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Erros na adubação podem frustrar resultados produtivos

Professor Moacyr Corsi, da Esalq-USP, alerta para a época certa de aplicação e granulometria

Portal DBO - 12/11/2018

Para o Especial de Pastagens 2017 fizemos uma entrevista exclusiva com o professor Moacyr Corsi, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, sobre os principais erros cometidos na adução por falta de disciplina e planejamento dos produtores. Esses erros, às vezes pouco perceptíveis, afetam negativamente o resultado final, frustrando expectativas de produção.
Segundo ele, bons resultados dependem da aplicação do adubo na dose certa, na hora certa e da forma certa, seguida de uma boa colheita do capim. Se a eficiência de N for alta (50 kg de matéria seca por kg do nutriente, por exemplo) e a eficiência de pastejo de 70%, pode-se conseguir facilmente produção de 7,5 t de MS/ha, que permite sustentar 4,2 UA/ha, ante 1 UA/ha da média nacional.
O potencial da adubação, portanto, é grande, mas exige conhecimento cada vez maior da tecnologia e da fisiologia da planta. Veja abaixo as recomendações do professor Corsi.

Maristela – Quais os erros mais comuns cometidos pelos produtores na hora de fazer adubação?
Corsi – O principal erro está na falta de disciplina na aplicação do fertilizante. Eles aplicam no momento errado e, por isso, não obtêm a melhor resposta em eficiência na adubação. Como a gente mede essa eficiência? Em quilos de matéria seca por quilo de nutriente aplicado. O melhor resultado é obtido quando se aplica o adubo logo após o pastejo. Isso tem uma razão. O nitrogênio age de duas formas para melhorar a produção: faz crescer as folhas e aumenta a produção de perfilhos. De certa forma, a ação sobre as folhas é limitada, pois seu número por perfilho é determinado. Por exemplo, o braquiarão, se bem nutrido e com condição favorável de crescimento, apresenta seis folhas verdes por perfilho. Quando ele começa a produzir a sétima, uma morre e continuam seis. Então, para ter maior produção de forragem, é preciso agir sobre perfilhamento, aumentar o número de perfilhos [meristemas ou gemas auxiliares, localizados na base das touceiras de capim].

Maristela – Podemos fazer isso?
Corsi – Sim. Imediatamente após o pastejo, no intervalo de uma semana mais ou menos, surge um grande número de perfilhos. Se eles forem estimulados pela adubação, vão se desenvolver e aumentar bastante a produção de matéria seca. Se o produtor atrasar a aplicação do fertilizante e distribuí-lo quando o capim já está alto, a resposta será bem menor. Estudos com Panicum maximum, por exemplo, mostram produção de 32 g de matéria seca de perfilhos na primeira semana após o corte, em contraste com 1 g na segunda semana, ou seja, apenas 3% da produção registra nos primeiros sete dias pós-pastejo. Ou seja, os perfilhos nascidos na segunda semana são responsáveis por um percentual pequeno da forragem que será colhida pelos animais.

Maristela – Precisa aplicar o fertilizante nitrogenado rápido, então?
Corsi – Sim, durante a primeira semana após o pastejo. Quanto mais rápido, melhor. Evidentemente, em uma propriedade, o produtor não vai adubar todo dia os piquetes de onde se acabou de retirar os animais. Para facilitar as operações, ele pode definir dois dias da semana para isso; assim, adubará os piquetes no máximo três dias após o pastejo.

Maristela – Por que os produtores erram na hora de adubar?
Corsi – Primeiro porque desconhecem a fisiologia da planta e a dinâmica dos perfilhos; segundo, por falta de disciplina e organização. Eles não se planejam, não definem dias para adubar, não preparam as máquinas e verificam, com antecedência, quais piquetes foram pastejados. Falta comunicação interna. Outro erro comum é não monitorar o clima. A adubação precisa ser feita, no mês de outubro, assim que caírem 80 mm de chuva. Se o produtor atrasar um mês após esse “dia zero”, pode deixar de produzir 3,[email protected]/ha, devido à forragem não produzida. Trata-se de uma perda muito alto, considerando-se que a média da pecuária brasileira é de [email protected]/ha. Trata-se do período mais favorável à produção de forragem e é justamente quando os animais mais precisam de comida, pois estão saindo da seca. As fêmeas, por exemplo, estão entrando em reprodução, precisam ganhar peso para ciclar.

