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A “invasão” paranaense no Centro-Oeste

Grandes cooperativas sediadas no PR seguem caminho da migração de agricultores sulistas

Portal DBO - 25/10/2018

José Sales Saraiva, da Coamo, e Ivan Zanin. Foto: Ariosto Mesquita.

Por Ariosto Mesquita

De família de agricultores, Ivan Antonio Zanin nasceu em 1975, em Maringá, no norte do Paraná e, aos 19 anos, já era produtor associado à Coamo – Cooperativa Agropecuária Mourãoense Ltda, sediada em Campo Mourão, PR. Em 2000, sua vida deu uma guinada. Vendeu 600 hectares de terras e, com o dinheiro, comprou 3,3 mil hectares em Laguna Carapã, diminuta cidade na então distante região de Caarapó, município no sudoeste de Mato Grosso do Sul, onde hoje ele reside. Parte de sua família continuou cooperativada, tocando os negócios (cultivo de soja e trigo) no Paraná. Zanin, por sua vez, iniciou nova etapa de sua vida profissional abrindo área, implantando lavoura, comprando insumos e comercializando a safra. Tudo praticamente sozinho. “Trabalhei quatro anos sem cooperativa no Mato Grosso do Sul. Não foi fácil. A agricultura como a conhecemos hoje ainda engatinhava. A estrutura de armazenagem era mínima, as lavouras, pequenas e as estradas, muito ruins. Eu mesmo tinha de colher, botar o milho no caminhão e enfrentar três dias de estrada e de filas para entregar a produção”, conta.

Acostumado aos suportes de compra e venda, de gestão e de tecnologia de uma cooperativa, Zanin não esconde que sofreu bastante neste período: “O que mais senti foi a carência de uma logística adequada, além da falta de conhecimento técnico. Penamos um pouco. Naquela época, eu e outros produtores que vieram do Sul do Brasil para o Centro-Oeste tivemos de descobrir sozinhos que insumos usar, que tipo de material plantar e como corrigir as especificidades do solo”. O agricultor não viu alternativa a não ser recorrer à Coamo, de forma pontual, mesmo considerando a distância e as estradas ruins. “No primeiro ano, 100% das minhas compras de insumos vieram da cooperativa, no Paraná. O diferencial de ICMS encarecia, mas mesmo assim compensava. Consegui apoio de crédito e pude então trazer maquinário próprio para abrir e implantar a lavoura”, revela o produtor, que de lá para cá vem cultivando soja e milho em sucessão (em 2,4 mil dos seus 3,3 mil hectares) na Fazenda Rancho Grande.

Ivan Zanin, produtor em Laguna Carapã, na região de Caarapó. Foto: Ariosto Mesquita.

Demanda por cooperativa

Acostumados a este modelo de negócios, Zanin e outros produtores que migraram para o Centro-Oeste alavancaram uma demanda clara por cooperativas na região. Algumas iniciativas locais vingaram (caso da Copasul, em Naviraí, no sul do Mato Grosso do Sul). Outras, sobretudo na região da Grande Dourados, MS, não foram bem sucedidas, o que acabou abrindo portas para que as cooperativas agrícolas já consolidadas, como as sediadas no Paraná, começassem a se interessar pelo mercado do Brasil Central.

Em 2004, Zanin começou a respirar melhor. Neste ano, a Coamo abria seu primeiro entreposto no Mato Grosso do Sul. A unidade se instalou em Amambai, cidade bem próxima à sua fazenda. Um ano depois a cooperativa também chegava a Caarapó e Laguna Carapã. Era só o início. Levantamento da Ocepar – Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná indica que, atualmente, seis grandes cooperativas paranaenses (de perfil agrícola) têm atuação no Centro-Oeste do Brasil através de 70 unidades de negócios. Em 2017, estes entrepostos representaram 15,9% (perto de R$ 4,6 bilhões) do faturamento total deste grupo (R$ 29 bilhões).

