Em artigo, Enrico Ortolani, professor da FMVZ-USP, destaca que dermatites de contato provocadas por produtos pour on ainda são as mais comuns

Por Enrico Ortolani – Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP (ortolani@usp.br)
Estima-se que 95% das doenças bovinas ocorram em órgãos internos, exigindo habilidade técnica e conhecimento teórico do veterinário para diagnóstico. Nas enfermidades externas, os sintomas frequentemente saltam aos olhos, mas, ainda assim, nem sempre é simples descobrir o que causou o mal. Se encaixam nesta última categoria as dermatites de contato, assunto deste artigo. Vamos aos miúdos. A dermatite de contato é uma inflamação de duas (epiderme e derme) das três camadas de tecidos da pele, no ponto de contato com substância irritante ou alérgica.
A epiderme é a camada mais externa da pele, com as seguintes funções: fazer a pele crescer e se renovar a cada 35 dias; produzir queratina (substância que funciona como uma capa plástica impermeabilizante para evitar perda de água e dar resistência à pele); sintetizar anticorpos; fabricar melanina, que dá cor preta à pele e a protege do sol.
A derme vem abaixo da epiderme e tem a função de produzir colágeno e elastina que tornam a pele resistente e flexível; abrigar as raízes dos pelos, as glândulas de suor, as glândulas produtoras de sebo (que tornam a pele macia e mais isolada de umidade), os nervos e os vasos sanguíneos que dão sensibilidade e nutrem toda a pele.
Finalmente, vem a hipoderme, rica em gordura e cuja função é acolchoar e regular a temperatura. A pele representa cerca de 8% do peso do bovino adulto!
Voltemos ao tema da dermatite. Basicamente, temos dois tipos de substâncias que provocam esse tipo de problema: as irritantes e as alérgicas. Eis um quadro geral para diferenciar clinicamente uma da outra, começando com as irritantes, seguido pelas alérgicas: Ocorre em muitos animais ou apenas nos mais alérgicos? A lesão é apenas no ponto de contato, na área próxima ou é distante dela? Ocorreu no primeiro contato ou após muitos deles? Nem sempre causa bolhas e coceira ou estas são muito comuns?
Produtos que “queimam”
As dermatites irritativas são mais frequentes que as alérgicas. Hoje, ganham de braçada as dermatites irritativas causadas pelos produtos “pour on”, aqueles que se passa no fio do lombo para combater bernes, carrapatos etc. Antes de entrar nessa questão, vamos falar de outros agentes irritantes. Muitas substâncias como certos ácidos e álcalis (por exemplo, soda cáustica) agem tal qual o fogo, “queimando” a pele de forma muita rápida e destroem as células que formarão a futura pele, os bulbos dos pelos e do sebo, deixando para sempre aquela feia cicatriz.
Já o iodo é como um ácido mais fraco, que irrita a camada da epiderme e da derme, mas não a danifica de vez. Por sinal, não é raro encontrar a pele avermelhada e sem pelos, em torno do umbigo de bezerros tratados com iodo acima de 6%, apropriado para atuar em tecidos mortos, como o cordão umbilical, mas que é cáustico para a pele íntegra.
Os desinfetantes também podem irritar a pele, mas demoram um pouco mais para agredi-la e não são tão catastróficos como os ácidos e os álcalis. Dentre os desinfetantes, constam o cloreto de alquil dimetil benzil amônio (cloreto de benzalcônio) e a amônia quaternária. Eles atuam na pele causando queimação, vermelhidão e queda de pelos.
Os problemas são oriundos de erros na concentração destes ou na permanência prolongada do produto na pele. Atendi vários bois em que o cloreto de benzalcônio foi empregado na dose dobrada para a assepsia da frieira. Já os detergentes à base de sódio lauril sulfato podem causar irritação em um ou outro animal mais alérgico, pois esta substância desencadeia, em certas células da epiderme, a liberação e espalhamento de compostos altamente alérgicos, que vão dar muita coceira, vergões avermelhados e até bolhas na pele.
