GRUPO LPCD TEM MAIOR PROJETO DE TIP DO BRASIL

GRUPO LPCD TEM MAIOR PROJETO DE TIP DO BRASIL

Tecnologia genuinamente brasileira, a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) tornou-se um sucesso inegável na pecuária de corte brasileira, responsável pela engorda de 3,5 a 4 milhões de bovinos anualmente. Não é fácil rastrear a origem do sistema, mas, nas últimas décadas, ele se disseminou por todo o País, com forte presença no Mato Grosso. É neste Estado, inclusive, que se encontra o maior projeto de TIP do Brasil e, consequentemente, do mundo, já que não há modelo semelhante em outros países. Conduzido pelo Grupo LPCD (iniciais de seu fundador, Lindolpho Pio de Carvalho Dias), em fazendas localizadas no município de Tangará da Serra, 240 km ao norte de Cuiabá (MT), esse projeto abateu 150.794 bovinos em 2024, em 3,3 giros anuais, mas sua meta é chegar a 203.539 em 2025 e 300.000, até 2027.  

No Mato Grosso, o Grupo LPCD possui 33.832,45 hectares, sendo 10.110,29 ocupados por pastagens exploradas intensivamente (6.675,68 ha próprios e 3.435,29 ha arrendados). Adepto do conceito de sustentabilidade, esse grupo familiar explora apenas 29,88% de suas terras no Estado, mantendo os 70,12% restantes cobertos por vegetação nativa. Com 105 anos de história na pecuária, tem raízes fincadas no município de Morro Agudo (SP), onde mantém a Fazenda Palmital, voltada à produção de cana-de-açúcar e à recria intensiva a pasto (RIP), seguida por terminação em confinamento. Em 1979, o grupo resolveu expandir suas atividades, comprando a primeira gleba da Fazenda Netolândia, em Tangará da Serra (MT), para produção pecuária e, em 1994, deu novo salto, adquirindo a Fazenda São José, em Sapezal (MT), para a agricultura (algodão e grãos). A empresa também planta cana no Mato Grosso do Sul. 

O projeto de TIP em Tangará da Serra foi iniciado em 2012, com o objetivo de intensificar a Netolândia, que fazia apenas pecuária extensiva de ciclo completo. “Nos inspiramos no modelo do Grupo Bom Futuro, em Campo Verde (MS), um dos pioneiros da TIP no Brasil. Como os resultados foram muito bons, começamos a adquirir áreas próximas para aumentar a produção”, conta Gabriel de Carvalho Dias, CEO da empresa, ressaltando que a opção pela terminação intensiva a pasto se deveu a vários fatores. “Trata-se de uma tecnologia simples; os animais são mantidos em seu próprio habitat, sem estresse; e podemos operar o ano inteiro, porque o pasto faz parte do sistema; não tem barro, nem poeira. O índice de doenças na TIP é bem menor do que no confinamento”, explica o empresário. 

Planejamento detalhado

Fazer um projeto tão grande girar de forma eficiente é um desafio que o Grupo LPCD enfrenta com muito planejamento. “Temos tudo registrado, para análise de custos e rentabilidade, porque o fluxo de gado é muito grande. Considerando-se que, neste ano, nossa meta é abater uma média de pelo menos 20.000 cabeças/mês, se pensarmos em 20 dias úteis, temos de enviar para o frigorífico 1.000 cabeças/dia e repor outras 1.000 diariamente. Claro que existem oscilações, mas é tudo programado. A gente funciona mais como um frigorífico do que como uma fazenda, porque temos escala e fluxo contínuos, não podemos parar”, explica Dias.

Essa verdadeira “operação de guerra” exige logística apurada. É preciso receber diariamente caminhões do frigorífico para carregar bois gordos e administrar uma frota de 14 caminhões da empresa para buscar bois magros em várias partes do Estado, contando com o apoio de veículos de terceiros, quando necessário. Todos os fornecedores de gado são monitorados no que diz respeito a embargos ambientais, desmatamento ilegal e trabalho escravo, como já pede o mercado. “Além disso, somente compramos animais pelo peso, porque a margem da pecuária é pequena e o boi magro representa 70% do nosso custo. Se comprarmos mal, teremos prejuízo.

