O professor titular da FMVZ-USP e colunista da Revista DBO, Enrico Ortolani, explica a grave inflamação da pele de animais provocada pela luz ultravioleta solar

No meu começo de carreira, assisti a uma palestra que marcou minha vida científica. O sábio pesquisador afirmou: “Você quer entender uma doença, para saber diagnosticá-la, tratá-la e preveni-la? Então, compreenda bem os mecanismos pelos quais ela se desenvolve!”. É o que chamamos, na clínica, de patogenia (páthos = doença; genia = origem).
A “requeima”, por exemplo, chamada cientificamente de fotossensibilização (foto = luz), é de facílimo diagnóstico, mas nem sempre bem compreendida, por desconhecimento de sua origem. Trata-se de uma grave inflamação da pele causada por compostos ingeridos ou gerados no organismo que se acumulam na tez e, quando submetidos à luz ultravioleta (UV) solar, provocam “queimadura”.
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As principais áreas afetadas são aquelas com pele branca não recoberta por melanina, que é um protetor solar natural. Bovinos de até dois anos são mais acometidos do que a boiada velha. A doença surge muitas vezes entre abril e agosto, em anos chuvosos. A fotossensibilização é diferente da queimadura por exposição ao sol, pois nesta não há nenhuma outra substância para gerar lesões na tez, causada exclusivamente pelos raios UV. Sofri muito com isso quando garoto, pois não existia protetor solar.
Origens do problema
A requeima pode ter três origens: genética, primária e secundária ou hepática. Vamos comer o boi aos bifes! A genética é raríssima e ocorre em certas raças taurinas (Hereford, Holandês, Limousin e Blond D’Aquitaine) de pele clara. Devido a uma falha genética, há alteração no metabolismo do sangue, acumulando porfirina ou protoporfirina, que, na pele, são modificadas pelos raios UV, causando as lesões locais. As funções do fígado se encontram preservadas. Atendi um bezerro Limousin com este problema, despelado, “queimado” e bem magricelo. Dava pena!
A requeima primária é causada pela ingestão de certas plantas que contêm compostos, que, se absorvidos, vão diretamente para a pele, e lá são modificados pelos raios UV. No Brasil, foram identificadas três plantas: o ervanço (Froelichia humboldtiana), uma invasora de pastagens degradadas do semiárido nordestino que afeta ruminantes e equídeos; a bisnaga-das-searas (Ammi majus), que somente cresce no sudeste do Rio Grande do Sul (RS); e o trigo-sarraceno (Fagopirum esculentum), que medra no nordeste do RS. Tal qual às causas hereditárias, essas plantas não geram lesões no fígado.
Já a forma secundária ou hepática responde por mais de 95% dos casos observados na boiada brasileira. Ela decorre de lesões comprometedoras no fígado, já que esse órgão e os rins são os principais detoxificadores de impurezas e toxinas no organismo. Quando o fígado está baleado, o boi está enrascado! As lesões podem se localizar nos tecidos principais (parênquima), que representam cerca de 95% do peso do fígado, e/ou nas células (colangiócitos) e canalículos, que produzem/conduzem o fel (bile) para o intestino, ajudando na digestão.
Quatro plantas arbustivas geradoras de estragos no parênquima podem causar fotossensibilização: a Lantana camara (Chumbinho ou Camará), o Enterolobium gummiferum (Tamboril-do-campo), o Myoporum laetum (Cerca-viva) e o Senecio brasiliensis (Flor-das-almas).