Ao que tudo indica, este avanço da estrutura cooperativista paranaense pelo Brasil central está em plena ascensão. Exemplo disso vem da Coamo (hoje rebatizada de Coamo Agroindustrial Cooperativa), considerada a maior cooperativa agrícola da América Latina, com faturamento de R$ 10,5 bilhões em 2017, e que se prepara para inaugurar, em 2019, seu primeiro complexo industrial no Centro-Oeste. Serão duas unidades fabris com investimentos totais de R$ 650 milhões, devidamente aprovados pelos associados em assembleia geral: uma de esmagamento de soja (produção de farelo e óleo) com capacidade para processamento de três mil toneladas/dia e uma refinaria capaz de produzir 720 toneladas/dia de óleo de soja refinado (equivalente, segundo a cooperativa, ao processamento de 15 milhões de sacas/ano). “O início do funcionamento destas estruturas está previsto para agosto do próximo ano. Certamente vai exigir ainda mais da expansão da Coamo no Mato Grosso do Sul para gerar matéria prima e abastecer as indústrias. Além disso, a grande disponibilidade de farelo de soja vai suprir diretamente a atividade pecuária que é forte no Mato Grosso do Sul”, comenta o gerente da unidade da Coamo em Caarapó, José Sales Saraiva.

A expansão das cooperativas paranaenses no Centro-Oeste está calcada principalmente na soja e derivados. Foto: Ariosto Mesquita.

O desempenho econômico do setor nos últimos anos passou bem longe da crise e pode explicar e justificar, em boa parte, o fôlego de expansão. Segundo dados da OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras, as cooperativas agrícolas faturaram R$ 200 bilhões em 2017, valor 10,6% superior ao desempenho de 2016. O crescimento das exportações no mesmo período foi ainda maior: 20,1% (US$ 6,16 bilhões contra US$ 5,13 bilhões). Somente o complexo soja respondeu por 28% (US$ 1,7 bilhão) deste movimento. A agropecuária soma 1.550 cooperativas de um total de 6.650 sob a batuta da OCB. A entidade estima que, atualmente, mais de um milhão de produtores rurais brasileiros sejam cooperados. A expansão de cooperativas tradicionais do sul do Brasil (gigantes como a Aurora, de Santa Catarina, também já estão no Centro-Oeste), seguindo o caminho das migrações de agricultores sulistas rumo às novas fronteiras agrícolas do Brasil Central, acabou sendo fundamental para o aumento de desempenho agronômico nestas regiões. Não por acaso, o sudoeste e centro-sul do Mato Grosso do Sul, graças à maior proximidade com o Paraná, são consideradas hoje áreas de alta tecnificação agrícola.

“Eram regiões fundamentalmente de pecuária. Os agricultores que aqui chegaram tiveram de investir bastante na preparação do solo para garantir produtividades hoje equivalentes às melhores terras do Brasil, assim como foi feito na região de Ponta Grossa, no Paraná. O nível de tecnologia agora é muito bom. O agricultor daqui é um homem de negócios, um empresário do campo que aumenta a produção sem adquirir mais terras. Quer resultados e faz conta. Sabe quanto é seu custo por saca e busca a produtividade em cima disso. Hoje ele deposita seu produto na cooperativa, vende na hora que quiser e recebe à vista”, avalia o gerente da Coamo, com sua experiência de 37 anos na empresa.

Na opinião de Saraiva, a chegada das cooperativas de origem paranaense ajudou a expandir e a elevar o nível técnico das iniciativas locais em cooperativismo. Este conjunto, segundo afirma, mudou o conceito cultural de agricultura de trabalho individual para uma atividade coletiva: “O agricultor tocava o barco sozinho e até ganhava seu dinheirinho, mas, quando começou a confiar na intermediação da cooperativa, percebeu que tinha segurança, assistência técnica, que era dono do negócio, que poderia vender melhor e quando quiser e a comprar com muito mais economia. Um exemplo disso veio de um produtor que pagava R$ 1,2 mil por um soprador de limpeza no mercado local. Na loja da cooperativa, ele encontrou o mesmo produto por R$ 847, graças ao poder de negociação de compra em escala”, explica.

Confiança é tudo

Ivan Zanin garante que turbinou seus negócios após se associar à cooperativa. “Meu custo de produção na soja, por exemplo, continua o mesmo, na casa de 30 sacas/ha, mas minha produtividade média pulou de 50 para 65 sacas/ha, equivalente a um crescimento de 30%”. Nesta conta ele não embute alguma das particularidades oferecidas pela cooperativa. No caso de venda futura, por exemplo, vez por outra recebe até mais do que o valor por ele pedido: “Recentemente fixei 20 mil sacas de soja a R$ 73 a saca. Quando a cotação de mercado atingisse este valor, a cooperativa tinha a minha autorização para fazer negócio. No entanto, aconteceu de chegar a R$ 74 a saca. A Coamo vendeu e me pagou os R$ 74. Ganhei mais R$ 20 mil na transação. Uma corretora que não pensa no produtor nunca faria isso”. Já os rendimentos de sobra financeira, pagos anualmente pela cooperativa aos seus associados, entram na sua contabilidade final. “Este cheque que recebo todos os anos já faz parte do meu negócio. O que surpreende, são os valores, quase sempre crescentes. Há uns 15 anos recebi R$ 1,50 a mais por saca comercializada. Em 2017, estas sobras ficaram na casa de R$ 2,10 por saca. Recebi, portanto, R$ 42 mil de bônus por 20 mil sacas”, revela.

Ivan Zanin, na unidade da Coamo em Caarapó, no momento em que fechava a venda antecipada de soja da safra 2018/2019. Foto: Ariosto Mesquita.

Mas a maior surpresa de Zanin como cooperado no Mato Grosso do Sul veio na safra 2015/2016. Na época, um volume muito grande de chuva no período de colheita reduziu a produtividade, deixando muita soja ardida no campo. “Colhemos muito mal. O limite para não se descontar é de 8% de soja avariada. Entreguei minha safra com 12% de deterioração, portanto a cooperativa me descontou 4%. No entanto, depois de seis meses, a Coamo me devolveu os 4% que tinha abatido na boca da moega. Ela conseguiu equalizar a soja ruim do Mato Grosso do Sul com a soja boa obtida no Paraná e exportar sem qualquer desconto. Ninguém esperava isso. Foi surpreendente”, relembra.

Dando a volta por cima

Cornélio Eberhard no milharal. Foto: Ariosto Mesquita.

Era a segunda metade da década de 2000 e a Cooagri – Cooperativa Agropecuária e Industrial, com sede em Dourados (MS), que chegou a ser a 12ª do Brasil e a 1ª no Mato Grosso do Sul, agonizava. Possuía unidades espalhadas por todo o estado e pelo vizinho Mato Grosso, além de uma rede de armazéns com capacidade para estocar mais de 1,5 milhão de toneladas de grãos. Mas não demorou a quebrar. Em outubro de 2009 foi declarada sua insolvência, na cola da crise econômica do ano anterior, deixando dívidas superiores a R$ 300 milhões e muitos credores a ver navios, incluindo inúmeros produtores.

O gaúcho de sangue alemão Cornélio Eberhardt (foto), que mudou em 1974 (aos cinco anos) com a família para o Mato Grosso do Sul e hoje toca o Sítio Yucumã, em Dourados, parece não guardar muitas lembranças da época ou prefere não remoer o passado. Ele e seu pai, João Eberhardt, vieram de Tenente Portela, RS, onde eram cooperados da Cotrijuí. Em terras sul-mato-grossenses logo se ligaram à Cooagri. “Ficamos na Cooagri até o instante em que quebrou. O impacto pra nós não foi muito grande. Não tínhamos nada a receber. Não me lembro bem, mas acho que o problema lá foi má gestão”, diz.

Depois do ocorrido, ele e o seu pai ficaram aproximadamente cinco anos longe de cooperativas. O agricultor, que planta soja e milho em sucessão em seus 380 hectares (200 ha no sítio e 180 ha em outras pequenas propriedades da família na região), só voltou a ser um cooperado na safra 2013/14. É o que conta o agrônomo e representante técnico da cooperativa C. Vale na região Henrique Soares de Morais: “O fim da Cooagri foi um baque enorme para a região de Dourados. Até hoje existem produtores que não querem ouvir falar no assunto. O Cornélio se afastou de qualquer cooperativa. Quando, tempos depois, mostrei a ele como a C. Vale funcionava de forma sólida, aos poucos voltou a se interessar. Começou comprando 9% de seus insumos conosco. Hoje, segundo ele próprio diz, adquire 99% do que precisa com a cooperativa, incluindo sementes, adubos, defensivos, ração e até maquinários”.

A C. Vale divulgou um faturamento de R$ 6,9 bilhões em 2017, somando um total de 19.795 cooperados. Atualmente, o pequeno produtor gaúcho sediado no Mato Grande do Sul aparenta segurança em sua relação com a cooperativa, a ponto de apostar em contratos futuros e vislumbrar saltos agronômicos: “Caso eu tenha um custo de R$ 500 mil na safra, transformo isso em soja e travo o preço. Isso ajuda a manter a minha boa produtividade, cuja média subiu de 55 para 65 sacas/ ha a partir do momento em que voltei a ser um cooperado. Agora a meta é atingir 75 sacas/ha e, para isso, vou investir em agricultura de precisão já a partir da safra 2018/2019”.