Muita gente achou que a aquisição por peso não pegaria, mas pegou. Neste ponto, o Mato Grosso mudou o Brasil e os grandes projetos de terminação intensiva a pasto contribuíram muito para essa quebra de paradigma”, diz o executivo.

Gabriel de Carvalho Dias, CEO do Grupo LPCD, destaca a simplicidade e o bem-estar dos animais na TIP.

Contrariando a tese de que existe um patamar máximo de crescimento para a TIP (70.000 cabeças, por exemplo), o Grupo LPCD não impõe limites a seu projeto. “Temos uma estrutura administrativa boa. Se houver teto para investimentos, ele será imposto pelo mercado [baixa rentabilidade] ou pela originação [dificuldade de captação de animais], mas o Mato Grosso ainda tem muito gado, não vejo problema de oferta por enquanto”, salienta Dias, apostando em um futuro promissor. “Tem muitos projetos novos de TIP surgindo, os frigoríficos continuam com forte demanda por bois, devido à exportação e a oferta de ingredientes para ração, como o caroço de algodão e o DDG, cresce a cada dia. Além disso, a integração da pecuária com a agricultura ainda vai crescer muito. Então, tem muita coisa boa pra acontecer”, diz ele. 

Bovino em harmonia com a natureza no piquete de TIP; área de recepção com sombra e águas cristalinas da Fazenda Formoso.

ENGORDA SUSTENTÁVEL

O Complexo Netolândia – visitado por DBO em junho – é o “coração” do projeto de TIP do Grupo LPCD. Reunindo cinco das 10 fazendas da empresa em Tangará da Serra (Itamaracá, Netolândia, São Jorge, Sapo I e Sapo II), com área total de quase 5.000 ha (3.159 ha de pastagens), este conjunto de propriedades limítrofes tem baixa vocação agrícola por questões de relevo, mas seus solos férteis garantem boa produção forrageira, fundamental na terminação intensiva a pasto. A empresa também faz TIP na Rio Bonito (2.118 ha) e Rio Formoso (1.874 ha). Esta última fazenda, com 17.708 ha de florestas intocadas e águas cristalinas, é a “menina dos olhos” do grupo, que tem como máxima o respeito ao meio ambiente e ao bem-estar dos animais. 
Logo na chegada à sede do Complexo Netolândia, uma imagem chama a atenção do visitante: centenas de bovinos descansando tranquilamente em piquetes ao redor do curral, com direito a sombra, volumoso e água limpa. É a área de recepção do Complexo. “Aqui não temos pastagens específicas para descanso pós-viagem como em alguns confinamentos, porque o destino final dos animais é justamente o pasto. Quanto mais rápido forem processados, melhor”, explica Luciano Tiburski, gerente de pecuária da empresa. 

No dia da chegada à fazenda, os animais ficam na área de recepção apenas descansando, se reidratando e comendo, para se recuperar do estresse da viagem, porque percorrem distâncias de até 500 km em caminhões. No segundo dia, são apartados e submetidos ao protocolo sanitário (vacinas e vermífugo); no terceiro dia, já vão para o pasto. “Estamos avaliando algumas melhorias para reduzir o impacto da viagem sobre os animais, como o fornecimento de feno; o uso de algumas tecnologias disponíveis no mercado, específicas para diminuição de estresse e melhoria do sistema imunológico; e a instalação de aspersores nos piquetes, para controlar a poeira no período da seca. Sempre é possível melhorar as condições dos animais no setor de espera”, detalha o pesquisador da Apta-Colina, Gustavo Rezende Siqueira, que acompanha o projeto há seis anos. 

Como optou por concentrar-se na terminação de machos, o Grupo LPCD compra preferencialmente bois magros para reposição. “Temos poucos lotes de recria, oriundos de algum negócio-oportunidade. A maioria dos bois chega à Netolândia pesando entre 350 e 450 kg. São apartados por raça e padrão racial; depois, entram direto na TIP, sendo abatidos com média de 21@ antes de completar 30 meses”, salienta Tiburski. “Mais de 90% dos nossos animais são classificados como Boi China, mas também podem ser direcionados para o mercado europeu, porque são rastreados e inscritos no Sisbov”, acrescenta Edson Silva, diretor de controladoria do grupo. 

