Conteúdo Original

Revista DBO

O retorno do fantasma chinês

Suspensão chinesa derruba cotações da arroba e arrasta a reposição

Por Denis Cardoso

Independentemente da duração do embargo chinês à carne bovina brasileira (até o fechamento deste texto, em 3 de março, o bloqueio temporário era mantido), a cadeia pecuária brasileira vivenciou um grande susto ao se deparar com a confirmação, na segunda-feira de Carnaval (20/2), de um caso atípico de “vaca louca” (Encefalopatia Espongiforme Bovina-EEB) no Pará, o que resultou no bloqueio imediato das exportações à China – de longe o maior cliente internacional da proteína nacional – e na queda acentuada nos preços do boi gordo.

Até então, na maior parte dos primeiros dois meses de 2023, apesar do registro de volatilidade em alguns curtos períodos, a arroba brasileira vinha girando em patamares firmes, sustentada justamente pela forte demanda da China, já que o consumo interno de carne bovina continuou derrapando, sem contar o momento atual da pecuária de corte, marcado pela safra de “boiadas de capim” (época das águas) e pela reversão do ciclo pecuário (para a fase de baixa dos preços).

Apesar do espanto de muita gente, a nova interrupção dos embarques à China parecia estar na bola de cristal dos analistas que acompanham de perto o setor e ainda tinham em mente o episódio de 2021, quando o Brasil deixou de exportar a proteína ao mercado chinês por mais de 100 dias (setembro a dezembro), também pela confirmação de casos atípicos da doença da “vaca louca” (registrados no Mato Grosso e em Minas Gerais).

No boletim retrospectivo de janeiro/23 da Scot Consultoria (de Bebedouro, SP), o seu sócio-diretor, Alcides Torres, é perguntado, em formato de entrevista, quais tópicos ele aponta como positivos e negativos para o segmento em 2022. O tema “exportação/China” é citado com destaque. “Com relação aos pontos positivos do setor, a exportação recorde de carne é, sem dúvida, o maior deles; fecharemos o ano com um desempenho inédito… Com relação aos pontos desfavoráveis, a concentração das vendas para um só mercado (chinês) é preocupante”.

No início de março, no embalo da nova suspensão chinesa, Tailândia, Irã e Jordânia também bloquearam temporariamente as importações de carne bovina de todo Brasil, e a Rússia apresentou embargo à carne exportada somente do Pará. Porém, ao olhar com atenção o quadro dos maiores importadores de carne bovina e derivados do Brasil (veja tabela), fica difícil reservar alguma atenção especial para qualquer outro país quando se confronta os dados da China com os demais compradores.

Um exemplo: os EUA, que ocuparam o segundo lugar da lista em 2022, são um “peixe pequeno” diante do “tubarão-chinês”, respondendo por apenas 6,9% (US$ 900 mil) do faturamento total (US$ 12,9 bilhões) obtido pelos embarques da proteína. Por sua vez, a participação da China, que alcançou 42,4% (US$ 3,9 bilhões) em 2021, saltou para 61,3% em 2022 (US$ 7,9 bilhões) – um significativo avanço de quase 19 pontos percentuais.

Pela estimativa mais recente (de janeiro/23) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as exportações totais do Brasil podem alcançar 3 milhões de toneladas equivalente-carcaça (t.eq) em 2023, um acréscimo de 3,5% sobre o total de 2022, tendo novamente a China como protagonista absoluta. Na avaliação do USDA, ao longo deste ano, a demanda chinesa deve ser fortalecida pela “reabertura acelerada da economia chinesa, pós-restrição contra a Covid-19, com o consumo de carne bovina ganhando força em hotéis, restaurantes e no setor institucional”.

Segundo o economista Yago Travagini, analista da Agrifatto, de São Paulo, considerando os últimos seis meses (até fevereiro/23), a China levou para casa em torno de 20% de toda a produção mensal de carne bovina do Brasil. “De cada cinco bifes produzidos mensalmente por aqui, um deles foi direcionado ao mercado chinês”, reforça.

Quando esse mesmo cálculo abrange apenas o setor exportador, a dependência é significativamente maior: essa participação chinesa sobe para 60%, em média – ou seja, de cada cinco bifes, três tiveram como destino o país asiático. Em outras palavras, reforça Travagini: considerando um total de abates mensais brasileiros “ao redor de 2 milhões de animais, meio milhão de cabeças são enviadas à China”.

Danos computados

No início de março, os resultados conclusivos dos exames realizados no laboratório de referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, na sigla em inglês) em Alberta, no Canadá, confirmaram que a doença detectada em um touro de 9 anos de idade presente em fazenda do Pará é mesma “atípica”, ou seja, surgiu a partir do envelhecimento natural do animal, portanto sem risco de contaminação do rebanho, e, tampouco, capaz de oferecer qualquer perigo aos humanos.