Concorrência saudável

Para Celso Ramos Regis, presidente da OCB/MS, a presença de cooperativas paranaenses só faz bem ao setor e à economia sul-mato-grossense. “Consideramos esta ‘invasão’ extremamente positiva e não inibe as iniciativas genuinamente locais. Ao contrário: como são organizações altamente tecnificadas e profissionalizadas, acabam estimulando as cooperativas regionais também a serem. Caso contrário, ficam pra trás. Temos municípios com quatro ou mais cooperativas agrícolas em pleno funcionamento. A concorrência é saudável”, garante. Novos investimentos, segundo ele, são incentivados pela OCB/MS: “Nós e o governo do estado estamos trabalhando para que estas cooperativas implantem núcleos industriais. Não basta apenas vir aqui e pegar nossos grãos para processar fora do estado. A Coamo é a primeira que está respondendo a isso. Mas queremos que outras, como a C.Vale, Cocamar e Lar também tenham a mesma atitude”.

Segundo Regis, a agricultura cooperativista no Mato Grosso do Sul é crescente e consolidada: “Perto de 75% da capacidade armazenadora estática do estado pertencem ao setor cooperativista. Além disso, nos últimos dois anos mais de 50% do investimento em infraestrutura do setor privado sul-mato-grossense veio das cooperativas”. A OCB/MS contabiliza 53 cooperativas (totalizando 15.570 cooperados) com atividades agrícolas no Estado, representando perto de 60% de todas ligadas à entidade.

Supermercado da Cooperativa C. Vale no município de Caarapó, MS. Foto: Ariosto Mesquita.

A Ocepar vem monitorando o avanço das cooperativas paranaenses no Centro-Oeste. De acordo com seu presidente, José Roberto Ricken (também diretor da OCB Brasil), o Mato Grosso do Sul vem atraindo mais investimentos por uma questão de proximidade e identidade. “Os modelos de produção agrícola são bem semelhantes”, observa. No entanto, entende como “uma questão de tempo”, o mesmo acontecer no Mato Grosso. “Não podemos esquecer que a C.Vale, sediada em Palotina, já está atuando por lá há quase quatro décadas”, ressalta, se referindo à cooperativa paranaense, que reúne 340 funcionários em solo mato-grossense. Segundo Ricken, a presença forte de grandes cerealistas e tradings de commodities ainda inibe investimentos cooperativistas maiores no Mato Grosso. Mas isso, segundo ele, vai mudar a partir do momento em que a produção local ganhar em valor agregado. “Quando a agroindústria alcançar uma dimensão maior no estado, o próprio produtor vai optar pelo cooperativismo. E esse estágio está muito próximo”, avisa.

Dados da OCB/MT mostram, no entanto, que o cooperativismo agrícola no estado é presente. Das 154 cooperativas cadastradas, 61 são do setor agropecuário (55 locais e seis originárias de outros estados). Ao todo, segundo a entidade, o segmento produtivo rural reúne 11.866 cooperados. Apesar de abrigar também uma cooperativa de origem paranaense (a Cocari, com quatro unidades), Goiás, na opinião de Ricken, é o estado com identidade cooperativista mais consolidada no Centro-Oeste. “Goiás começou intensamente no leite e depois ganhou força na agricultura. Atualmente, a Comigo representa muito bem o modelo goiano de cooperativismo agrícola”, observa, se referindo à Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano, sediada em Rio Verde.

As cooperativas do Paraná no Centro-Oeste

Coamo (Campo Mourão): 10 unidades no MS;
C-Vale (Palotina): 17 unidades no MS e 18 no MT;
Lar (Medianeira): 13 unidades no MS;
Copagril (Marechal Cândido Rondon): três lojas agropecuárias e representação de máquinas agrícolas em três municípios do MS;
Cocari (Mandaguari): quatro unidades em GO;
Cocamar (Maringá): duas unidades no MS.

OBS: As unidades no Centro-Oeste responderam por 15,9% (R$ 4,6 bilhões) do faturamento total (R$ 29 bilhões) das seis cooperativas paranaenses em 2017.

*Matéria originalmente publicada na edição 102 da revista Agro DBO. 

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