Gestão por indicadores

Com essa operação de engorda em larga escala, o Grupo LPCD procura levantar a maior quantidade possível de dados para tomada de decisões. “Medimos tudo, em todas as etapas de produção. Temos, por exemplo, o peso dos animais na origem e após sua chegada em nossas fazendas (para avaliar perdas no transporte), durante o processamento no curral (para avaliar impactos do estresse) e antes do embarque para o frigorífico (para avaliação de rendimento). Também temos controle total dos insumos estocados e da ração, tanto no preparo quanto na distribuição, porque os caminhões possuem balanças. Isso nos permite trabalhar com os mesmos indicadores do confinamento (consumo, eficiência alimentar, ganho em carcaça etc), adotando ferramentas de gestão profissional. Os bovinos vão para o abate hoje e já sabemos quanto deixarão de lucro no dia seguinte”, relata o CEO da empresa, Gabriel Dias.

Silos para armazenamento de milho, um dos principais componentes da dieta para TIP

O grupo registrou um ganho médio diário (GMD) de 1,47 kg/cab, em 2024, e 1,51 kg, em 2025. Esse resultado é um pouco inferior ao dos confinamentos, mas já foi comprovado por pesquisas que o ganho de carcaça nos dois sistemas de engorda se equipara. No caso do Grupo LPCD, esse índice situa-se em torno de 1,16 kg/cab/dia. O rendimento tem se mantido em patamares altos: 57,59%, em 2024, e 57,47%, em 2025. “São informações confiáveis, porque nosso processo operacional é padronizado. Sempre fechamos os lotes um dia antes do embarque, que é feito até no máximo 10 horas da manhã, com os animais de barriga vazia; ou seja, não há distorção no rendimento em função do conteúdo ruminal”, explica Dias. “Entretanto, não sou muito fã desse indicador, nem do GMD. O que importa para mim é o ganho em carcaça, o único que realmente vira dinheiro”, diz o empresário.

 Para calcular os índices zootécnicos essenciais à condução do negócio, o Grupo LPCD mede o consumo de ração por animal, o que não é muito comum em projetos de TIP, onde a ração, muitas vezes, é fornecida ad libitum, a cada dois ou três dias, usando equipamentos sem balança. Em 2025, o consumo médio nas fazendas do grupo foi de 8,4 kg/cab/dia. Neste ano, ficou em 8,66 kg/cab/dia, Já o ganho total, durante os 100-110 dias de permanência na TIP, foi de 7,6@, em 2024, e 7,79@, em 2025. Os registros de dados e análises de indicadores são feitos com ajuda do software TGC, da Ponta. Também são calculados índices financeiros, que a empresa considera sigilosos, limitando-se a informar que tem buscado uma margem de lucro anual entre 8% e 10% na pecuária. 

Sistema de trato

Luciano Tiburski, gerente de pecuária do grupo: "Trato é efeito diariamente, sempre no mesmo horário"

As pastagens do Complexo Netolândia estão divididas em quatro setores, para facilitar a gestão. Cada um desses setores tem sua “linha de trato” (rota de distribuição de ração), que se estende por até 14 km, atravessando de 33 a 36 piquetes, onde ficam de 6.000 a 7.000 animais. No total, o Complexo abriga de 25.000 a 27.000 cabeças, mas a capacidade estática total do grupo é de 70.000 (todas as fazendas consideradas). Cada linha de trato é atendida por uma equipe exclusiva, composta por um tratador e um limpador de bebedouro. Os “leitores” de cocho atendem duas linhas cada. Conforme explica Luciano Tiburski, o trato é feito diariamente, começando às 7:30 horas da manhã e terminando às 15:30-16:00 horas. “Procuramos distribuir a ração sempre no mesmo horário, porque a rotina favorece o ganho de peso”, diz.  