Irritação por pour on
Voltemos aos pour on. Existem dois tipos de pour on, conforme os veículos em que os parasiticidas são diluídos: os polares e os apolares. Os produtos polares podem ser misturados em álcool e água e os apolares em óleo. Os primeiros são a base de fluazuron (um inibidor de carapaça dos parasitos) e fipronil (fenilpirazol), enquanto os polares contemplam os organofosforados (clorpirifós, fention etc) e piretróides (cipermetrina e flumetrina etc.).
Os polares são mais rapidamente absorvidos pela pele do que os apolares. Para aumentar a absorção, principalmente dos apolares, formuladores adicionam dimetil sulfóxido (DMSO), um surfactante (nonilfenol etoxilado) e ácidos orgânicos fortes. É possível que existam muitas outras substâncias químicas nos pour on, mas isso é segredo industrial. Só Deus sabe! Todos estes compostos citados, se estiverem acima da dose, podem provocar irritação.
Os primeiros pour on lançados no mercado brasileiro causaram, em alguns bovinos, problemas sérios. Num desses casos, fui chamado para opinar. Eram reprodutores Nelore de pista, que ficaram com cicatrizes feias no fio do lombo e também onde escorreu o produto no costado. Parecia uma queimadura com ácido forte. Dava dó! Medi o grau de acidez do composto, que estava elevado mesmo. O proprietário ganhou na justiça e teve de ser ressarcido.
As fórmulas dos “pour on” foram melhoradas e os problemas pareciam ter acabado. Mas, vez por outra, apareceram bovinos com lesões características de dermatite irritativa, em especial causadas por produtos apolares. Em 2019, tratei 10 (cinco Nelore e cinco mestiços Angus) de 18 garrotes de um lote com pour on apolar que tinha acabado de ser aberto, estava no prazo de validade e guardado segundo as recomendações. Sete dias depois fui informado de que os pelos dos Nelore pareciam estar engruvinhados e sujos onde tocou pour on (veja foto abaixo).

Sinais da irritação
No exame, notei um tipo de eczema, com secreção aderida aos pelos, leve inchaço e alguma dor ao toque na pele. Pesei a boiada no dia do tratamento, 15 e 30 dias depois.
Resumo da ópera: 15 dias depois do tratamento, os Nelore perderam 6 kg/cab; os mestiços ganharam 5 kg e não tratados, 7kg. No 30º dia, os Nelore tratados ganharam 1 kg/cab, os mestiços, 9kg e os não tratados, 13 kg. A perda de peso deve-se à própria inflamação e a um composto inflamatório (TNFα), liberado pelas células lesadas da epiderme (as que produzem a queratina), que diminuem em 25% o consumo de alimentos nos primeiros dias da queimadura. É mole?
Tratei dois animais Nelore diferentes com o pour on do mesmo frasco e o fenômeno voltou a acontecer, mas, devido ao tratamento que fiz, os sintomas na pele e a perda de peso foram menores. Avisei a empresa e tentei discutir o que deu errado com este lote de medicamento, mas pouco ligaram. Alguém da empresa me disse que minha reclamação não era a única.
A bem da verdade, depois disso, empreguei no mínimo uns 30 frascos da mesma marca em outros lotes e nunca mais se repetiu tal fato. Recentemente, estive numa propriedade em que vários animais Nelore tinham marca indelével de dermatite de contato pelo mesmo produto comercial.
O que fazer? Primeiro avise os fabricantes, reclame e, dependendo do tamanho da encrenca, peça ressarcimento. Faça sua parte, guarde os medicamentos abrigados da luz solar, não exagere nas doses de pour on, não faça tratamentos em dias de chuva ou com o sol a pino; não trate animais desidratados ou muito mal nutridos, pois a pele deles estará menos protegida, e, no surgimento dessa dermatite, chame seu veterinário para tratar os animais. Só me falta desejar boa sorte com sua bela boiada!
Por Enrico Ortolani – Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP (





