Presentes de norte a sul do País, as consultorias técnicas acompanharam a evolução da pecuária de corte brasileira. Mais do que testemunhas, foram protagonistas dessa história em vários momentos, ajudando o produtor a enfrentar seus desafios diários.
Ciente do importante papel desempenhado por esses profissionais, DBO criou um guia inédito de consultorias, divididas por área de atuação. Seus nomes e contatos podem ser consultados com ajuda do sistema de busca abaixo ou em consulta à lista completa. Leia abaixo a reportagem especial sobre a história das consultorias pecuárias no Brasil.
O forte processo de intensificação da pecuária, criou demandas crescentes na área de gestão. Já na década de 90, as fazendas começam a atentar para a necessidade de fazer os chamados “controles” (registros zootécnicos, inicialmente), mas a profissionalização administrativo-financeira do setor somente se deu a partir dos anos 2010, quando surgiram consultorias especializadas nessa área (veja história à parte).
Até então, os controles eram feitos em cadernos de anotações, sem muito rigor contábil. Foram as consultorias que levaram conceitos de empresas urbanas para as fazendas, estimulando os produtores a separar custos fixos de variáveis, trabalhar com conceitos novos, como custo por arroba produzida, rentabilidade por hectare etc.
O foco inicial da gestão profissional das fazendas foi o controle operacional. Foram criados softwares para melhorar a captação e tabulação dos dados. Isso tornou possível a criação de indicadores e também de benchmarking, para comparação de resultados. Na opinião de Ricardo Burgi, um consultor de perfil multidisciplinar, a importância hoje conferida à gestão está relacionada à mudança da terra como bem de capital.
“Antigamente, ela era considerada reserva de valor, assim como o boi, que tinha ciclo de cinco anos”, relata. O Boi-China contribui bastante para essa mudança de postura. “Quando os frigoríficos começaram a pagar ágio nesse tipo de animal, muitos nos procuraram para saber o que tinham que fazer para produzir animais jovens e fazer controles”, diz Burgi.
A preocupação dos pecuaristas, atualmente, é administrar suas propriedades de forma eficiente para ter margem de lucro. Rogério Coan, que tem MBA em gestão, explica essa mudança: “O fluxo de caixa é o que determina o nível tecnológico que a fazenda adotará; por isso, é tão importante vincular conhecimento técnico com gestão. Hoje, o foco é transformar fazendas em empresas”.
Gestor faz a diferença – Na opinião de Antônio Chaker, do Instituto Inttegra, a contribuição das consultorias especializadas em gestão pecuária para o amadurecimento gerencial da atividade é significativo, mas ainda há um longo caminho a percorrer. “Muitas fazendas melhoraram seus resultados, entretanto a maioria navega com baixa produtividade e rentabilidade, além de ter dificuldade para atrair mão de obra. Nossa missão é continuar trabalhando para que a frase ‘sua fazenda é uma empresa’ se torne cada vez mais verdadeira”, diz.
Segundo ele, a implementação de uma cultura de gestão na fazenda só é possível com a plena adesão das lideranças. “A cultura (de gestão) sempre permeia de cima para baixo”, diz. Na opinião de Rodrigo Patussi, todo projeto de gestão deve ser elaborado considerando o perfil do gestor e o que ele está disposto a fazer na propriedade. “Em 2009, quando criamos o benchmarking e começamos a comparar os números entre as fazendas, logo percebemos que a principal diferença entre elas era as ações do gestor”, conta.
A visão é corroborada por Chaker. “Quando encontramos um proprietário que quer contratar um programa de computador, não conseguimos fazer mudança alguma na fazenda. Mas quando a liderança quer bater metas, se preocupa com planejamento e acredita que tomar decisões baseada em informações é relevante para o negócio e não aceita ‘achismos’, daí temos chances de fazer grandes transformações na fazenda”, afirma.
Passados mais de 40 anos desde o surgimento das consultorias, o que mudou em seu perfil? E as demandas dos produtores, será que se transformaram ao longo das últimas quatro décadas? Para responder essas perguntas é preciso lembrar que a informação no mundo contemporâneo se tornou um artigo de rápido consumo, com a expansão vertiginosa da internet e das mídias sociais, que podem ser grandes aliados, mas também concorrentes dos consultores.
A internet permitiu compilar instantaneamente um grande número de dados, algo impensável nos anos 1980, e ferramentas de Inteligência Artificial (IA) como o Chat GPT têm facilitado bastante o trabalho desses profissionais, mas eles também enfrentam novos desafios, tendo de se transformar em auditores dos sistemas de produção. Rogério Coan lembra que a pecuária enfrenta forte competição da agricultura e outras atividades, exigindo cada vez mais análises econômicas e monitoramento dos gastos.“Não basta produzir a todo vapor, alcançar a máxima eficiência produtiva, sem o controle de custos”, diz.
Para Manfred Folz, da Boviplan, hoje a função do consultor é, antes de tudo, trazer reflexão para dentro da fazenda: “ Se eu chegar numa propriedade e der uma receita de bolo, quando for embora provavelmente o produtor não terá aprendido quase nada. A consultoria existe para fazer pensar, questionar a atividade, experimentar tecnologias e vislumbrar novos caminhos. É assim que se cresce”. Há outra parte do trabalho do consultor que não pode ser mensurado em números: a transformação interna do pecuarista, seu entusiasmo ao perceber que está progredindo, que está melhorando a propriedade e pode ir além do que imaginou.
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