Conteúdo Original | Revista DBO

Queda geral nos preços da pecuária em maio

Recuo foi puxado sobretudo pela desova da safra de animais terminados a pasto, além de uma demanda interna ainda adormecida, reflexo do baixo poder aquisitivo da população

Por Denis Cardoso

Os valores de toda a cadeia pecuária nacional – de bezerro desmamado a carne bovina – recuaram com força ao longo de maio, puxados sobretudo pela desova da safra de animais terminados a pasto, além de uma demanda interna ainda adormecida, reflexo do baixo poder aquisitivo da população.

No início de junho, período de fechamento desta edição DBO, os preços dos animais prontos para abate ainda se mantinham bastante pressionados, refletindo o expressivo aumento dos estoques nos currais/câmaras frias dos frigoríficos e as quantidades excessivas de carne bovina nas prateleiras dos supermercados e açougues do País.

Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), no mês passado, o indicador Cepea/Esalq do boi gordo (praça paulista, valor à vista) sofreu desvalorização de 10,4% (ou R$ 28/@), saindo de R$ 271, no fim de abril, para R$ 243, no fechamento de maio. “Foi o patamar nominal mais baixo desde setembro/2020, época marcada pelo turbilhão da Covid-19”, indica o zootecnista Douglas Coelho, sócio da Radar Investimentos, consultoria com escritório na capital paulista.

Ao mesmo tempo, o ágio do “boi-China” (com padrão-exportação, abatido mais jovem, com até 30 meses de idade) praticamente desapareceu em algumas praças brasileiras, a começar pelas regiões paulistas. “Em meados de 2021 e início de 2022, a premiação ao animal enviado à China ficava na faixa de R$ 10-15/@ em São Paulo, mas, em maio, ou não tinha ágio em alguns momentos, ou girou próximo dos R$ 5/@”, recorda Coelho.

A mesma retração de 10% foi observada no índice do bezerro (animal de 8 a 12 meses, base Mato Grosso do Sul): R$ 2.224, ante R$ 2.465 registrado no fim de abril. O movimento de queda no mercado de reposição acompanha a fase de inversão no ciclo pecuário, o que tem resultado no expressivo avanço no abate de vacas, comprovando a falta de interesse dos criadores em manter investimentos na atividade de cria.

Em maio, a elevada presença de fêmeas na linha de abate do Mato Grosso implicou no maior deságio da arroba da vaca (em relação ao preço local do boi gordo) dos últimos dez anos, informou o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Na parcial (até o dia 26), a diferença entre arroba da vaca e a do boi gordo estava em 9,5%, bem acima dos 6,7% – patamar histórico do Mato Grosso –, o que não era registrado desde 2013, época também marcada pelo abate excessivo de fêmeas, informa o Imea.

Foram 886.160 fêmeas abatidas entre janeiro e abril deste ano, ante 1,04 milhão (no mesmo período), em 2013, e 910.100 em 2019, compara o Imea. “O elevado deságio para a arroba da vaca gorda indica que ainda pode haver grande contingente de fêmeas nas indústrias do Estado”, sugerem os economistas da Imea.

Segundo Coelho, da Radar Investimentos, a boa disponibilidade de fêmeas e de machos, sobretudo de regiões fortes em cria – como Mato Grosso, Tocantins e Goiás –, tem sido o principal ponto para a evolução dos abates do Centro-Sul e, consequentemente, a maior pressão nos preços da arroba no mercado físico.

No curto prazo, prevê a analista Nicole Santos, da Scot Consultoria, de Bebedouro (SP) a pressão baixistas no mercado de reposição deve seguir nas praças brasileiras, principalmente para as categorias mais leves. “Com o início do período de seca na maior parte do País, há menor disponibilidade de capim, o que obriga muitos criadores ofertar a bezerrada”, afirma ela.

Reflexo em outros elos

Nos setores do atacado e do varejo, os preços da carne bovina também seguem em ritmo de queda, puxados pela boa oferta e pela demanda reprimida dos consumidores. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o consumo das famílias cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre de 2023, em relação ao quarto trimestre de 2022. “Ou seja, o poder de compra da população ainda segue bastante limitado”, ressalta Douglas Coelho.

Além disso, as cotações da carne suína e do frango também recuaram fortemente, reduzindo ainda mais a chance de recuperação na demanda interna pela proteína vermelha – pelo menos no curto prazo. No fim de maio, o suíno terminado era negociado por R$ 112/@ nas granjas em São Paulo, queda de 10,4% (R$ 13/kg) em 30 dias, enquanto o frango vivo paulista estava cotado em R$ 4,50/kg, recuo de 6,3%, informou a Scot Consultoria.