Conforme explica Gustavo Siqueira, a eficiência de trato é um dos indicadores mais importantes para o sistema. “Procuramos trabalhar com uma variação de 30 minutos para mais ou para menos do horário estabelecido e temos conseguido cumprir essa meta em 90%. Na TIP, o desafio é muito grande, porque o caminhão transita com 10 t de ração por estradas de terra; ele pode quebrar, atrasar”, diz o pesquisador. Além da pontualidade, busca-se precisão no trato, que é todo automatizado (as quantidades distribuídas são registradas diretamente no sistema). Ajustes diários são feitos com base no consumo, avaliado por meio de leituras de cocho, realizadas uma hora antes de o caminhão passar. As notas são registradas pelo “leiturista” em uma planilha e entregues ao escritório para programação do trato no dia seguinte.

Esse mesmo funcionário faz a leitura de fezes, para verificar algum tipo de distúrbio gastrointestinal. “Já estamos estudando o uso de um aplicativo para facilitar o trabalho dele, como fazemos na manutenção”, informa Tiburski. Todos os cochos da Netolândia são de boca larga e pé direito alto, com cobertura generosa e acesso dos dois lados. “Hoje, existem modelos mais enxutos, porém as instalações na Netolândia são de seis/sete anos  atrás, quando seu custo era menor. Além disso, preferimos trabalhar com máxima segurança, pois, quando a escala é grande, a perda de 3 kg de ração molhada pela chuva, por exemplo, pode levar embora o lucro de um montão de bois”, argumenta. 

DE OLHO NO FUTURO

Dieta é a mesma há oito anos, por apresentar a melhor relação custo-benefício

O projeto de TIP do Grupo LPCD se destaca, ao mesmo tempo, pela padronização de processos e pela grande capacidade de adotar novas tecnologias. Há oito anos, a empresa usa a mesma dieta-padrão, simples e segura: milho moído, caroço de algodão, torta de algodão, ureia, minerais e aditivos. Isso é bom, segundo Gustavo Siqueira, porque confere previsibilidade à operação. “Temos um centro de pesquisa na fazenda (108 ha, com capacidade para 864 animais), onde já avaliamos vários produtos alternativos (DDG, silagem de grão úmido etc), mas a velha fórmula continua apresentando melhor relação custo/benefício e operacional atrativo. A empresa só compra milho, caroço, ureia e núcleo, porque produz sua própria torta de algodão, para ter padrão de qualidade”, relata o pesquisador.

Paralelamente, contudo, o grupo continua buscando tecnologias que possam melhorar o ganho de peso dos animais, como os aditivos. Além da monensina e da virginiamicina (combinação comprovadamente eficaz, tanto na melhoria do desempenho quanto na redução de riscos de distúrbios metabólicos e problemas hepáticos), a empresa incorporou à dieta, recentemente, uma enzima que ajuda na degradação do amido, sendo eficaz em dietas ricas em grãos. “Esses ajustes finos contribuem para a melhoria de nossos resultados em carcaça”, informa Gabriel Dias, citando outro indicador crucial para o projeto: a taxa de lotação. Hoje, cada piquete da Netolândia (que tem, em média, 20 ha) abriga um lote de 160 bovinos (8 cab/ha), mas a meta do Grupo LPCD é aumentar esse número para 200 animais (10 cab/ha).

Para isso, será necessário investir mais nas pastagens. “O manejo se limitava ao controle de pragas e invasoras, além do pastejo com base na altura, mas a ideia, agora, é tratar o capim como uma lavoura, fazendo adubação estratégica dos piquetes, para sustentar 10 cab/ha”, diz Gustavo Siqueira. Segundo ele, o modelo de instalação adotado nas novas áreas arrendadas para TIP permitirá fazer pastejo alternado, reduzindo a pressão sobre o capim. Os piquetes terão “praças de alimentação” (inexistentes na Netolândia), voltadas para corredores de trato. Nessas praças, estão sendo testados cochos de autoalimentação, ligados a mini-silos (com capacidade para estocar ração para 6-7 dias) e com distribuição automática do alimento nos cochos, monitorada por câmeras. “Será possível tratar os animais duas vezes por dia”, comemora Luciano Tiburski. 

TIP POTENCIALIZA FAZENDA EM RONDÔNIA

Mudança para o sistema e troca dos garrotes pelos bezerros permitiu evoluir o rebanho de 5.000 para 10.000 cabeças, com maior rapidez de giro.

