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É preciso discutir a relação

Especialistas defendem que garantia do fornecimento de leite é de mais responsabilidade da indústria

Portal DBO - 01/11/2018

Por Tatiana Souto

Embora um dependa totalmente do outro, laticínio e produtor nem sempre têm um casamento, digamos, “estável”. E um dos principais problemas nessa relação é a infidelidade. São recorrentes as reclamações de laticínios abandonados por pecuaristas que argumentam que a indústria não lhes oferece condições adequadas para manter a parceria – principalmente o preço pago pelo leite. Ao menor sinal de um valor maior no laticínio ao lado, é para lá que o produtor corre. Na outra via, há empresas que se comprometem a médio ou longo prazos com seus fornecedores mas, ao menor sinal de oscilação abrupta nos preços de mercado, jogam fora, sem cerimônia, a aliança.

O coordenador técnico do Projeto Educampo Sebrae em Minas Gerais e consultor da Labor Rural, de Viçosa, Christiano Nascif, confirma que a agroindústria leiteira sofre com a alta rotatividade dos produtores, “algumas mais, outras menos”, situação que é “muito ruim para toda a cadeia de lácteos”. Outro consultor, Abel Fernandes, da Infinite Consultores, de Juiz de Fora, MG, aponta o fato de o setor ser “muito desconectado” como um dos entraves para a boa relação pecuarista-laticínio. “No segmento de suínos e aves, por exemplo, há uma ligação muito forte entre fazendeiros e indústria, uma via de mão dupla, e isso nem sempre acontece no leite”, observa.

Logicamente, qualquer relação depende dos dois lados para engrenar. E especialistas ouvidos por Mundo do Leite concordam que sua perenidade está muito mais na mão do laticínio, em criar condições para atrair e fidelizar o produtor, do que o oposto. Embora, ao fim e ao cabo, a agroindústria acabe também se beneficiando das suas próprias iniciativas – captando leite de qualidade em maior volume e a um custo menor. É consenso também que, ao receber estímulos, o pecuarista tira do primeiro plano a questão do valor recebido pelo leite, em função de outros benefícios que consegue agregar. “Nem sempre o preço é o principal ponto a garantir a fidelidade do produtor”, confirma o pesquisador João Cesar Resende, da área de Socioeconomia da Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora. “Há muitas outras coisas que a indústria pode fazer. A primeira é prestar algum tipo de assistência técnica e gerencial à propriedade leiteira.” Para Resende, esse tipo de atitude cria um vínculo entre ambos. “O produtor sente que o laticínio está preocupado com ele e, assim, o preço pago pela matéria-prima deixa de ser o principal atrativo.” Até porque, bem assessorado, o produtor aprende a buscar lucro em cima de ganhos de produtividade e gestão de custos. “Afinal, não adianta aumentar o preço se o produtor não tem controle sobre os custos”, ensina Resende.

Longo prazo

Não que o preço não pese na balança. Ao tratar a propriedade leiteira como negócio, o produtor passa a fazer projeções com objetivos de longo prazo. Para tanto, necessita de um laticínio que sinalize o comportamento da cotação ao longo dos meses, outro fator que contribui para fidelizar a relação, acredita o chefe- -adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Pecuária Sudeste, André Novo, de São Carlos, SP. “O criador precisa saber com antecedência o que vai acontecer com o preço do leite. Se o laticínio passa essa projeção, é uma forma de estimular um fornecimento regular e fel, pois o fornecedor se sente mais seguro”, continua o representante da Embrapa, assinalando, porém, que o que predomina ainda é a “falta de comunicação” entre as partes. Nascif, do Educampo Sebrae, complementa, dizendo que o pecuarista de leite valoriza, de fato, uma menor variação de preços entre picos e baixas de produção. “Além disso, a transparência na formação do preço por parte do laticínio.”

Sob este aspecto, a pesquisadora Rosana de Oliveira Pithan e Silva, do Instituto de Economia Agrícola (IEA- -Apta), elogia a iniciativa do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do Estado do Rio Grande do Sul (Conseleite-RS), que projeta, mensalmente, o valor do litro pago ao produtor. “Eu acredito muito nesse sistema”, diz Rosana. “A cotação fica transparente pra todo mundo, com planilha, cálculos e um valor de referência que auxilia muito o produtor a se planejar. Esta é a melhor saída, pela previsibilidade que dá a ambas as partes.” Ela lembra, também, que a cadeia leiteira não costuma trabalhar com contratos de longo prazo, “o que poderia ser outra saída para o fornecedor ser menos volúvel”, diz a pesquisadora. “Se houvesse mais parcerias firmadas com contratos, com certeza a fidelização seria maior”, acredita.

Caminhão da coleta faz a ponte entre o produtor e a indústria. Foto: Tatiana Souto.

