
Por Enrico Lippi Ortolani – Médico veterinário, é professor titular da Clínica de Ruminantes da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, e colunista de DBO.
Os caprichos, as atitudes impensadas e os abusos humanos podem trazer sérios danos à natureza. Dando nomes para alguns bois: os conquistadores espanhóis quase acabaram com as lhamas andinas, pois mataram vários milhões delas só para comerem o cérebro.
Nos séculos passados, os norte-americanos arparam mais de dois milhões de baleias, do Atlântico e do Pacífico, para, com seu óleo, extraído da carcaça, iluminar os lampiões públicos e as moradias; imigrantes escoceses levaram 24 coelhos para Austrália, e ali eles se tornaram, até hoje, uma “praga” incontrolável.
Os javalis (Sus scrofa scrofa) também geram problemas. Eles são originários da África e da Eurásia, mas foram levados pelos desavisados homens para todos os continentes, não estando presentes somente nos polos! Estão na lista das 100 maiores pragas do mundo, sobressaindo-se entre os 14 mamíferos dessa relação.
A chegada dos javalis à América do Sul é peculiar. Reza a história que o rei espanhol Afonso XII pediu ao governo argentino que introduzisse um lote de javalis, da Europa, em 1904, para que ele pudesse caçar em terras platinas. Os animais vieram e por aqui ficaram, mas o rei não. Que furada!
No fim da década de 1920, o Uruguai e a Argentina importaram varas de javalis para fazendas de caça. Alguns escaparam e aos poucos se multiplicaram e chegaram ao Rio Grande do Sul na década de 1960, atingindo em cheio, quatro décadas depois, os Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Parece brincadeira, mas as autoridades brasileiras permitiram a importação de javalis, na década de 1990, para serem criados, isolados, ou cruzados com porcos domésticos (Sus scrofa domesticus), gerando o “javaporco”.

A carne destes animais foi ofertada como uma “atração” no espeto corrido de muitas churrascarias. Foi moda passageira, como a “paleta mexicana”!
Quando anos depois foram proibidas essas criações, o vinagre entornou e muitos criadores soltaram essas feras, ajudando-as a se espalhar Brasil afora. Estudos indicam que esses fujões se alastram hoje rumo ao Norte, na ordem de 50 km a 80 km por ano.
Quis a sina que o porco e o javali se cruzassem e que seus descendentes gerassem filhos férteis, diferentemente do cavalo e do jumento, que produzem crias estéreis. Além disso, o destino é mais caprichoso e a fêmea do “javaporco” é mais prolífica que a javalina!
A primeira tem, em média, duas crias por ano, com seis a 10 filhotes por parto, enquanto que a do javali tem uma por ano, com quatro a seis leitões. Mas a coisa não fica por aí: o “javaporco” tem porte maior, come um pouco mais e é mais agressivo do que o javali. Pesquisadores estimam que a grande maioria dos atuais invasores são “javaporcos” e poucos são javalis.
Visando o controle desses suídeos alienígenas é que, desde 2013, o Ibama permite seu abate, que em 2024 atingiu o pico de 716.000 animais. Mas todo mundo acredita que o montante é muito maior.
Baseados nesses números, alguns supõem que a população total esteja entre 2 milhões e 4,5 milhões de cabeças, concentrada nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Mas, como diria minha nona italiana, Solo Dio lo sa (“só Deus sabe”)!

O javali é onívoro. Um estudo identificou que ele prefere devorar grãos (milho, sorgo e arroz), tubérculos (mandioca e batata), todos tipos de frutos e sementes, cana e capins. Ingere ovos, pássaros jovens e carcaças, inclusive de javalis.
Fazem um estrago e tanto, pois comem filhotes, incluindo os de cordeiros, de cotia, de paca, de tatus, de veados, e ocasionalmente até bezerros recém-nascidos abandonados. Complementa sua dieta alimentando-se de minhocas, caracóis, insetos etc.
Fuça e cavouca o solo, como se fosse um arado, pois tem um pequeno osso e cartilagem na ponta do focinho, que lhe confere resistência. Assim, provoca grande erosão no solo e assoreamento de riachos e de nascentes. Onde ele se multiplica, a população de catetos e de queixadas diminui. Ou seja, um dano ambiental irreparável.
Na íntegra deste artigo publicado no Anuário DBO, você também confere as 6 principais doenças que os javaporcos podem transmitir aos bovinos e de que forma esse contágio ocorre. Entenda, também, o porquê muitos consideram a caça por tiro uma medida de controle pouco eficaz.
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