O Chumbinho cresce em todas as plagas brasileiras; o Tamboril, nos cerrados mineiro, paulista e goiano; a Cerca-viva, somente no sudeste do RS; e a Flor-das-almas, em toda a região Sul. Dentre as três, destacaria o Chumbinho, muito comum nos jardins e que está se espalhando pelas pastagens, em especial do Nordeste. Os pássaros comem e eliminam suas sementes, já estercadas, justamente no pé das cercas, o que dificulta sua erradicação. Você tem o chumbinho no jardim de sua casa ou de sua fazenda?
De olho nos capins
A biologia tem seus caprichos. Nem todas as plantas tóxinas ou parasitas que atacam o fígado causam fotossensibilização, mas falarei agora dos capins. Intoxiquei experimentalmente búfalos com cobre, que, em excesso, causa danos ao parênquima. Testei um tratamento que os curou por completo. Dois meses depois, eles saíram do galpão coberto para um pasto de braquiária que nunca tinha causado problemas e, batata, algum tempo depois a requeima acometeu todos os bubalinos, indicando que o fígado já danificado não tolerava pequenas doses das toxinas das quais falarei a seguir.
De longe, certos capins são os principais causadores da requeima, com destaque para a B. decumbens, e com menor frequência a B. brizantha cultivar Marandu, a B. humidicola e a B. ruzizienses. A B. decumbens chegou para valer no início da década de 70 e, em pouco tempo, invadiu nossas pastagens, devido a sua boa produtividade e adaptação aos solos fracos. Mas, já em 1975, foi descrita uma enxurrada de casos de fotossensibilização. Logo os pesquisadores identificaram a presença do fungo Phitomyces chartarum nos capins, visto que uma toxina (esporodesmina) produzida por ele causava “requeima” na boiada da terra dos cangurus, e na dos kiwis (ave típica da Nova Zelândia). Por terem isolado o P. chartarum atribuiu-se, na época, unicamente à esporodesmina os casos de fotossensibilização.
A esporodesmina é uma micotoxina produzida quando alguns fungos se multiplicam nas folhas mortas dos capins em anos muito chuvosos e quentes, quando a forragem está alta e abafada. A chance de ocorrer requeima é maior na pastagem diferida de braquiária, para uso nos períodos secos. Solos arenosos aumentam o surgimento de folhas mortas. Quanto maior a infestação por P. chartarum maior será a produção de esporodesmina. Porém, verificou-se que cerca 20% das cepas de P. chartarum não produzem essa micotoxina. Vá entender!

Como a toxina atua
A esporodesmina gera a requeima pelos danos nos canalículos biliares e, em menor grau, no parênquima hepático. Na verdade, antes de causar a lesão a esporodesmina se oxida nos canalículos e gera, no processo, muitos radicais livres (O2-; H2O2; -OH), que provocam estragos locais. Pouco se fala sobre o que aumenta a produção desses radicais. Eles são muito mais gerados quando há muito cobre no pedaço e com baixo grau de acidez, típico da bile (pH 8,5). Como os bovinos jovens produzem mais bile do que os mais velhos, provavelmente os primeiros têm mais chance de apresentar requeima do que os últimos. Por sorte, quantidades excessivas de zinco bloqueiam a oxidação da esporodesmina.
Os canalículos e a vesícula biliar lesados diminuem muito a eliminação de bile, fluido por meio do qual é expelida a fitoporfirina (também chamada de filoeritrina), gerada pela degradação da clorofila dos capins. Com o acúmulo da fitoporfirina, ela vai parar na pele, se transforma pela luz UV e emite enorme energia, como se fosse uma queimadura solar, que causa as “brabas” lesões na tez.
Na virada do milênio, perceberam que alguns casos de requeima surgiam durante todo o ano em boiadas que pastavam braquiárias com exuberante rebrota, não tão altas e abafadas, muitas vezes após queimadas, e que tinham baixa contaminação por P. chartarum. Descobriu-se, então, nos capins, a presença de alta quantidade de saponinas, que, absorvidas, se juntavam com um componente da bile e com cálcio, formando cristais que entupiam a saída da bile. Bem esporadicamente, ocorre excesso de saponinas e de esporodesmina aumentando mais o banzé e o prejuízo.
Tratamento
Termino falando de tratamento. Já ouvi muitas abóboras a respeito, desde uso de antitóxicos, modificadores orgânicos, antibióticos milagreiros e por aí vai. O que funciona mesmo é tirar o gado do pasto suspeito, colocá-lo em galpão sombreado e oferecer, na água de bebida, 60 g de sulfato de zinco/1000 l, por 28 dias. O resto é conversa para boi dormir!
Por Enrico Ortolani – Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP (





