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Riscos: estamos cultivando cisnes negros?

Estudo da Embrapa e Banco Mundial classifica os riscos na agricultura em três grandes grupos

Diversos autores - 30/11/2018

Risco define-se como conhecimento numérico, normalmente em %, sobre a probabilidade de ocorrência de um evento e a quantificação de seus impactos. Em recente estudo, Embrapa e Banco Mundial classificaram os riscos na agricultura em três grandes grupos: de produção, de mercado e de ambiente de negócios. Os riscos de produção nas culturas englobam variáveis agronômicas, de clima e de gestão, incluindo eventos climáticos extremos, como secas, aspectos fitossanitários; na produção animal, destacam-se os problemas sanitários. Os riscos de mercado incluem variações significativas de preços de produtos e insumos, mudanças no acesso ao crédito e na comercialização, principalmente no comércio exterior. Os riscos de ambiente de negócios incluem eventos que alteram políticas e instituições (marcos Legais e regulatórios) e os graves problemas de infraestrutura e logística.

Na produção agrícola, riscos fazem parte do dia a dia de empreendedores e pequenos produtores. Estiagens prolongadas em períodos em que as chuvas deveriam ser normais, chuvas torrenciais muito acima das médias esperadas, ocorrência de pragas e doenças fora de curvas normais e barreiras internacionais ao comércio, são alguns exemplos. Estes fenômenos resultam em potenciais custos à atividade agrícola. Alguns países adotaram medidas para a mitigação e a transferência de riscos na agricultura, porem, sem um pacto para uma solução sustentável, envolvendo o Estado e o setor privado, em especial as seguradoras, governos, e produtores rurais.

No passado, os instrumentos eram simples, a falha em uma área raramente afetava outra. Já na época das redes sociais e do empreendedorismo, as relações são inúmeras, impondo novos desafios à gestão do risco. Neste contexto, a capacidade de administrar os riscos, e com eles a disposição em correr risco e de decidir, são elementos chaves do sistema econômico.

A capacidade de se expor ao risco difere entre indivíduos, empresários agrícolas e pequenos produtores, pois depende da capacidade individual de aceitar ganhos e perdas e da probabilidade dessa perda ocorrer. Grosso modo, o posicionamento dos atores, incluindo na agricultura, podem ser classificados como: i) avessos ao risco, àqueles que tentam evitar a tomada de riscos; ii) tomadores de risco, aqueles que estão abertos a opções mais arriscadas; e iii) neutros ao risco, aqueles intermediários entre os avessos e os tomadores de risco. Ou seja, probabilidade e percepção e, consequentemente, medição e emoções, são temas centrais para a gestão do risco, a qual está relacionada à ocorrência de um evento danoso.

No amplo espectro da gestão, o objetivo é reduzir o desconhecido para um campo passível da aplicação de ferramentas estatísticas, considerando-se quatro situações básicas: i) risco: quando se conhecem as probabilidades e seus impactos, permitindo tratamento estatístico; ii) incertezas: quando os impactos são desconhecidos e as probabilidades conhecidas; iii) insegurança: quando os impactos são conhecidos, mas as probabilidades são problemáticas; e iv) ignorância: no extremo, a limitação no conhecimento tanto das probabilidades quanto dos impactos situa-se o mais problemático. No sistema econômico, essas situações sugerem que os riscos estão associados ao oportunismo, podendo ser classificados gradativamente de inexpressivos, quando o resultado da interação entre o grau de dano e a frequência de ocorrência e a previsibilidade do perigo for insignificante, até expressivos. Nassim Taleb classificou os riscos desde o Cisne Branco (alta previsibilidade e impactos reduzidos em relação ao todo) até o Cisne Negro (baixa previsibilidade e impactos elevados em relação ao todo), incluindo as gradações de Cinza (Figura 1).

Em uma economia movida a expectativas, quando a incerteza sobre o futuro não pode ser reduzida por modelos probabilísticos, os agentes econômicos acabam por seguir aquilo que Keynes denominou ‘espirito animal’, o qual depende de aspectos culturais (educação, crenças e etc.), das experiências vividas pelo individuo e da amplificação social do risco, que, nos tempos das redes sociais, assume importância crescente.

No caso da agricultura, uma atividade com influencia direta do meio ambiente cujo controle é oneroso, a gestão do risco assume proporções maiores que nos demais setores da economia, em especial, num período em que a própria atividade agrícola tende a modificar o meio em que ela se desenvolve. Nesse sentido, um trabalho desenvolvido pelo Banco Mundial, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e Embrapa, identificou os principais riscos a que a agricultura brasileira está sujeita: 1) infraestrutura e logística, 2) sanitários, 3) de crédito, 4) gestão de recursos naturais, 5) mercado e comercialização com ênfase no comercio internacional, 6) marco regulatório, 7) climático, e 8) gestão da produção. Esses resultados, em especial quanto ao risco climático, levaram a Embrapa e o Banco Mundial a realizar nova pesquisa sobre a percepção do risco pelos agricultores paranaenses e sul-mato-grossenses.

A pesquisa identificou o risco climático como o mais importante para os agricultores paranaenses, enquanto para os sul-mato-grossenses a logística foi o risco mais importante. Esses resultados estão em acordo com a teoria de que as experiências vividas pelo individuo são fortes condicionantes da percepção do risco uma vez que os paranaenses, região com boa infraestrutura logística, estão mais expostos às perdas agrícolas decorrentes de eventos climáticos do que os sul-mato-grossenses, região com deficiência logística. Importante destacar que, em razão da amplificação social das deficiências logísticas no Brasil, há uma confusão quanto ao conceito de risco. As deficiências logísticas no Brasil são recorrentes, portanto, têm altíssima previsibilidade e, a rigor, são ineficiências econômicas e não risco.

Essa mesma pesquisa identificou que o clima, percebido pelos paranaenses como o maior risco da agricultura e pelos sul-mato-grossenses como o segundo maior, é, no máximo, um cisne cinza, uma vez que a previsibilidade do clima atualmente é relativamente bem conhecida (Zoneamento Agroecológico) e os danos econômicos podem ser mitigados por instrumentos de políticas públicas ou de mercado (Seguro Rural). O risco sanitário não foi percebido como importante pelos agricultores, porém, como vários eventos demonstram (cancro da haste da soja, nematoides, ferrugem da soja, lagarta Helicoverpa, Operação Carne Fraca e etc.) esse é um cisne negro da agricultura brasileira, com prejuízos de bilhões de reais. Importante destacar que os riscos sanitários têm implicações incalculáveis sobre a reputação da agricultura brasileira, como a Operação Carne Fraca demonstrou recentemente.

A pesquisa identificou que os entrevistados não têm certeza sobre o conceito de risco e suas percepções são enviesadas pela amplificação social e experiências vividas, portanto, não identificam Cisnes Negros, como a recente greve dos caminhoneiros e a greve dos portos em 2015. Enquanto a qualidade da logística, a rigor, não é um risco e o clima é, no máximo, um cisne cinza, sanidade e greves são Cisnes Negros. Importante ressaltar que, contraditoriamente ao conceito de Cisne Negro, em que a previsibilidade do risco é baixa, a probabilidade da ocorrência de greves e novos eventos sanitários no Brasil são conhecidos, como demonstra um trabalho realizado pela Embrapa no qual se identificam mais de 20 pragas com alto poder de dano econômico que, apesar de inexistentes no território nacional, ocorrem nos países vizinhos.

Em resumo, passam-se safras e governos discutindo gestão de risco. Porem, o verdadeiro Cisne Negro da agricultura brasileira é a carência de estudos e o descaso com a gestão do risco. O Brasil tem que mudar a lógica do crédito como a sua principal ferramenta de política agropecuária para a gestão de riscos, incluindo o seguro rural, uma forma mais sustentável e significativa de apoiar o agricultor. A adoção de uma política de gestão integrada de riscos, além de possibilitar o aumento da eficiência das políticas e dos programas públicos agropecuários existentes, também orientará o planejamento e a integração das mais diversas ações, voltadas, prioritariamente, para a estabilidade na renda do produtor rural.

A safra 2018/2019 está em curso, o Brasil entra em um novo governo e as esperanças se renovam. É certo que muito já existe para a redução dos riscos nas atividades agropecuárias, mas também é certo que há muitas lacunas e muito por ser feito. De imediato, é necessário implementar uma gestão integrada de riscos nas diferentes políticas e programas de modo a melhorar os processos de articulação e de governança entre os diversos agentes privados e o Estado, incluindo os diferentes níveis de governo. Caso contrário, a manutenção de aspectos indesejáveis e desprovidos de uma visão sistêmica para a condução do tema podem transformar os avanços alcançados em prejuízos incalculáveis e, consequentemente, o País reforçará a colheita de Cisnes Negros.

Figura 1: Lidando com conhecimento incompleto.

**Autores:

Pedro Abel Vieira: pesquisador da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa ([email protected]);
Antônio Márcio Buainain: professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp ([email protected]);
Elisio Contini: pesquisador da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa ([email protected]);
Diego Arias: economista sênior do Banco Mundial ([email protected]);
Gilmar Henz: pesquisador da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa ([email protected]);
Virginia Nogueira: pesquisador da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa ([email protected]).

*As opiniões expressas nos artigos não necessariamente refletem a posição do Portal DBO.

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