O comportamento do mercado futuro do boi gordo na bolsa de mercadorias B3 ilustra bem a incapacidade de reação nos preços da arroba nos próximos meses do ano: em 31 de maio, o contrato de curtíssimo prazo (junho/23) bateu em R$ 263, queda de 11% (ou quase R$ 30/@) sobre o valor apontado para o mesmo vencimento em 28 de abril, de R$ 266. No mesmo intervalo de comparação, o papel para entrega em outubro/23, pico da entressafra, fechou maio valendo R$ 243/@, retração mensal de 12,4% (ou baixa de R$ 34,5/@).

“A volatilidade do mercado está grande e essa oscilação sinaliza para o uso de ferramentas de proteção de preço”, recomenda Douglas Coelho, da Radar Investimentos. Para Nicole Santos, da Scot, “o cenário de preços futuros não tem dado espaço para os confinadores, gerando mais incertezas do que certezas quanto à oferta de animais terminados, mesmo com preços de insumos e da reposição mais atrativos”.

Confinamento menor?

A despeito dos movimentos baixistas apontados pelos preços futuros, há quem acredite em certa calmaria no mercado do boi gordo, a partir do segundo semestre deste ano. Jéssica Olivier, também analista da Scot, acredita que “é hora de apertar os cintos e aguentar a turbulência”, uma vez que alguns fatores podem resultar em preços mais firmes para o boi gordo.

O primeiro deles, diz ela, é a expectativa de queda na quantidade de gado a ser confinado neste ano, “em função da relação entre custo de produção e remuneração pela arroba do bovino gordo, que tem desanimado o produtor”. Em abril último, o Imea realizou o 1º levantamento das intenções de confinamento para 2023 no Mato Grosso, o Estado com o maior rebanho bovino do País e o que mais confinou em 2022. A perspectiva é que sejam fechadas 479.770 cabeças, redução de 32% em relação às 704.260 cabeças do ano passado.

No entanto, os analistas do Imea não descartam a possibilidade de um aumento de interesse dos pecuaristas matogrossenses pelo confinamento nos próximos meses, estimulados pelas fortes quedas nos preços do milho e do farelo de soja, principais insumos da ração bovina, além das desvalorizações nas cotações dos animais de reposição.

Na visão de Jéssica, da Scot, ainda do ponto de vista da oferta, é preciso também levar em conta uma possível desaceleração no movimento de descarte de vacas nos próximos meses. Historicamente, relata ela, a despeito da fase de mudança do ciclo pecuário, o abate de fêmeas é maior no primeiro semestre, movimento influenciado pelos resultados negativos de prenhez durante a estação de monta e também pela necessidade de se reduzir a pressão sobre as pastagens na entressafra de capim.

Recuperação dos embarques pós-embargo da China

Pelo lado da demanda, o consumo de carne bovina no mercado interno tende a ser maior no segundo semestre, estimulado pela menor pressão de dívidas entre a população e pelas comemorações de final de ano, além da maior geração de empregos temporários, principalmente no setor de comércio. No entanto, no curto prazo, os agentes do setor apostam sobretudo na recuperação das exportações brasileiras de carne bovina, incentivada pelas maior procura por parte dos importadores da China, que, seguindo o comportamento histórico, tende a comprar mais no segundo semestre, principalmente entre agosto e outubro.

O Brasil retomou o acesso ao mercado chinês em março/23, após a suspensão temporária ocasionada por um caso atípico de encefalopatia espongiforme bovina (EEB, ou “mal da vaca louca”) registrado no Pará um mês antes. No entanto, nos primeiros dois meses após o fim do embargo, as vendas para a China não mostraram plena recuperação, refletindo o acúmulo de cargas em portos chineses aguardando liberação, situação que impactou negativamente a demanda por novos lotes. Dessa maneira, os embarques da proteína brasileira para a China foram os mais baixos do ano, totalizando apenas 40.900 toneladas.

Os números totais de maio, porém, mostraram recuperação: foram enviadas ao Exterior 168.500 toneladas de carne bovina in natura, com embarque médio diário de 7.600 toneladas, incremento de 10,6% em comparação com a média diária de maio/22.

O faturamento médio diário, no entanto, sofreu retração de 12,6%, considerando a mesma base de comparação, atingindo US$ 39,05 milhões, um reflexo da forte pressão por redução nos preços da tonelada imposta pelos compradores chineses.

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