ter acesso à informação. “É importantíssimo que todos saibam reconhecer os sinais clínicos da doença”.
Na visão de Daniella Bueno, fiscal estadual agropecuária do Instituto de Defesa Agropecuária do Mato Grosso (Indea), além do fortalecimento da vigilância epidemiológica, a manutenção do atual status do Brasil depende de fatores como um sistema de diagnóstico robusto, a notificação imediata por parte dos produtores (vigilância passiva) e a atualização e testagem contínua do Plano de Contingência, que lista as operações específicas em caso do reaparecimento da doença.
“O reconhecimento da OMSA não foi um prêmio, mas uma autorização internacional para sermos ainda mais competentes”, diz.
Banco de antígenos
O ano de 2025 marcou também a criação (em 29 de agosto) do Banco Regional de Antígenos de Febre Aftosa (Banvaco), oficializado com a adesão do Brasil, que se juntou ao Equador e ao Paraguai. Uruguai e Bolívia aderiram meses depois. A expectativa é de que pelo menos mais cinco países ingressem em 2026.
O objetivo primário do banco é garantir um estoque de vacinas que possa ser usado de imediato em caso de necessidade, assim como uma reserva estratégica de antígenos para a produção de imunizantes.
Para Guilherme Marques, do Panaftosa, o Banvaco não pode ser considerado somente um fornecedor de vacinas. “Ele é a construção de uma estratégia solidária entre os países, para que possam se apoiar uns nos outros numa situação de emergência sanitária”, afirma.
Em primeiro lugar, não se trata de um local único; em segundo, tem etapas a cumprir. A primeira é a pré-qualificação dos laboratórios interessados em se tornarem provedores, o que inclui supervisões e vistorias para se verificar a capacidade de atender aos requisitos mínimos estabelecidos por uma Comissão de Gestão de Riscos e Biossegurança do Panaftosa.
Depois, os laboratórios qualificados vão para a etapa seguinte, que é o processo de licitação internacional, previsto para junho de 2026. A ideia é que sejam escolhidos, por razões estratégicas, mais de um laboratório (existem 12 ao redor do mundo) em diferentes continentes.
Fechado o contrato, a indústria tem quatro meses para preparar as concentrações de antígenos. Se houver um foco, o laboratório é acionado e tem até cinco dias para entregar as vacinas específicas para o país demandante.
“Vale lembrar que toda esta cronologia está atrelada ao aporte de recursos necessários por parte dos países participantes do Banvaco”, ressalta Marques, que é o gestor do banco. Ele informa que tanto o estoque de vacinas quanto a escolha dos antígenos ainda não estão definidos.
A cautela se justifica por existirem sete tipos de vírus (A, O, C, SAT1, SAT2, SAT3 e ASIA-1) e pelo fato de não haver imunização cruzada para a doença, ou seja, a vacina protege somente contra o vírus que estiver em sua composição. Manter estoques para todas as cepas é inviável economicamente. “Estamos estudando quais cepas representam maior risco para nossa região”, diz.
No dia 18 de dezembro, o Mapa anunciou que o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) será o responsável pela criação do primeiro banco brasileiro de antígenos e vacinas contra a febre aftosa. O Tecpar será o único laboratório público nessa condição e deterá os insumos necessários para entregar, em até 72 horas, vacinas para serem utilizadas em situação de emergência sanitária.
Na íntegra desta reportagem do Anuário DBO, você também confere como a Europa lidou com recentes casos de febre aftosa registrados na região e o que isso ensina ao Brasil. Revise, também, como devem ser delimitadas as áreas de risco para a doença, com base nas definições do Mapa.
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