Por Ariosto Mesquita

Dentre várias decisões tomadas pela produtora Luciana Moura Guimarães (50 anos), duas foram notadamente marcantes para pavimentar a trajetória da Fazenda Jamaica, em Presidente Médici (RO), nos últimos 12 anos: a substituição da recria/engorda tradicional pela terminação intensiva a pasto (TIP), em 2014, e a troca da do garrote pelo bezerro, em 2020. “O rebanho evoluiu, saindo de mais ou menos 5.000 cabeças para quase 10.000, atualmente. O abate anual, antes na casa dos 2.600 bois, hoje se aproxima de 5.000”, conta Luciana, que é graduada em administração e se diz “segura” por agora ter “controle total sobre a operação, com maior volume e giros mais rápidos”. 
Mesmo lamentando não conseguir bonificações extras ao entregar bovinos de TIP aos frigoríficos, a produtora está satisfeita com seu novo modelo operacional. Via de regra, o animal permanece até 14 meses na recria e bem menos na terminação. Nos últimos cinco anos, a média foi de 3,2 giros anuais na TIP, dinâmica viabilizada, em boa parte, pela divisão dos animais em categorias, permitindo uma escala mensal de abates. Luciana engorda apenas machos, preferencialmente Nelore, agrupados por faixa de peso: Recepção (220 a 250 kg); Recria 1 (250 a 350 kg); Recria 2 (350 a 420 kg) e TIP (420 a 540 kg). O intervalo médio entre ciclos (tempo gasto entre o embarque de animais para os frigoríficos e a chegada de novos lotes) é de três dias. Atualmente, a fazenda busca manter um giro de terminação com duração média de 90 dias na TIP. 
Luciana assumiu a Fazenda Jamaica em 2008, depois que o pai, João Duarte, distribuiu, em vida, seu patrimônio entre os filhos. “Meus dois irmãos ficaram com propriedades em Mato Grosso e eu com a Jamaica, em Rondônia. Ela sempre foi de pecuária e mantive a atividade. Em 2014, introduzi a TIP, mas ainda era tudo meio improvisado, sem moega e nem silo para receber insumos. No cocho, usávamos só milho e núcleo mineral. Em 2015, parei o trato por causa da alta no preço do milho, mas retomei em 2017 e logo construí um silo para armazenar até 10.000 sacas”, conta. 

Apoio da consultoria

Além disso, lotes com animais mistos, muitas vezes cruzados, deram lugar a um padrão racial de animal Nelore. Quando se intensifica, é natural haver aumento de custos e a fazenda, portanto, precisava de um gado mais eficiente na terminação, com maior capacidade de resposta produtiva e financeira”, diz ele.Tanto a consultoria quanto a proprietária preferem não revelar a área da propriedade, nem seus resultados financeiros, mas detalham as operações antes e durante a TIP.  

Os machos Nelore são adquiridos com peso médio de 220 kg. Na recria, são usadas pastagens de melhor qualidade, que passaram por recente reforma. A predominância, em toda a fazenda, é de pastos de braquiárias (Xaraés e Marandu). Desde o dia de chegada, os animais recebem um proteinado no cocho, na porporção de 0,1% de seu peso vivo (PV). De acordo com Pereira, a TIP ocupa 14 pastos (número em ampliação para 17), com área média de 30 ha cada, somando uma capacidade estática de terminação (por giro) de 1.400  animais, devendo chegar a 1.700 animais com as novas áreas. Na dieta de adaptação à TIP (chamada de pré-TIP), os animais consomem o equivalente a 0,1% do PV. “A partir do 16º dia, o trato médio sobe gradualmente até 1,2% do PV nas águas e flutua na casa de 1,5% e 1,8% na seca, que vai de junho a outubro”, revela o consultor. 