Maristela – Que outros erros são cometidos?
Corsi – Eles pensam que basta aplicar nitrogênio e está tudo certo, quando a planta precisa de vários nutrientes para produzir bem. O produtor joga N, a planta fica muito verde, mas em três anos a produção cai. É necessário fazer análise do solo uma vez ao ano e seguir as recomendações para equilibrar a disponibilidade de nutrientes. Às vezes, deixa-se de colocar potássio, por exemplo, e a planta apresenta dificuldade para fotossintetizar, cresce de forma mais lenta. Às vezes, falta fósforo. O produtor precisa construir fertilidade no perfil do solo. Ao invés de investir nisso, ele pensa em fazer adubação foliar, por exemplo, tecnologia que ainda não está comprovada para pastagens. No futuro, com o aperfeiçoamento das moléculas e estudos sobre época de aplicação, talvez tenhamos boas respostas, mas ainda não temos informação que corrobore o uso dessa técnica.

Maristela – O produtor também erra na distribuição do adubo?
Corsi – Frequentemente. Não apenas porque ele usa máquinas inadequadas, mas porque não as regula direito e, como o adubo muitas vezes tem grânulos de tamanho e densidade diferentes, estes são distribuídos de forma também diferente. Ou seja, a aplicação fica desuniforme. Por exemplo, o potássio entra nas misturas na forma de cloreto de potássio, cujos grânulos normalmente são maiores e mais pesados do que os da ureia. Ele é lançado mais longe e o nitrogênio mais perto, o que prejudica a produção. Para evitar isso, é preciso regular adequadamente o equipamento, usando bandejas de verificação. Esse tipo de problema é mais comum em adubações com mais nutrientes. Na adubação nitrogenada, o cuidado maior deve ser com a presença de pó, que não deveria ter, mas é comum, por exemplo, no nitrato de amônia. O pó cai muito perto em uma quantidade muito grande e os grânulos do produto mais longe, o que desuniformiza o pasto. Algumas partes ficam muito verdes, outras meio amarelas, porque faltou adubo. A gente somente consegue corrigir isso no ciclo de pastejo seguinte.

Maristela – Os pecuaristas estão cada vez mais interessados em adubação para intensificar a produção, mas ainda se mostram receosos. Que recomendações o senhor daria a eles, para fazer certo e obterem os resultados esperados?
Corsi – Para que tenham segurança de que a adubação dá resultado, eles precisam coletar, analisar e interpretar dados. O que é uma análise de dados? É comparar resultados com base em um parâmetro. Isso normalmente é fácil de fazer, o difícil é interpretar essa informação. Por que estamos obtendo um resultado abaixo do projetado? Porque os nutrientes, por exemplo, foram distribuídos de forma desbalanceada; o fósforo, em nível muito alto, interferiu na disponibilidade do zinco para a planta.
Para fazer essa interpretação, é preciso conhecimento técnico. Dados mal interpretados podem queimar a tecnologia. O produtor investe, gasta dinheiro, não obtém resultado (porque não fez corretamente a adubação) e acaba desistindo. Somente por meio de análises de solo e visitas à fazenda, o técnico pode descobrir o que está acontecendo.
Outra coisa muito importante: o produtor tem de saber produzir e também colher. Essas duas coisas andam juntas. A adubação exige bom manejo do pasto. Fazendo uma analogia com a soja, de nada adianta eu produzir 70 sacas/ha e minha máquina colher somente 40. Quando o problema está na distância incorreta de adubação, é fácil resolver. Um erro desses é tão evidente e o prejuízo tão grande que é logo percebido e resolvido. O difícil é aquela situação do tamanho dos grânulos, que nem todos percebem. Principalmente no caso do nitrato de amônio, que, muitas vezes, é vendido mais barato justamente porque o grânulo está estourado. E tem de ter um cuidado danado com isso, porque se você aplicar esse produto farelado na planta molhada pelo orvalho, ela queima. Precisa fazer estocagem correta do adubo e monitorar sua consistência. O ideal seria ter todos os macro e micronutrientes no mesmo grânulo. Estamos caminhando nesse sentido.

Maristela – Que mensagem final o senhor gostaria de deixar para o produtor?
Corsi – Ainda não conhecemos o potencial produtivo e econômico da adubação em pastagens. A literatura aponta que as gramíneas forrageiras respondem bem a aplicações de até 400 ou 600 kg de nitrogênio por hectare. Estamos na metade do caminho e achando que já está bom, mas tem um potencial enorme não explorado. Meu alerta para o produtor é que ele precisa não apenas explorar bem essa tecnologia, mas colher bem o capim. Melhorando a eficiência de pastejo, pode conseguir resultados econômicos e competitivos.
Veja o Especial de Pastagens 2017 completo em DBO.

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