Mais Leite Saudável

Um programa que surgiu há três anos no Ministério da Agricultura, ainda sob o governo de Dilma Rousseff, começa a dar bons frutos para fomentar a cadeia láctea do País. O Mais Leite Saudável foi elaborado justamente para contornar a tão propalada falta de recursos para investimentos no fomento da cadeia – sem usar, diretamente, verba de orçamento do ministério. Rodrigo Moreira Dantas, coordenador de Boas Práticas e Bem-Estar Animal do Ministério da Agricultura, explica que o laticínio que aderir ao programa obtém verba de créditos presumidos – um dinheiro que ele tem a receber do Fisco. A agroindústria participante tem direito a resgatar 50% dos créditos, sendo obrigada a destinar 5% deste valor a programas de assistência técnica e gerencial ao pecuarista de leite.

Até o momento, 491 projetos apresentados pelos laticínios foram aprovados, num valor de R$ 173 milhões. “Até agora, 60 mil produtores foram ou estão sendo beneficiados”, diz Moreira Dantas. A assistência técnica se dá tanto nas práticas agronômicas, zootécnicas e genéticas da propriedade quanto nas ligadas à administração e gestão. O coordenador calcula que, de 1.200 laticínios sob inspeção federal no Brasil, cerca de 10% já aderiram ao Mais Leite Saudável. A contrapartida exigida é que a agroindústria deve estar com sua situação regularizada no Fisco.

Ainda em relação ao preço, um fator importante mencionado pelos especialistas é o pagamento por qualidade do leite, motivo que suscita reclamações tanto da indústria quanto do pecuarista. “O laticínio reclama da falta de qualidade e da heterogeneidade do volume entregue”, diz Nascif, do Educampo Sebrae. Já Rosana Pithan, do IEA-Apta, alerta que produtores fcam insatisfeitos porque a maior parte dos laticínios não paga bonificação por um leite de melhor padrão. “Aí, quando ele encontra quem lhe ofereça um pouco mais, corre pra lá”, relata. A pesquisadora inclui, nesta questão, um outro elo da cadeia: o consumidor. “Para ele, leite é leite. Ele não exige qualidade e isso se reflete negativamente na produção.”

Resende, da Embrapa Gado de Leite, lembra que se um laticínio dá bônus por um leite melhor, além de ser um incentivo para fidelizar o produtor, também consegue maior rendimento da matéria-prima na indústria e, consequentemente, menor custo de produção. “Isso só se reverte em benefícios para a empresa”, garante o pesquisador, que reconhece ser mais frequente o pagamento extra por quantidade de leite, não por qualidade.

Outros fatores que contribuem para fomentar a cadeia leiteira também passam pela iniciativa dos laticínios – queira ou não, o elo mais forte. “A indústria pode estimular, por exemplo, produtores de uma mesma região a formarem grupos de consumo para adquirir insumos como ração, fertilizantes e medicamentos veterinários”, sugere Resende, da Embrapa Gado de Leite. “Comprando em grande volume, o produtor consegue descontos maiores”, diz. Outra sugestão é o próprio laticínio montar uma estratégia de fazer compras no mercado futuro de milho e soja, travando preços para reduzir custos. Estimular a associação de produtores também permitiria o fornecimento de leite em larga escala, o que é benéfico para ambas as partes – e estimularia a fidelidade recíproca. O pesquisador cita outros itens: fomento genético, agrupar produtores especializados em recria, e um relacionamento transparente.

André Novo, da Embrapa Sudeste, ressalta, além disso, que é necessário acabar com a cultura de alguns laticínios de ir buscar leite no “exterior”. “Não só o produtor é infiel; muitas vezes a indústria, para atender a necessidades imediatas, prefere ir buscar leite mais longe do que estimular os pecuaristas do seu entorno”, explica ele. “Isso funciona como um desestímulo à fidelização.” Para Novo, o que seria importante é a empresa conquistar a confiança do produtor “naquilo que é mais importante para ele”, define. “De que tipo de produtor a empresa precisa?”, questiona. “Se a necessidade for de um leite de altíssima qualidade, então cabe à indústria auxiliar seu fornecedor a chegar lá”, explica André Novo, “seja por políticas de bonificação, com assistência técnica ou o que for necessário”. Bem assistido, Novo adverte porém que o produtor também tem de “cumprir a sua parte no acordo” e não “ficar pulando de galho em galho”.