No entanto, mesmo no caso de uma suposta retomada rápida das importações chinesas (algo que não seria citado neste espaço devido à data de fechamento da revista), prejuízos certamente serão contabilizados pelos pecuaristas e demais agentes da cadeia da carne. Pelos dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o Indicador do boi gordo CEPEA/B3 (mercado paulista, valor à vista) fechou fevereiro em R$ 267/@, com expressiva queda de 7,2% no acumulado do mês. O ritmo de negócios se enfraqueceu no mercado interno depois da suspensão das remessas de carne bovina à China”, justificou a entidade de pesquisa de Piracicaba (SP).

Segundo apurou a consultoria S&P Global Commodity Insights, com escritório em São Paulo, na primeira quinzena de fevereiro, o preço do boi gordo paulista voltou a girar na casa dos

R$ 300/@, patamar que não era alcançado desde agosto/22. Porém, observa a consultoria, com o novo imbróglio chinês, a demanda da indústria paulista caiu drasticamente, reflexo de um grande desarranjo entre oferta e procura por animais terminados. Nesse contexto, diz a S&P Global, o animal abatido em São Paulo sofreu queda de quase 10% nos primeiros sete dias de embargo da China, iniciando março valendo R$ 276/@, no prazo.

Lygia Pimental, executiva-chefe da Agrifatto, relata que, depois da confirmação da doença no Pará, muitos pecuaristas iniciaram um movimento “fecha-porteiras”, segurando o boi no pasto, estratégia que buscou atenuar a pressão baixista nos preços da arroba.

Teoricamente, tal iniciativa faz sentido, pois janeiro e fevereiro foram marcados pelo volume generoso de chuvas na maioria das regiões pecuárias (exceção feita ao Rio Grande do Sul, afetado por estiagem severa), resultando em pastos fartos, diferentemente da época de registro dos dois casos atípicos de “vaca louca” em 2021, ocorridos no pico da seca (no segundo semestre).

No entanto, Lygia acredita que, na prática, a ideia de “se sentar em cima da boiada” enquanto a China estiver fora das compras pode não surtir o efeito desejado, já que muitos pecuaristas acabam ficando de fora de movimentos supostamente coletivos, enquanto muitos frigoríficos também tendem a sair das compras, para não acumular estoques nas câmaras frias. Além disso, continua Lygia, a estratégia de estender o pastejo de animais terminados pode sair caro, no caso de fazendas que investem em adubação e no pastejo rotacionado, que demanda cronograma bem ajustado e que não é tão simples de ser alterado).

Frustração com mercado de gado gordo contamina reposição

Na virada de fevereiro para março, o mercado brasileiro de animais para reposição voltou a registrar fortes quedas nas cotações, influenciadas pelas incertezas que acometeram o mercado físico do boi gordo depois da suspensão dos embarques para a China. “Os preços do animal terminado recuaram em praticamente todo o Brasil, gerando efeitos negativos na relação de troca com o bezerro e demais categorias jovens”, afirmam os analistas da S&P Global.

Na última semana de fevereiro e na primeira de março, houve queda nos preços em praticamente todas as categorias de reposição, sobretudo para fêmeas, acrescenta a consultoria. “Embora os pastos possuam boa qualidade, muitos recriadores e invernistas seguem apreensivos em relação à questão com a China”, reforçam os analistas.

Pelos dados do Cepea, o Indicador Bezerro (base MS) fechou em 3 de março cotado em R$ 2.317, retração de 4,4% sobre o preço de fechamento de fevereiro, de R$ 2.422. No fim do mês passado, relata a S&P Global, as maiores baixas nos preços da reposição ocorreram em praças da região Norte, justamente onde os valores da arroba registraram as quedas mais expressivas. “A demanda por fêmeas, na melhor das hipóteses, se concentra em novilhas pesando cerca de 10@; bezerrada de ano não encontra procura firme e segue sob forte especulação baixista”, relatou a consultoria, no início de março.

Leia a Revista DBO de março de 2023 AQUI.

Para continuar lendo é preciso ser assinante.

Faça já sua assinatura digital da DBO

Leia todo o conteúdo da DBO a partir de R$ 12,70 por mês.

Invista na melhor informação. Uma única dica que você aproveite pagará com folga o valor da assinatura.

Já tem uma assinatura DBO?
Entre na sua conta e acesse a Revista Digital:

Você precisa adquirir uma de nossas assinaturas.
Gostou? Compartilhe:
Facebook
LinkedIn
Twitter
Telegram
WhatsApp
Email
Destaques na última edição
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.

Vídeo

Os destaques no vídeo da Edição:

Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.
Os benefícios de cada estabelecimento é liberado apenas para membros com assinatura válida.

Continue depois da publicidade

Destaques no Portal DBO

Continue depois da publicidade

Continue depois da publicidade

Encontre as principais notícias e conteúdos técnicos dos segmentos de corte, leite, agricultura, além da mais completa cobertura dos leilões de todo o Brasil.

Encontre o que você procura: