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Antibióticos na produção animal: restrições à vista?

Sergio de Medeiros comenta as poucas opções de novos antibióticos no horizonte

Sergio Raposo de Medeiros - 05/12/2018

Bactérias resistentes aos antibióticos são uma grande preocupação atualmente das organizações de saúde ao redor do mundo. O fenômeno de criar resistência às drogas funciona da seguinte forma: um novo antibiótico é muito eficaz para controlar infecções, mas, ao longo do tempo, algumas bactérias podem sofrer alterações genéticas que as deixam resistentes ao produto. Daí, é necessário lançar mão de um outro antibiótico para controlá-las, mas o mesmo processo deve-se repetir com este novo produto. Enfim, é nossa sina desenvolver sempre novos antibióticos ao longo do tempo.

Enquanto houver um produto alternativo na prateleira, o problema ainda é contornável, mas a questão é, exatamente, que estamos com poucas opções de novas drogas, quando olhamos no horizonte. Aliás, mesmo havendo alternativas, a resistência já causa mortes. Hoje, a maioria das pessoas já ouviu falar em “infecção hospitalar” e a enorme cautela que os profissionais que neles trabalham têm dela. As bactérias mais resistentes são encontradas neste ambiente, exatamente por ser um local onde elas são mais selecionadas, ou seja, quanto mais usamos os antibióticos, mais corremos o risco da resistência microbiana.

Como os antibióticos são usados na produção animal, a atividade também pode contribuir para o problema de criação de populações de bactérias resistentes. Portanto, estamos envolvidos na questão. Para fazer uma ideia melhor dela, trazemos algumas informações que, longe de esgotarem a questão, pelo menos levantam a importância de, além de fazer bom uso, estar preparado para futuras novas restrições ao uso de antibióticos que devem estar por vir.

O Brasil é o terceiro maior usuário de antibióticos na produção animal, atrás de China e EUA. Até 2030, devemos aumentar o uso em cerca de 50%, chegando próximo das 9 mil toneladas/ano; os EUA continuam em segundo, com pouco mais de 10 mil toneladas/ano, mas estima-se que a China mais do que dobrará o uso atual, ultrapassando as 30 mil toneladas/ano. Isso demonstra como ainda contamos com essa ajuda para a intensificação da produção de alimentos de origem animal.

Para os diferentes tipos de criação, quantidades bem diferentes de antibióticos são usadas. A média mundial de uso em bovinos é de 45 mg/kg de peso vivo, enquanto aves usam em média 148 mg/kg de peso vivo e suínos, 172 mg/kg de peso vivo. Nessas médias, estão incluídos tanto o uso terapêutico, ou seja, para tratar doenças, como o uso dessas substâncias como promotoras de crescimento. Como, quanto mais intensificada a produção, maior é o risco de doenças, maior é a necessidade de uso terapêutico de antibióticos, o que explica o uso mais de três vezes superior em aves e suínos.

O uso de antibióticos nas diferentes regiões do mundo também é bastante variável, com os países mais desenvolvidos usando maiores quantidades. Quando usado como métrica a quantidade de antibiótico usado por quilograma de carne produzida, por exemplo, o Brasil estaria na faixa de 35-50 mg, enquanto a maior parte dos países europeus entre 150-450 mg, ou seja, até quase dez vezes mais. Essa informação é relevante, uma vez que são os países europeus que mais costumam fazer restrições ao uso desses produtos.

Na Comunidade Europeia, apenas o uso terapêutico de antibióticos é liberado, sendo proibido o uso com a finalidade de promoção de crescimento. A proibição de importar de países que façam o uso como promotor de crescimento, então, seria apenas uma questão de justiça, uma vez que deixaria a competição mais equilibrada: “Se eu não posso usar aqui, que a carne comprada fora tenha as mesmas exigências feitas a mim”, defendem-se os produtores europeus. Todavia, há suspeita que nem todo uso reportado como terapêutico, de fato, o seja. Uma parte, então, seria desviada para a promoção de crescimento. Essa suspeita decorreu do fato do uso terapêutico ter aumentado muito depois da proibição, mas isso pode ser resultado, também, de um aumento real de problemas de saúde que estariam sendo controlados pelo uso dos antibióticos como promotores de crescimento.

A questão é que nosso Ministério da Agricultura considera evidências científicas na decisão pelo uso ou não de substâncias na produção animal e, em função disso, há vários produtos registrados e passíveis de uso até que haja suficiente informação para uma decisão contrária.

Abaixo uma lista do antimicrobianos registrados para uso no Brasil como promotores de crescimento:

Bacitracina – Aves, Bovinos e Suínos

Flavomicina – Aves, Bovinos e Suínos

Lasalocida – Bovinos

Monensina – Bovinos e Ovinos

Narasina – Bovinos e Ovinos

Salinomicina – Bovinos e Ovinos

Virginiamicina* – Aves, Bovinos e Ovinos

Dessa lista, dois são considerados como “Antimicrobianos Criticamente Importantes” pela Organização Mundial da Saúde (OMS): a bacitracina e a virginiamicina. O motivo disso é que eles são usados, também, na medicina humana.

Especificamente para bovinos de corte temos usado bastante os ionóforos (monensina, lasalocida, narasina e salinomicina) e, exatamente, a “criticamente importante” virginiamicina.

No caso do ionóforos, eles atuam nas membranas nos microrganismos, desorganizando seu equilíbrio iônico e fazendo-os aumentar o gasto energético, fazendo as populações suscetíveis perderem a competição no rumem e reduzirem sua população. O resultado final é um ecossistema ruminal mais interessante para a produção animal, ou seja, que possibilita maior retirada de energia por quilograma de alimento.

Provavelmente, por agir num ponto tão básico a todas as células, apesar do uso desde dos anos de 1980, nunca foi relatado geração de bactérias com resistência aos ionóforos.

A virginiamicina, contudo, age sobre estruturas mais sofisticas das células: os ribossomos ligados à síntese proteica. Assim, pelo menos teoricamente, poderia ser mais inclinada a gerar resistência. Todavia, também não há relatos de resistência causada por seu uso.

Resultados do uso de suplementos com ionóforos em pastagem mostram um aumento de cerca de 13%, com valores de maior ganho de peso entre 80-100 g/cabeça.dia. Resultados similares, ou até melhores, foram obtidos com uso de virginiamicina em suplementos em pastagem.

Em confinamento, eles são ainda mais importantes, sendo usados por quase todos confinadores. O principal papel desses promotores de crescimento é a redução de problemas metabólicos, como acidose, timpanismo e laminite. Como, nos últimos anos, a tendência foi aumentar muito a participação do concentrado nas dietas, o risco dessas doenças metabólicas aumentou também, o que fez ainda mais importante o uso desses antibióticos.

Nessas dietas “quentes”, o efeito em aumento de ganho de peso não é esperado, mas o de aumento de eficiência sim, pois há uma redução no consumo de alimento sem haver redução no desempenho.

Num cálculo considerando as cercas de 5 milhões de cabeças confinadas anualmente no Brasil, assumindo os efeitos dos promotores como uma redução de 6% na ingestão de matéria seca (ao custo de R$ 600/t) e uma redução de cerca de 0,5% unidades percentuais de mortalidade, caso fossemos proibidos de usar os aditiivos, haveria um prejuízo superior a R$ 200 milhões por ano.

Mesmo com chance de algum erro neste cálculo, ele pode ser considerado bastante conservador, pois a produção em confinamento representa apenas 2% das 9 milhões de toneladas de carcaça/ano produzidos no Brasil, as outras 98% vindo da produção em pastagem, cuja eficiência também pode ser melhorada com uso de aditivos.

Nesse sentido, é importante lembrar que o uso destes promotores tem possibilitado o uso algumas estratégias, como confinamento em pastagem, no qual o animal recebe quantidades muito grandes de concentrado na pastagem. Por ser uma estratégia versátil, que independe de grandes estruturas e que requer menor planejamento, o “confinamento a pasto” tem sido cada vez mais usado.

Há, também, resultados positivos para reprodução com uso de aditivos, como menor tempo para entrar em serviço e redução de intervalo entre partos.

E, por fim, não estariam contabilizados, também, os efeitos ambientais benéficos do uso dos promotores, como a menor produção de resíduos e a menor pegada de carbono. No caso desta última, seria menos por efeito direto na redução da emissão de metano, que não persiste por muito tempo, mas pela maior eficiência produtiva.

O fato é que esses antimicrobianos fazem diferença, ao melhorarem o desempenho e renda ao produtor, reduzirem o impacto ambiental, melhorarem o bem-estar animal e, viabilizarem a engorda intensiva em pastagem.

É capaz que, nos próximos anos, surjam protocolos de uso que disciplinem mais seu uso e aumente-se o monitoramento sobre eles, eventualmente chegando-se até a restringir a quantidade a ser ministrada por animal.

O importante é que, se houver proibição no uso de antimicrobianos com melhoradores de desempenho, que a decisão seja feita com base em ciência (Análise de Risco / Custo:Benefício), bem como estar alerta para não se repetir o que ocorreu no caso da Dinamarca, onde, após banir uso de melhoradores, o uso terapêutico aumentou, com resultado de aumento líquido de uso de antibióticos.

Deve-se levar em consideração, também, o peso relativo entre “Uso Veterinário X Uso Humano”, pois o problema da resistência é muito maior no uso humano. Por exemplo, em três estudos que envolveram 747 genes de resistência ESBL (Extended-Spectrum β-Lactamases), apenas dois deles foram também encontrados em animais.

As pessoas ficam com a impressão do contrário, pois mais de 70% do antibiótico no mundo são usados na produção animal, mas isso ocorre apenas porque temos muitos mais quilogramas de animais de produção no mundo do que de humanos, sendo que o uso por quilograma é bastante similar.

As principais formas de bom uso, seria utilizar apenas quando houver necessidade e estritamente dentro das recomendações, inclusive mantendo o período de tratamento total mesmo que desapareçam os sintomas da infecção antes desse prazo. O uso indiscriminado e por menor período de tempo estariam entre os principais erros que ajudam a criar a resistência, junto com o descarte no ambiente. Antibióticos vencidos devem ser incinerados ou idealmente, quando possível, retornado aos fabricantes.

Por hora, o importante é ter consciência que temos excelentes ferramentas em mãos a nos ajudar a produzir melhor, mas que devemos fazer bom uso, bem como nos prepararmos para cada vez mais restrições futuras. Do lado da pesquisa, estamos trabalhando para aumentar o arsenal de aditivos não antibióticos.

*As opiniões expressas nos artigos não necessariamente refletem a posição do Portal DBO.

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