Produtor como parceiro da indústria

A principal entidade que representa os laticínios no País, a Viva Lácteos, com 34 empresas associadas, responsáveis por 70% da produção brasileira de leite e derivados, acredita que a indústria tenha “um papel importante para ajudar a alavancar a produção nas propriedades leiteiras”, diz o diretor executivo, Marcelo Costa Martins. “Não diria, entretanto, que isso seja uma obrigação da indústria; pensamos mais sob o aspecto de parceria, pois o leite é um negócio tanto para produtor quanto para a indústria”, ressalta. “Se o produtor ganha dinheiro com a atividade, isso garante a sustentabilidade da cadeia.” Martins cita iniciativas dos laticínios, como programas de assistência técnica, projetos do Sistema S e também escolas de capacitação para os funcionários das propriedades leiteiras, entre vários outros. Ele também elogia a iniciativa do Ministério da Agricultura, o Programa Leite Mais Saudável, que estimulou laticínios a investirem no fomento à cadeia. “Este programa mantém uma dotação orçamentária significativa e que, em virtude do benefício fiscal, muitos laticínios passaram a desenvolver programas voltados ao pecuarista”, comenta. “Praticamente todo dia, no Diário Oficial da União, há projetos aprovados”, diz. “Há, enfim, um conjunto de iniciativas no País que visam melhorar a situação do produtor. Basta ele querer participar.”

Produtores e laticínios féis

O pecuarista de leite Amauri Pinto Costa, da Fazenda Bom Retiro, de Pouso Alto, MG, é categórico ao afirmar que, se não fosse o incentivo técnico e de gestão que obteve ao longo dos anos da indústria, não teria chegado aonde chegou. Desde 1997, quando iniciou na atividade e entregava 400 litros de leite/dia para a Parmalat, vem se beneficiando da assistência técnica prestada por laticínios. “Tive conhecimento do pastejo rotacionado por meio da Parmalat”, comenta. Com a assistência técnica, a fazenda evoluiu muito rápido, conta. “Sou grato à Parmalat e até hoje aplico os ensinamentos daquela época.”

Hoje, Costa produz 19 mil litros por dia, que entrega para a Danone, da qual também recebe assistência técnica, mas mais especializada, voltada ao aumento do teor de sólidos do leite e à redução da contagem de células somáticas. Também fez um curso, pelo Educampo Sebrae em parceria com a Danone, de controle e gestão de custos, que o auxiliou a gerenciar melhor a propriedade, conta.

Contrato

O produtor conta com mais benefícios, como um contrato de leite que tem duração mínima de dois anos e é vinculado ao indicador de preço do Cepea. “Por isso tudo, sou um produtor fiel”, garante. “Há cinco anos eu forneço só para a Danone”, orgulha-se. “Eles me pagam um preço justo, por qualidade, tenho assistência técnica e apoio. A fidelidade também me garante um bônus anual.” Outra vantagem oferecida pelo laticínio, diz, é a central de compras, da qual ele, porém, como grande produtor – e com condições de comprar bons volumes por conta própria – não precisa lançar mão. “Mas para pequenos e médios produtores é um programa essencial.”

A Danone também premia aqueles que entregam volumes maiores de leite. Atingindo-se determinadas metas, eleva-se a escala de pagamentos. Por isso, Costa – com auxílio do laticínio parceiro – pretende alcançar no ano que vem a marca de 30 mil litros por dia. O pecuarista relata que, para ele, o mais importante é “estar em uma empresa que trata os produtores com respeito, enxergando o que é fundamental desenvolver na cadeia”.

Também no sul de Minas Gerais, no município de Lavras, outra empresa percebeu todas as vantagens de tratar os pecuaristas como parceiros. O Laticínio Verde Campo, adquirido há dois anos pela Coca-Cola e que capta leite de cerca de 200 produtores, mantém 10 técnicos para atendê-los rotineiramente. “Nosso trabalho de assistência é muito forte”, garante o engenheiro agrônomo Sávio Santiago, gerente de Matérias-Primas Lácteas. “Com esse trabalho próximo ao produtor, garantimos um leite de excelente qualidade. Captamos 200 mil litros por dia, com contagem bacteriana total (CBT) na média de 11.000 e CCS na média de 240.000”, diz o agrônomo.

O Verde Campo mantém política de preços diferenciada: o produtor sabe antes quanto vai ganhar pela matéria-prima. Santiago acrescenta que há, ainda, programas de melhoramento genético, de doação de embriões, de assistência veterinária, de inseminação artificial e de auxílio na compra de insumos.

Todas essas medidas acabam por manter o produtor ligado à indústria. “Nosso índice de cancelamento de entregas é muito baixo. É raro o produtor deixar de fornecer pra gente.” O que não é pouca coisa, em se tratando da região em que o Verde Campo está situado, uma das maiores bacias leiteiras do Estado. Santiago não vê essas iniciativas como “custo” para a empresa. “Nós estimulamos procedimentos nas propriedades que vão nos trazer o leite do qual precisamos”, explica. “Nosso padrão de qualidade é altíssimo porque os produtos são premium e precisamos de um leite de qualidade. Por isso estimulamos o produtor a alcançar esse objetivo”.

*Matéria originalmente publicada na edição 93 da revista Mundo do Leite.

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