Dois fatores, segundo ele, colaboram para que a TIP na Fazenda Jamaica não seja feita com 2% do PV em ração, como normalmente acontece no sistema. O primeiro é o maior suporte da pastagem no bioma amazônico. “O volume de chuvas nas águas é de 2.200 mm, o que fortalece muito a produção de forragem ao longo do ano”, explica Pereira. O segmento fator é que os ingredientes da dieta são todos adquiridos, o que eleva custos. Um dos ingredientes usados é a silagem de grão úmido de milho. “A fazenda compra cerca de 20.000 sacas/ano do cereal. Depois que chega, ele é moído e reidratado para melhorar a digestibilidade e o aproveitamento do amido. Estimamos que isso melhore em até 15% o desempenho animal. Isso nos ajuda a trabalhar com uma quantidade de ração um pouco inferior à classicamente recomendada para a TIP”, explica.

Os demais ingredientes da formulação são: núcleo mineral e DDG (grãos secos de destilaria) de alta proteína. Mesmo estando distante 1.000 km da indústria fornecedora desse coproduto no Mato Grosso, a propriedade prioriza o uso do insumo em substituição ao farelo de soja. ”Realizamos sempre um planejamento de compra antecipada. Esta ferramenta nos permite comprar o DDG por valores que compensam o frete. Depois do contrato fechado, desenhamos uma escala chamada cadência de entrega de insumos. Graças a ela, as cargas chegam gradativamente ao longo do ano. Pelo contrato atual, o kg de DDG nos sai R$ 0,80 mais barato do que o kg do farelo de soja. Como, geralmente, ele entra no percentual de 30% da formulação, estamos falando de R$ 0,15 a menos no custo por kg de dieta total”, calcula Pereira.

Segundo ele, o DDG é recomendação certa da Terra Consultoria para compor dietas de clientes em Rondônia. “Todas as propriedades de recria/engorda que acompanhamos hoje no Estado utilizam esse produto, o que representa um rebanho de aproximadamente 40.000 animais”, informa.  Luciana e seu consultor enfatizam muito a afinidade da equipe com o atual modelo de produção. “Temos 10 funcionários, quatro deles de campo. Tudo é calculado e planejado para ser funcional. Trabalhamos com metas de abate, de compra, previsões e contratos. É uma fazenda grande, mas com tudo programado para dar resultado. A margem operacional prevista para 2025 é de 30%”, sinaliza Pereira. “Ter uma equipe comprometida como a nossa e uma consultoria que nos fornece números e parâmetros de trabalho, nos dá tranquilidade”, garante Luciana.  

Maior volume de chuvas na Amazônia garante pasto para a TIP quase o ano inteiro

Em 2020, a produtora contratou a consultoria da Terra Desenvolvimento Agropecuário, o que lhe deu mais segurança para seguir na atividade e investir.  Dentre as mudanças neste período, estão a troca da categoria de reposição e a disponibilidade de indicadores técnico-econômicos. “Além de a substituição do garrote pelo bezerro ter possibilitado aumentar o rebanho, passamos a ficar mais antenados com o mercado, realizando melhores compras e reduzindo custos”, observa a produtora.

Para Lucas Braido Pereira, gerente de contas da Terra em Rondônia, a ampliação do rebanho é facilmente explicada. “Quando se compra animais mais pesados o desembolso de recursos é maior. Com uma mesma quantia em dinheiro, conseguimos comprar bezerros em maior número. Em junho, na região, um garrote saia por R$ 3.500 e um bezerro na faixa de R$ 2.200. 

NOVO MUNDO: MODELO “ENXUTO” E EFICIENTE DE TIP

Cobertura do coxo mais baixa reduz custos

Fazenda da Novapec, em Barra do Bugres (MT), abateu 17.500 animais em 2024, usando instalações funcionais, de menor custo e que facilitam o trato. 

Por Maristela Franco 

A versatilidade da terminação intensiva a pasto (TIP) é comprovada de norte a sul, não apenas pelo sistema adequar-se aos mais diversos perfis de propriedade, mas por estimular soluções criativas. Na Fazenda Novo Mundo, em Barra do Bugres, 260 km ao norte de Cuiabá (MT), tanto os cochos quanto os bebedouros são “enxutos”, reduzindo custos e ganhando funcionalidade, o que é altamente positivo. Gerenciada em parceria pela Novapec, essa propriedade conta com instalações simples, mas eficientes.

 “Quando começamos a fazer terminação intensiva a pasto, em Rondonópolis (MT), usávamos coberturas com pé direito alto, para permitir a passagem do caminhão distribuidor debaixo delas, mas entendemos que podíamos rebaixá-las e colocar um extensor  na descarga do caminhão para fazer o trato. Uma ação simples, que trouxe enorme eficiência ao sistema, reduzindo custos e otimizando a logística”, conta Arlindo Vilela, CEO da Novapec e pioneiro da TIP no Mato Grosso, onde administra mais quatro propriedades. 

A Novo Mundo possui 8.008 ha, dos quais 4.600 ha são explorados economicamente, 548 com agricultura e 4.052 com pecuária. Do total de pastagens, 1.202 ha estão sendo destinados à TIP; 1.606 ha à recria convencional; 757 ha à recria intensiva a pasto (RIP) e 487 ha à cria. Mas essas áreas não são fixas, porque a infraestrutura existente é flexível, podendo ser usada tanto para a TIP quanto para a RIP. A propriedade ainda conta com pastagens temporárias, plantadas após a colheita da soja e usadas para recria intensiva. Vilela é muito dinâmico nas compras e trabalha com várias categorias, dependendo do mercado. “O que buscamos é  produzir com a melhor margem”, diz ele. Os animais jovens, por exemplo, são adquiridos com cerca de 200 kg aos 8 meses, ficam na área de recria convencional até atingirem 260 kg. Depois vão para a RIP (período de 100 a 120 dias) e, finalmente, para a TIP, onde entram com no mínimo 360 kg. Na chegada, os animais são identificados, vermifugados e tratados contra ectoparasitas, além de vacinados contra clostridioses e raiva. 

Em 2024, a Fazenda Novo Mundo engordou 17.500 animais, em 2,5 giros. Os machos foram enviados para abate com média de 556 kg, fornecendo 20,7@ limpas. O ganho de peso, nesta categoria, ficou em 1,463 kg/cab/dia, possibilitando obter 9,3@ em 138 dias de terminação. “Também produzimos lotes de fêmeas 1/2 sangue para a grife 1953 da JBS e outras marcas de carne premium. Elas são abatidas com 15-21@, dependendo do mercado ao qual se destinam. A produção é diversificada e os pastos nunca ficam vazios. Quando um lote sai, outro já está a caminho ou em espera”, explica Eliezer Moreira dos Santos Junior, gerente de pecuária da Novapec. 

Voltados para o corredor

Na Novo Mundo, todos os cochos são voltados para o corredor de trato e têm coberturas feitas com postes de eucalipto, vigas metálicas e telhas de zinco. Em sua maioria, apresentam 22 m de comprimento por 2,5 m de largura. “São coberturas mais baixas (2 m de altura) do que as usadas nos cochos antigos, mas com igual angulação, para evitar perdas de ração em função de vento ou chuva. O cocho em si tem 20 m de comprimento, atendendo 8  cabeças/metro linear”, detalha Eliezer Junior. Cada estrutura completa custa, em média, R$ 12.000, ante R$ 100.000 do modelo com pé direto alto, todo em concreto. “Chegamos a fornecer de 300 a 400 t de ração por ano num único cocho, daí nossa preocupação com essa infraestrutura”, acrescenta Vilela.

Os bebedouros também são compactos, mas com boa vazão, para garantir água de qualidade aos animais na quantidade adequada. Sua limpeza é feita três vezes por semana. “Para evitar a formação de lama, acoplamos uma mangueira de 5 m de comprimento no fundo do bebedouro e jogamos a água num ponto mais distante do pasto”, informa Júnior. Segundo ele, a infraestrutura da TIP dá pouca manutenção, eventualmente reformas de “pés de cocho”, que sofrem erosão na época das águas e precisam ser reconstituidos com cascalho e terra, antes do início das chuvas. “Também vedamos frestas de cochos com espuma expansiva, quando necessário. Mas a estrutura é robusta, já funciona há 10 anos em outras fazendas do grupo sem problemas”, diz.

Segundo Vilela, o preparo da ração é feito em fábrica própria, com misturador estacionário, porque as dietas para TIP ou RIP têm pouca fibra e o uso de equipamento fixo reduz desgastes, além de otimizar a distribuição no cocho. “Um único tratador consegue atender de 7.000 a 9.000 animais, mas o segmento de máquinas para a TIP ainda deixa a desejar. “Foram desenvolvidos alguns modelos, porém eles não atendem as demandas de campo como gostaríamos. Por exemplo, precisamos de equipamentos que encham o cocho em uma única passada, sem necessidade de voltar ou dar ré para completá-lo”, explica. 

Na Fazenda Novo Mundo, o trato é feito a cada dois dias, com base em leitura de cocho. “Usamos quatro notas: zero (cocho vazio), 1 (ração só no fundo do cocho), 2 (metade cheio) e 3 (cheio). Com base nessas informações, definimos quais linhas devem ser priorizadas no próximo trato, com a meta de zerar os cochos sosomente nas segundas-feiras, já que um dos diferenciais da TIP é não precisar tratar os animais nos sábados à tarde, domingos e feriados”, salienta Júnior. “Essa facilidade fez o sistema crescer 400% em 10 anos no MT, com custo atrativo, equivalente a 70%-80% do valor observado nos confinamentos”, frisa Vilela.  

Ração e manejo de pastos

Neste ano, a ração fornecida aos animais na Fazenda Novo Mundo contém milho moído, DDG, casca de soja peletizada, torta de algodão e núcleo com aditivos. “Esses ingredientes mudam conforme o mercado; muitas vezes também usamos caroço de algodão ou sorgo, por exemplo”, explica Vinícius Garcia Bastos, zootecnista da propriedade. Apesar de fazer ILP,  a fazenda foca somente na soja. “É mais vantajoso vender toda a nossa produção e comprar coprodutos no mercado”, explica ele. Na TIP, os animais são suplementados na proporção de 1,5% a 2% do peso vivo. A ração fornecida na recria também leva os mesmos ingredientes, mudando apenas sua proporção. Nos pastos de TIP, a lotação média é 7 UA/ha e na RIP, de 2,5 a 3 UA/ha. 

A Novo Mundo possui pastagens bem diversas, formadas com Zuri, Miyagi, Mombaça, Tamani e Piatã na ILP, todos manejados com base na altura. “Estamos implementando, em todas as fazendas, um modelo de praça de alimentação para 2 a 3 piquetes, porque isso nos permite fazer pastejo alternado e fazer “resgate” do gado, com base no índice pluviométrico (quando ele cai para 20 mm, fechamos os animais; quando chega a 80 mm,  nós os soltamos no pasto)”, explica Vilela, salientando que a TIP é muito sustentável. “Um estudo que fizemos em outra fazenda nossa em Rondonópolis (MT), a Flor da Serra, apontou alta ciclagem de nutrientes e intensa atividade biológica no solo,  com impactos diretos sobre a produtividade, que passou de 52@/ha, em 2022, para 79@ em 2024”, diz Vilela.

Uma prova da saúde do solo na Flor da Serra é a quantidade de besouros rola-bosta, inseto  que degrada e incorpora o bolo fecal, constrói galerias por onde se infiltra a água das chuvas e ainda mata larvas de moscas. “O cuidado com esses amigos do solo é tanto, que pensamos neles quando vamos escolher vermífugos”, salienta Vilela. Na área de gestão, a Novapec tem investido muito em sistemas, inclusive apoiando instituições e empresas dispostas a desenvolver soluções específicas para a TIP e a RIP. “Temos muitas informações zootécnicas, financeiras e operacionais, mas precisamos juntá-las para fazer análises mais precisas”, diz.   

Veja também

Se você nunca ouviu falar de Terminação Intensiva a Pasto (TIP), esta é uma estratégia que ganha cada vez mais adeptos, nos mais diferentes Estados brasileiros. Simples, prática e eficiente, a TIP nasceu com a proposta de fornecer aos animais, já em fase de engorda e mantidos a pasto, a mesma quantidade de concentrado que receberiam se estivessem confinados, porém com a vantagem de não ser preciso fazer uso de volumosos conservados (silagens), nem de estruturas complexas de arraçoamento e manejo operacional. 

Ocorrência de doenças é menor do que no confinamento, mas engorda intensiva a pasto requer maior atenção com verminoses, carrapatos e mosca-dos-chifres.